ISSN 1807-1783                atualizado em 20 de abril de 2010   


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Religiosidade e Etnicidade em Guajuvira – Curiúva Paraná (Parte 1)

por Maria Antônia Marçal

Sobre o artigo[1]

Sobre a autora[2]

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O presente trabalho tem por objetivo compreender as relações sociais e étnicas existentes no Guajuvira[3] mediatizadas pelas práticas religiosas mantidas pelos moradores do aludido bairro. Portanto, a partir do estudo da religiosidade, pretende-se apontar elementos culturais e étnicos desta comunidade. A principal fonte de pesquisa utilizada para a realização deste trabalho foi à história oral, esta permite a produção do conhecimento histórico através de representações das classes populares sobre suas práticas, visões de mundo e organização da sociedade.

Durante as entrevistas realizadas no Guajuvira foram priorizados os relatos dos mais velhos, para posteriormente analisar o sentimento de pertença destes habitantes em relação ao bairro. Num primeiro momento, elaborou-se um questionário geral possibilitando a análise de diversas leituras acerca de um mesmo acontecimento, em seguida, foram formuladas questões dirigidas segundo as funções sociais dos moradores exercidas no bairro onde coletou-se os seguintes dados: nome, idade, profissão, local de nascimento e local de residência. A partir dos nomes e depoimentos pode-se detectar a existência de laços consanguíneos, sendo que o local de nascimento e residência permite analisar os movimentos de entrada e saída no bairro. As questões dirigidas aos entrevistados giraram em torno da formação do bairro, sobre a Igreja, as festas religiosas e as funções exercidas pelos moradores por ocasião das mesmas.

A dança de São Gonçalo, manifestação emblemática deste grupo social foi, devidamente, registrada por meio de filmagem e fotografias, constituindo-se o fio condutor das reflexões sobre etnicidade e religiosidade. Este trabalho tem como protagonista o homem comum e suas estratégias cotidianas, suas artes de fazer, suas crenças, sua forma peculiar de nomear a realidade em si, a ciência do cotidiano.

O homem comum tornou-se centro das pesquisas históricas a partir de 1929, com a publicação de uma revista francesa, denominada Annales, cujos fundadores foram Marc Bloch e Lucien Febvre. Assim, contra a história historicizante de natureza política e militar Febvre e Bloch propunham uma nova história, problematizadora do social, a qual levasse em conta os modos de sentir, viver e pensar das massas anônimas. O movimento dos Annales irrigou o campo historiográfico mundial, com pesquisas e reflexões. Nos seus primórdios, os estudos das mentalidades tornaram-se legítimos objetos de investigação, criando espaços para estudos posteriores, dos sentimentos, crenças e costumes[4].

O homem comum e sua forma peculiar de vivenciar o catolicismo é o cerne deste trabalho. Pretende-se apresentar não somente a religiosidade popular e suas particularidades, mas, sobretudo, a forma como esta é interpretada e incorporada à vida do “crente” constituindo-se uma identidade. Para esta análise utiliza-se neste trabalho a reflexão de Pierre Sanchis sobre Sincretismo Religioso, a qual é interpretada não como uma mistura de duas ou várias religiões, cuja definição é bastante comum no campo sociológico, mas como uma ressemantização do universo simbólico a partir da religiosidade.

A caracterização do espaço onde se desenvolvem as relações sociais e religiosas é interpretada a partir do conceito de bairro de Pierre Mayol. Para este autor, um bairro é um espaço de conhecimento e reconhecimento onde as pessoas travam relações cotidianas mediatizadas pelo jogo da conveniência e convivência, estes elementos sedimentam o sentimento de pertença ou não-pertença entre os moradores de uma comunidade ou grupo social.

A dança de São Gonçalo existente no interior deste bairro institui simbolicamente, entre estes habitantes e os moradores de Curiúva, uma “fronteira” cuja delimitação é o reconhecimento desta prática enquanto uma manifestação emblemática deste grupo pela sociedade ambiente. Para se efetuar a análise destas fronteiras utilizar-se-á o conceito de fronteiras de Fredrik Barth, para este autor a etnicidade é uma forma de organização social que classifica as pessoas em função de sua origem, elemento que permite uma dicotomitização: Nós/Eles. Nesta perspectiva dar-se-à a análise entre a comunidade do Guajuvira e a sociedade ambiente. Assim, a partir da análise da estrutura social e religiosa desta comunidade buscar-se-á apontar o processo de construção da identidade étnica destes habitantes.

