ISSN 1807-1783                atualizado em 07 de abril de 2009   


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A história como laboratório comprobatório: a luta entre o Behemoth e o Leviatã em Thomas Hobbes

por Débora Regina Vogt


Imagem de William Blake, pintor inglês, representando a luta entre as duas figuras simbólicas: Behemoth e Leviatã
Imagem de Wikipédia

Sobre a autora*

Vi nessa revolução um movimento circular do poder soberano, que foi do falecimento do rei para seu filho, passando por dois usurpadores - pai e filho - (...) moveu-se do rei Carlos I para o longo parlamento; daí para o rabo; do Rabo para Oliver Cromwell; e então de volta a Richard Cromwell para o longo parlamento; deste, para o rei Carlos II, onde se espera que permaneça por muito tempo. (Hobbes, 2004, p. 262).

Hobbes é um dos nomes mais conhecidos quando falamos em absolutismo. Conhecido por algumas frases, muitas vezes repetidas sem o devido contexto, o pensador é alvo de muitas análises parciais. Citado em livros didáticos como modelo das teorias dos séculos XVI e XVII, ele é colocado como mostra do que eram as monarquias absolutistas do Velho Mundo. Como eixo central de seu pensamento está a formação do estado que, de acordo com o filósofo, surge do desejo do homem de sair do estado incial de guerra desmedida. Contudo, para que a paz exista é necessário entregar todo o poder ao soberano, único que pode trazê-la. No entanto, elementos dentro do próprio estado, muitas vezes, propagam a quebra da soberania. Esses, conscientemente ou inconscientemente, trazem para a sociedade a instalação do caos e o fim da vida em sociedade. Esta, assim, para o pensador, transita entre a paz e o caos, representados pela constituição do poder soberano e a guerra civil, respectivamente. Elas são para ele, contudo, mais do que eixos centrais de sua teoria, são partes de sua própria experiência de vida.

Apesar de sua importância, no Brasil, há poucos trabalhos historiográficos[1] sobre Hobbes. A maior parte dos estudos sobre o pensador concentra-se na Filosofia e na Ciência Política. É como se nós, historiadores, delegássemos não só ele, mas outros pensadores igualmente, às disciplinas diferentes da nossa. Contudo, o pensador inglês tinha a história como eixo central em sua filosofia. Sua relação com a disciplina começara já em 1629, com a tradução, para o inglês, da obra de Tucídides, Guerra do Peloponeso. Publicada no início da Revolução Inglesa, em 1628, quando o parlamento entrega a Carlos I a Petição de Direitos, ela foi, de certo modo, uma forma de mostrar aos seus contemporâneos os malefícios da democracia. Afinal, foram eles, os democratas gregos, que levaram Atenas à terrível Guerra do Peloponeso, onde iniciou sua ruína. No entanto, o filósofo dedicaria mais de seu tempo e de sua análise à história com sua descrição da Guerra Civil Inglesa, esta, porém, vivenciada por ele.

Quarenta anos depois da publicação de sua tradução de Tucídides, o filósofo faria seu trabalho sobre a história que presenciou, Behemoth ou o Longo Parlamento. Novamente o tema da guerra é central, assim como o valor pedagógico, já que permanece constante a ameaça da volta ao estado de natureza. Da mesma maneira que os democratas gregos, através do uso da retórica, causaram a destruição da cidade, os parlamentares e pregadores ingleses iludiram o povo e levaram o país à guerra civil.

Embora Hobbes seja um autor em geral muito conhecido dentro das ciências humanas, muitos desconhecem sua obra sobre história que, curiosamente, faz contraponto com seu livro com maior profundidade teórica, Leviatã. Embora não seja um historiador, sua preocupação ao narrar a história da Revolução Inglesa foi no sentido de comprovar suas teoria filosóficas. Por isso, só é possível compreender o Behemoth em contraposição a outras obras do pensador, quando ele define, de forma mais clara, o que entende por estado e sociedade. O Leviatã, por exemplo, obra que faz contraponto com o título de seu livro histórico, foi publicado em 1651, em pleno clima de guerra civil, marcando seu histórico de apoio ao poder monárquico, já que em 1640, retornando à Inglaterra,no início da Revolução Inglesa, colora-se abertamente a favor de Carlos I. A publicação do Leviatã marca, portanto, de certa forma, o desfecho de suas posições e explicita uma visão mais bem acabada do homem e do Estado.