UM LUGAR, UMA HISTÓRIA

Um bairro se define não apenas geograficamente, mas pelo conjunto de relações que o permeiam definindo-o de maneira especifica. Portanto, um bairro é um espaço onde as pessoas se relacionam, se reconhecem, partilhando tempo e experiência. Neste espaço, as relações entre os integrantes deste grupo social são construídas através da convivência, cada sujeito é definido não somente pelo nome, mas pela sua relação com os demais. Ou com o Guajuvira, pelo mesmo referencial histórico, sendo ligados por laços de parentesco[5].

O Guajuvira é um bairro localizado na zona rural da cidade de Curiúva-PR, e é composto em sua maioria por negros ligados por laços consanguíneos, uma vez que no Guajuvira os casamentos são realizados em sua maioria entre parentes. Esta peculiaridade faz com que o perfil deste bairro se apresente de forma diferenciada, constituindo um espaço onde as relações sociais e culturais se tornam mais profundas e complexas.

Neste bairro residem cerca de 116 habitantes, descendentes dos primeiros ocupantes, que se fixaram no início do século XX, oriundos das terras circunvizinhas à cidade de Piraí do sul, mais especificamente do lugar denominado Murtinho pertencente à região do Rio da Cinza. Os primeiros habitantes do Guajuvira obtiveram a concessão dessas terras pelo governo do Estado em 1920. Assim, os familiares destes moradores fixaram-se definitivamente neste bairro a partir da intensificação da atividade agrícola, processo que culminou com a construção de casas próximas umas das outras. Outra característica essencial do núcleo do Guajuvira é a endogenia, isto é visível na própria dinâmica social que apresenta um alto índice de casamentos intra bairro. Tal constituição social parece favorecer a pouca identificação com os brancos da cidade de Curiúva, apesar de ambas as localidades, hegemonicamente, partilharem da fé católica.

Contudo, estes habitantes vivenciam o catolicismo de maneira específica revestindo-o de elementos simbólicos de sua cultura. A esta expressão religiosa chamamos de catolicismo popular e tornou possível a esta comunidade bem como, aos povos da América Latina (negros, índios e mestiços) em geral vivenciar inúmeros catolicismos populares em decorrência desta pluralidade cultural e étnica, através do qual foi possível forjar uma identidade cultural religiosa e étnica[6].

A existência destes catolicismos populares se realizou no cerne da própria Igreja, na medida em que, no processo de evangelização, a mesma atribuiu ensinamentos e espaços religiosos diferenciados (associações e irmandades religiosas) para os diversos segmentos da sociedade colonial. Assim, o catolicismo foi “ensinado” de maneiras diferenciadas aos homens do reino, aos pobres, aos índios, negros e mestiços visando possivelmente à manutenção da ordem estabelecida.

Desta maneira, devido à diversidade cultural e étnica o processo de apreensão e incorporação deste catolicismo entre os negros trazidos da África e os povos indígenas aconteceu de maneiras distintas, instaurando na América Latina e mais especificamente no Brasil formas diferenciadas de ser católico. A religiosidade torna-se, portanto, catalisadora de identidades e sociabilidade, as irmandades religiosas existentes no Brasil colonial são exemplos de manifestação religiosa, de identidade cultural e de sociabilidade. Esta religiosidade se encontra marcante nas devoções à Santa Rita de Cássia e São Sebastião existentes entre os habitantes do Guajuvira. À época colonial eram devoções dos escravos, por se tratar de uma comunidade majoritariamente negra pode ser que estas tenham se mantido deste aquele momento.

Dentre as práticas religiosas que subsistem neste bairro, citamos: as festas, dos mesmos, Santa Rita de Cássia e São Sebastião e a dança de São Gonçalo, sendo que a primeira é realizada no dia 22 de maio e a Segunda no dia 20 de janeiro. A dança de São Gonçalo não possuí um dia específico para acontecer, geralmente é realizada no dia proposto pelo (a) penitente[7]. É importante ressaltar que, tais práticas são dirigidas por leigos[8], da mesma forma que as irmandades na época colonial, e realizadas há muito tempo por esta comunidade se constituindo como uma tradição, entendida como um conjunto de elementos simbólicos que caracterizam um grupo social os quais estão sujeitos à transformações.

A dança de São Gonçalo existente no Guajuvira é um elemento emblemático desta comunidade, uma vez que dentro do bairro os romeiros[9] se destacam por conhecerem os procedimentos da dança, exercendo principalmente nas festas um determinado poder o qual é legitimado pelos demais moradores. Pois, mesmo aqueles que participam da dança há mais tempo, ou seja, os mais velhos dizem não saber os procedimentos da mesma, atribuindo aos romeiros tal conhecimento.