No prefácio do Behemoth, Renato Janine Ribeiro questiona," Por que um filósofo como Hobbes, que passou boa parte da vida criticando as metáforas, figuras e imagens, e mais que isso, responsabilizando-as pela subversão e guerra civil, dá a duas de suas obras títulos que evocam monstros?"[2]. A resposta pode ser mais do que um jogo de figuras de linguagens, antes, os dois monstros "Leviatã" e "Behemoth" são duas realidades em que pode encontrar-se a sociedade: a paz ou a guerra civil. As duas obras têm certa carga simbólica. Referem-se a monstros citados no livro de Jó. Contudo, enquanto um é monstro marinho o outro é terrestre. O Behemoth, descrito por vezes como um hipopótamo, tem sua existência anterior ao dragão (Leviatã) na Bíblia. No caso do filósofo, o Leviatã representa um poder incontestável, enquanto o segundo é a força do irracional ou do caos. Contudo, o primeiro tem existência anterior ao segundo. Essa questão seria, também, proposital, pois o estado do homem antes da estabilização da ordem é de caos, de guerra de todos contra todos. A experiência da guerra, segundo Nádia Souki (2008), teria dado ao filósofo elementos para produzir sua teoria sobre a natureza humana e a formação do estado. Se o Behemoth é escrito sob a forma de diálogo, podemos afirmar que o Leviatã e a primeira obra estabelecem, também, um diálogo entre si, que demonstra e enfatiza os pontos centrais da teoria filosófica de Hobbes: o poder soberano e a guerra civil.

Escrito em 1668, o Behemoth ou o Longo Parlamento não teve publicação durante a vida de Hobbes. Ele tinha intenção que isso acontecesse, mas não foi autorizado por Carlos II. A obra tem como objetivo mostrar empiricamente como os sedutores (principalmente o clero) corromperam o povo e quebraram o princípio da vida em sociedade, a soberania. A primeira publicação oficial acontece em 1682, três anos após a morte de seu autor, por seu amigo e editor Willian Crooke. Contudo, alguns manuscritos ilegais já circulavam na Inglaterra, sendo usados, curiosamente, pelos dois lados na guerra civil. O livro se propõe a ser um relato da Revolução Inglesa e dos acontecimentos que a antecederam. Seu objetivo é mostrar como e porque, na prática, se produz a condição da guerra. O relato é narrado por dois personagens que, diferente de um diálogo platônico, onde além de termos uma breve apresentação dos personagens, as opiniões são antagônicas e há uma busca de convencimento, não há identidade alguma dos envolvidos e suas opiniões são consensuais. O que podemos afirmar é que um deles parece ter presenciado os fatos, sendo mais velho (A), enquanto o outro escuta e faz algumas considerações (B).

Na linha teórica de Quentin Skinner, historiador inglês, podemos afirmar que uma compreensão maior do filósofo vem de uma análise mais aprofundada de seu contexto, delimitando suas estratégias de persuasão junto ao seu público alvo. Como um pensador político, Hobbes estabelece certa forma de convencimento e de confirmação de suas teorias. No caso do Behemoth, em específico, ele utiliza a história como elemento comprobatório de suas teorias. Ela seria uma espécie de laboratório experimental que mostrava claramente a natureza humana e o ciclo natural da história, que vai do caos à formação do estado.