Neste bairro o poder ou liderança encontra-se centrado nas seguintes figuras: a pessoa encarregada de organizar as festas e cuidar da igreja (Salvador); os conhecedores dos procedimentos da dança de São Gonçalo e organizadores da mesma; (os romeiros) e na pessoa de Pedro Meireles[10], o qual possuí um certo poder de decisão junto àquela comunidade, simbolizando possivelmente um patriarca, alguns elementos apontam nesta direção tais como: “a guarda” de São Gonçalo, exemplifica de certa forma uma mobilização de pessoas, romeiros, que no período das festas vão até a casa de Pedro Meireles buscar a imagem do santo da romaria levando-o até o local da festa.

Na cidade de Curiúva alguns moradores associam instantaneamente os habitantes do Guajuvira á dança de São Gonçalo evidenciando a força desta tradição esta adquire uma forte representação simbólica dentro da comunidade e fora dela. Dentro da comunidade o romeiro é um indivíduo que recebeu um Dom, alguém “especial”. Entretanto, fora desta comunidade o romeiro deixa de ser o centro para integrar o conjunto, ou seja, toda a comunidade, já que a dança de São Gonçalo identifica todo o grupo.

A festa em louvor a São Gonçalo[11] é realizada na medida em que um pedido é atendido. Este ritual se efetua nas proximidades da casa da penitente. Tal acontecimento mobiliza tanto as pessoas do bairro e das proximidades quanto os moradores da cidade de Curiúva. Nesta romaria, alguns fiéis levam produtos comestíveis para serem comercializados no local da festa. Porém, as comercializações destes produtos somente podem ser executadas se o dono da casa onde está se realizando a festa não tiver preparado nada para ser vendido à comunidade. Esta atividade não é desempenhada aleatoriamente, mas é representada por uma mulher que sempre acompanhou a romaria levando estes produtos.

O santo festejado permanece na casa de Pedro Meireles, saindo apenas no momento desta comemoração. A saída do santo da casa de Pedro é anunciada por foguetes, e em seguida o santo é cuidadosamente conduzido ao local da dança pelos romeiros. São Gonçalo é o santo da festa, da alegria e da reza, o que se evidencia através da própria imagem (pequena e de bronze com uma viola). Trata-se de um santo negro, como seus devotos que os auxilia cotidianamente, ajudando-os a viver melhor. A reza a este santo não acontece no espaço da igreja oficial, mas nas proximidades da casa da penitente, ao ar livre, até o raiar do dia. O ato de rezar desta população se apresenta como algo alegre, festivo, espontâneo.

Ao início da primeira “vorteada,”[12] um dos romeiros anuncia a necessidade de respeito, pois dança simboliza uma manifestação religiosa, após este comunicado tem início a romaria. Esta dança ocorre por inúmeros motivos, seja pela construção de uma casa ou até mesmo pela saúde de uma criança. Percebe-se, uma proximidade entre o devoto e o santo, o qual se realiza sem intermédio de um padre. Portanto, nesta comunidade é evidente que a satisfação das necessidades terrenas ocorre através da fé, numa relação entre o sagrado e o profano. Este pragmatismo existente nesta coletividade, constitui um traço característico do catolicismo popular, onde esta relação com Deus ou o santo acontece espontaneamente, estando intimamente ligada à vida cotidiana destas pessoas. Paralelo aos paradigmas de uma Igreja tradicional desenvolve-se no Guajuvira formas diferenciadas de ser católico.

Na dança de São Gonçalo são realizadas três “vorteadas” sendo que cada uma compreende cerca de sete passos diferenciados e no final é dado “viva a São Gonçalo”. Ao final é servido um café com pão a todos os participantes da dança oferecidos pelos donos da casa, esta tradição se modificou ao longo do tempo, pois anteriormente matava-se um boi. Com isso, pode-se assinalar que muito embora tenha havido uma alteração nos símbolos desta manifestação, tem-se como outrora a existência de um espaço no qual as pessoas se unem para uma manifestação de agradecimento de uma graça recebida. É importante notar que, a dança de São Gonçalo é um local onde se entrelaçam as mais variadas relações: religiosas, culturais, sociais e econômicas (na medida em que existe a comercialização de produtos comestíveis é uma constante).

Paralelo a estas atividades tem-se a realização das missas na capela do bairro, cujo patrono é São Sebastião. Esta missa é ministrada uma vez por mês, momento em que se faz necessário a presença de um padre. É bastante relevante a existência de dois espaços de manifestação religiosa: o da Igreja oficial e o do catolicismo popular. Este último foi bastante combatido pela Igreja no final do século XIX e início do XX momento em que se deu um processo de clericalização e europeização das práticas litúrgicas no Brasil, em substituição ao catolicismo leigo o qual era visto por sacerdotes em especial Dom Sebastião Leme, arcebispo de Olinda, como irracionais e desprovidos de conhecimentos litúrgicos.