Minha intenção neste artigo não é fazer um estudo aprofundado do Behemoth, mas delimitar, sumariamente, uma análise do pensador através da leitura histórica de sua obra sobre a guerra civil inglesa. Para isso, o constante diálogo com suas teorias filosóficas é essencial. Contudo, é preciso ver o autor como junção de vários elementos histórico e pessoais que o constroem. Creio que tal diálogo, juntamente com uma análise criteriosa de seu pensamento pode estimular futuramente um debate maior entre os historiadores acerca do filósofo.

A passagem final do Behemoth, colocada na epígrafe deste artigo, mostra-nos, em parte, a relação estabelecida entre o pensador e a disciplina histórica. De fato, para ele, a história não mostra novidades, ela é a repetição de algo anterior. A guerra civil, por ele narrado nesta obra, não era diferente de tudo o que havia acontecido no passado (como nós afirmamos ser), era ocasionada por uma quebra no princípio de soberania, formador do estado, era, em outras palavras, a volta ao estado de natureza.

Guerra Civil

Na visão do pensador, a guerra civil é, portanto, o fim da vida em sociedade, a volta ao estado de natureza. Os homens não desejam isso racionalmente, contudo, pelas artimanhas daqueles que tramam contra o poder soberano, a guerra civil é instalada. Nada é pior que esse tipo de combate, quando não há possibilidade de um sair vencedor: o caos é instalado. Contudo, para o pensador, o povo não é capaz de entender seu dever sozinho - que é honrar seu soberano -, por isso, Hobbes afirma que nos púlpitos deviam ser ensinadas as leis. Contudo, na Inglaterra moderna, segundo o filósofo, os pregadores propagaram a revolta contra o rei e quebraram o princípio básico onde iniciava a sociedade: a soberania.

Para compreendermos Hobbes do ponto de vista histórico, é necessário entendermos primeiramente o contexto político do qual faz parte. O filósofo cria sua teoria sobre o estado num período em que a soberania do rei era colocada em xeque. Como alguém ligado a nobreza desde a tenra idade (aos sete anos foi recebido como pupilo por Robert Latimer), ele é um defensor do poder absoluto do rei, para o pensador, a única maneira de haver paz na sociedade. Contudo, havia nascido num período de questionamento do poder político e de pressão do parlamento por mais direitos. A Inglaterra mergulhava em disputas efervescentes e questionava os princípios defendidos por pessoas como Hobbes. No entanto, diferente de seus colegas de nobreza, não coloca o poder soberano como algo divinamente constituído, mas como humanamente construído.

Depois da reforma protestante na Inglaterra, em 1536, a igreja romana passa a ser separada do Estado na Inglaterra. A partir daí, conseqüência da própria livre interpretação das escrituras, a qual Hobbes critica, cresce o número de vertentes protestantes, sendo os puritanos uma das mais fortes na Inglaterra. Embora Hobbes veja problemas já na Igreja Católica, raiz das vertentes protestantes, é contra os puritanos que ele direcionará suas críticas mais violentas. O filósofo tinha razão, segundo seu ponto de vista, de assim proceder. Afinal, os puritanos estavam intrinsecamente ligados à guerra civil na Inglaterra moderna. Eles lutavam por uma reforma não só na igreja, mas na própria sociedade.

Os puritanos foram piedosos ministros ingleses, escoceses e americanos que nos séculos dezesseis e dezessete buscaram purificar a Igreja da Inglaterra (Anglicana) de todos os vestígios de rituais e costumes papistas. Para isto, combinavam piedade e disciplina com o desejo de reformar a maior parcela possível da igreja e da sociedade. Eles estavam interessados em ensinar e pregar apenas segundo as escritura (...).(FERREIRA,1999, p.01) [grifos meus]

A Revolução Inglesa é também chamada de Revolução Puritana, isso se deve muito ao envolvimento desses na guerra civil, ao contrário da igreja anglicana e romana, favoráveis ao rei. Os puritanos preocupados em não só reformar a igreja, mas a própria sociedade - conforme citação - tiveram atuação decisiva tanto no parlamento como nos púlpitos. A pregação, para eles, era uma forma de chamar os eleitos. Herdeiros da doutrina calvinista, acreditavam na predestinação. A atuação de alguns, inclusive, não se restringiu à pregação. Baxter, por exemplo, pastor puritano, chegou a lutar na Revolução Inglesa. Sobre ele, afirma Ferreira (1999, p.13): (...) Trabalhou como capelão do exército do parlamento em Conventry de 1642 a 1645, e também no 9º regimento de cavalaria, comandado pelo coronel Edward Walley, de 1645 a 1647, durante a guerra civil.

Em sua descrição da guerra civil, Hobbes ataca com veemência o clero protestante. Ele os chama de sedutores do povo e os coloca como a raiz de todos os problemas. Sua experiência, conforme vimos, o permite pensar assim e criar, a partir disso, sua teoria sobre o estado e a sociedade. Um filósofo não argumenta para qualquer época e lugar, mas para um momento histórico específico. No caso de Hobbes, esse é o da Revolução Inglesa. O que ele afirma faz sentido para um determinado grupo, seus pares e pessoas que presenciaram ou sentiram as conseqüências dos mesmos fatos históricos vividos por ele. De acordo com Quentin Skinner, o historiador deve buscar nas idéias dos pensadores não elementos considerados atemporais e imutáveis (como se eles realmente existissem), mas o que é historicamente colocado e fazia sentido para os que o ouviam e liam. Um filósofo político procura convencer, não nós, seus futuros leitores, mas seus contemporâneos (SKINNER, 2003, p. 10).

Para Hobbes, o clero era o principal promotor do caos instalado com a guerra civil na Inglaterra. Através de seus sermões eles iludiam o povo e quebravam o princípio básico da paz em sociedade. A pregação era, no momento, o grande eixo de aglutinação popular. Segundo ele, os pregadores puritanos estavam preocupados em conquistar o amor do povo e uma boa opinião das pessoas. Assim, de acordo com o pensador, fingiam-se de fiéis e zelosos pelo serviço de Deus

De acordo com Christopher Hill (1985), a linguagem comum do século XVII era religiosa. A igreja guiava todos os movimentos dos homens, além disso, era o único caminho de acesso à vida futura que almejavam. Por isso, a disputa entre parlamentares e partidários do rei se demonstrará, também, como disputa entre anglicanos e presbiterianos, e é essa que ocupará a literatura panfletária. Era pela religião que as crianças eram educadas. Para a massa iletrada o sermão constituía o principal meio de informação sobre os acontecimentos e problemas comuns (HILL, 1985, p. 19). É por causa desse poder que a rainha Isabel fazia-se certificar que os pregadores leriam suas homilias oficiais nos púlpitos (HILL, 1985, p.20). Hobbes não é contra o poder religioso, pelo contrário, suas obras são recheadas de citações bíblicas, mas, para ele, a religião tem um senhor, outorgado pelo próprio Deus: o soberano.

O filósofo traça, ao longo do Behemoth, o caminho maquiavélico da sedução imposto à “massa ignorante”. Para que o povo aceitasse guerrear contra o seu soberano, colocando-se ao lado do parlamento, foi necessário já estar corrompido, enganado por esses pregadores que espalharam a sedição na Inglaterra. Quando B questiona como pôde o parlamento iniciar a guerra se o rei tinha a seu serviço grande marinha e soldados treinados, “A explicará que as pessoas já estavam corrompidas, afastadas de seu dever pela ação dos sedutores (Hobbes, 2004, p. 62).

Os pregadores acreditavam ser chamados por Deus para o seu propósito e criam estar cumprindo um chamado divino. Segundo Christopher Hill (1988), a predestinação, marca do calvinismo (especialmente), mostrava seus efeitos políticos e sociais na Inglaterra. A ênfase nas obras não como elementos de salvação, já que está se dá só pela graça, mas como algo que glorifica ao seu Deus, caracteriza os protestantes do século XVII. Encorajados pela certeza de que Deus lutava com eles, não tinham medo de lutar contra o sistema que não concordavam e levavam outros a fazer o mesmo. Tinham coragem e confiança, pois acreditavam ser os eleitos de Deus. (HILL, 1988, p. 197).

A pregação era uma maneira de chamar os eleitos para sua vocação neste mundo. A relação dos protestantes com Deus, de acordo com Hill, enfatiza um relacionamento individualizado entre o sujeito e Deus. O Senhor cumprirá sua vontade, afirmavam os presbiterianos, mas os escolhidos devem cooperar com seus propósitos. Deus, para os protestantes, utiliza-se do povo comum para cumprir sua vontade: os homens cooperaram com Deus, conscientemente ou não (HILL, 1988, p. 216.)

Usando-se da história como exemplo capaz de transmitir conhecimento, Hobbes afirma que na Antigüidade os reis eram sacerdotes também, não dividindo a soberania. De acordo com ele, portanto, esse era um erro na Inglaterra - a história demonstrava - pois isto ocasiona a quebra do princípio da vida em sociedade. Sua visão da história pode ser entendida através dessa comparação. Ela é um coquetel de exemplos, passível de repetição. Se a França de 1789 historiciza o homem e põe as revoluções como ponto alto da história, para Hobbes elas são a “repetição” de algo anterior à constituição do estado. “Falando, assim, de uma revolução circular do poder que mostra o quanto é vã a Revolução Política, que nada muda (...)” (Hobbes, 1999, p. 102). A história não cria algo novo, ela revela o que é a natureza humana e ensina-nos a proceder em relação a ela. No Leviatã, o filósofo chega a afirmar que governa melhor quem mais conhece a natureza do homem, essa seria, portanto, a maior utilidade da história.

Sociedade: contrato entre os homens

Para Hobbes, o rei não deve ser obedecido porque é da vontade de Deus (como muitos afirmavam, em sua época), mas porque os homens, em comum acordo, decidiram. Isso garante a manutenção da vida e é esse o eixo essencial de sua teoria: o homem tem medo da morte, por isso entra em sociedade. O direito de cada um buscar sua própria sobrevivência é a chave para entendermos a construção do Estado, assim como o desejo "natural do homem" de sair do estado inicial de guerra desmedida e sem poder constituído para a instituição de uma sociedade onde exista a paz e, principalmente, a conservação da vida. No entanto, a paz só pode existir se a soberania estiver presente de fato, pois se essa for quebrada a guerra voltará.

Por intermédio do contrato, o indivíduo priva-se de retomar direitos abdicados, esta é sua obrigação política quando entra na vida em sociedade (Leivas, 2006, p. 292). Há somente um momento em que o soberano pode ser deposto, é quando a finalidade essencial do pacto não se verifica, quando não há segurança interna e externa dos súditos. Nesse caso, e somente neste, o governante pode ser legitimamente deposto.

Contudo, o que desejavam os religiosos, segundo o pensador, era a quebra desta soberania. Como ela não pode ser quebrada (para ele não existe direito soberano repartido), a guerra civil passa a existir. Tudo parece claro no raciocínio do filósofo, já que quando escreve é o período da restauração monárquica pelo governo de Carlos II (seu ex-aluno). A história mostrava, portanto, que ele tinha razão e ela era realmente um ciclo, afinal, após o caos a ordem estava de volta. No entanto, era necessário orientar seus contemporâneos do que poderia voltar a acontecer caso a soberania fosse quebrada.

Para o filósofo inglês, o homem não é naturalmente sociável ou político, como afirmavam seus opositores escolásticos. Pelo contrário, o desejo do homem natural é o bem para si, não importando as conseqüências desse comportamento. O homem não é um animal político, como defendia Aristóteles, para Hobbes, ele entra em sociedade pelo medo de morrer e pela esperança de ter uma vida em paz. Sua filosofia, assim como a de Maquiavel, tem um alvo: as ações políticas, especialmente, o fim delas. No capítulo que analisa a história – The History- em The Political Philosophy of Hobbes, Leo Strauss (1967) afirma que Hobbes vai à história em busca de respostas para seus problemas filosóficos. De acordo com ele, a filosofia tradicional não dava ao filósofo inglês as respostas que ele procurava. Esta insatisfação quando à escolástica é recorrente no humanismo e Hobbes é um dos seus representantes[3]. Esta nova relação (entre a história e a filosofia), diferente da anterior, dá a filosofia um objetivo revolucionário, de ação política, já que é a história e não a filosofia quem ensina ao homem prudência (STRAUSS, 1967, p. 79 e 80). Uma função pedagógica, portanto, é o que o filósofo propõe para a narrativa histórica.

Embora Hobbes seja visto, na maioria das vezes, como um autor que enfatiza a natureza humana como algo sempre negativo, ele é, essencialmente, um valorizador da vida. Para ele, a sociedade foi constituída para a manutenção da vida e por isso o soberano existe. Os homens, naturalmente, buscam seu próprio bem e sem alguém que governe, todos querem ser senhores de tudo. Como isso não é possível, o resultado é a guerra desmedida e sem fim. Ao perceberem a situação em que se encontravam os homens decidiram, racionalmente, entregar seu poder anterior ao soberano. A moeda de troca é a paz e certeza da manutenção de suas vidas.

Embora os trabalhos feitos sobre Hobbes sejam numerosos, a historiografia brasileira continua com dívidas em relação ao pensador. Contudo, entender suas obras é penetrar na vida social e política da Inglaterra na era moderna. Suas teorias foram fervorosamente debatidas e combatidas por seus colegas e oponentes políticos, assim como filosoficamente ele inaugurou uma nova fase, não mais enfatizando a contemplação, mas, principalmente, a ação. A guerra civil e a restauração são os eventos mais importantes da história inglesa do século XVII. A batalha entre o dragão e o hipopótamo permeia os caminhos dos contemporâneos de Hobbes.

Bibliografia Utilizada:

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_______________. Leviatã ou Matéria, forma de um poder eclesiástico e civil. Tradução de João Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva. Coleção os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1999

Leivas, Cláudio Roberto Cogo. Representação e Vontade em Hobbes. 2005. Tese (Doutorado em Filosofia)- Instituto de Filosofia de Ciências Humanas, Pós-graduação em Filosofia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2005

LOPES, Marcos Antônio. Grandes nomes da história intelectual. São Paulo: Contexto, 2003

Ribeiro, Renato Janine. Ao Leitor sem Medo: Hobbes Escrevendo contra seu Tempo. Belo Horizonte: UFMG, 2004

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Skinner, Quentim. Los Fundamentos del Pensamiento Politico Moderno. Tradução de Juan José Utrilla. Mexico: Fondo de Cultura Económica, 1985

SOUKI, Nádia. Behemoth contra Leviatã: guerra civil na filosofia de Thomas Hobbes. São Paulo: edições Loyola, 2008.

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Villanova, Marcelo Goss. Lei Natural e Lei Civil na Filosofia Política de Thomas Hobbes. 2004. Tese (Doutorado em Filosofia) - Instituto de Filosofia e Ciências Humanas,Curso de Pós-graduação em Filosofia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2004


* Graduada em história licenciatura pela UFRGS e mestranda na UFRGS.

[1] Afirmo isso tendo como base minha recente pesquisa para a execução do projeto de pesquisa para o mestrado. Dentro do que pesquisei, encontrei somente o trabalho do professor Dr. Marcos Antônio Lopes acerca da dessacralização do poder em Hobbes na modernidade (LOPES, 2003).

[2] RIBEIRO, 2001, p. 09.

[3] “(...) esta profunda insatisfação com a filosofia tradicional é latente nesta mudança da filosofia para a história, característica do período humanista de Hobbes. Com esta nova relação, a função da história é revolucionária, em contraste com os elementos tradicionais (...)” [a tradução é minha] (STRAUSS, 1967, p. 79).