Apesar de se empenhar em romper com a “ignorância religiosa” das classes populares através da obrigatoriedade do ensino religioso em escolas particulares, por exemplo, Dom Sebastião não conseguiu fazer com que o povo abandonasse suas antigas práticas religiosas, suas festas em devoção aos santos. Dada esta circunstância este sacerdote usou de sua perspicácia ao tentar trazer a figura do padre para este cenário. A tensão existente entre catolicismo popular e a Igreja oficial não se restringiu àquele momento, da mesma forma como não foi superado no Concílio do Vaticano II (1962-1965) quando se deu uma maior participação do leigo nas pastorais o reconhecimento de práticas religiosas populares entre outros.

No Guajuvira as práticas religiosas tradicionalmente mantidas se chocaram com os interesses da Igreja oficial, este embate aconteceu devido a uma proposta de se ligar a capela à diocese o que se efetivaria se o dinheiro dos leilões destinados ao financiamento das festas de Santa Rita de Cássia e São Sebastião fossem enviados à paróquia de Curiúva. Se tal proposta fosse aceita pela comunidade esta teria missa todos os domingos, uma vez que este dinheiro possibilitaria entre outras coisas a locomoção do padre até este bairro. Entretanto, a mesma foi negada pelos moradores do bairro que de certa maneira reflete o sentimento de pertença àquela comunidade, de identidade comunitária. Esta situação de conflito possibilitou analisar que esta comunidade tem maior identidade as suas práticas religiosas uma vez que a mesma está atrelada à própria história daquele bairro e logicamente a de seus habitantes gerando um sentimento de pertença entre seus moradores.

Desta maneira um estudo sobre religiosidade se torna extremamente relevante na medida em que a mesma se constituí enquanto um espaço de sociabilidade e identidade. A dança de São Gonçalo é um exemplo disto, esta festa reúne homens, mulheres, velhos, crianças e adolescentes que rezam e se divertem, enfim se relacionam mantendo acesa a chama de uma tradição, que embora se modifique não se deixa apagar. Destarte, existem diversas formas de se preservar a identidade cultural e a dança de São Gonçalo se apresenta como uma delas, através do qual é possível perceber não apenas diversas formas de ser católico, mas de constituir uma identidade por meio da mesma.

Este processo de releitura da realidade em si a partir do contato com o “outro” evidencia-se tomarmos os indígenas da América Latina, e mais especificamente no Brasil entre os negros. Estes em suas irmandades religiosas mantiveram até certo ponto a cultura africana, bem como entre os indígenas que não abandonaram completamente suas antigas crenças religiosas sendo que algumas foram incorporadas à religião católica.

Muito embora, a comunidade do Guajuvira, composta em sua maioria por negros, não partilhem de rituais afro-brasileiros, ao que tudo indica constituiu sua identidade étnica a partir da religiosidade popular. Diversas considerações acerca desta comunidade apontam nessa direção tais como: a endogamia fator que geneticamente contribuiu para a formação diferenciada deste bairro. Tal fator pode também significar a manutenção das aludidas tradições no âmbito familiar. O distanciamento existente entre esta comunidade e os brancos de Curiúva é um elemento bastante intrigante, embora algumas pessoas desta cidade participem das festas no bairro do Guajuvira suas relações não passam disso, o que se evidencia na própria dinâmica daquele grupo social.

Outro elemento a ser ressaltado é a manutenção incondicional de determinadas práticas religiosas, as quais se realizam no interior deste bairro o qual se constitui em sua maioria por negros e se caracteriza por ser fechada se constituindo enquanto uma comunidade étnica. Desta forma, o perfil deste grupo social apresenta certas especificidades, na qual o catolicismo popular constitui um elemento de identidade étnica. Contudo, atualmente, tem-se percebido pelos moradores o esvaziamento populacional do Guajuvira, o qual tem sido encarado pelos mesmos como uma ameaça às tradições. Na medida em que as terras vão sendo vendidas e novos habitantes penetram nestes espaços até então familiares, ocorre gradativamente o desmantelamento das tradições.

A venda de terras é uma atitude que envolve vendedor e moradores. Trata-se de um pedaço de chão, onde homens e mulheres construíram suas vidas, suas histórias, este passado longínquo e comum, faz parte do ser daquele lugar, de pertença àquele grupo social. Portanto, é correto afirmar que comercialização de uma propriedade envolve vendedores e moradores, pois a relação entre a terra e seus habitantes apresenta-se bastante profunda, trata-se de um elo entre o indivíduo e a terra e deste com a comunidade. Esta preocupação se acentua quando a mesma é vendida para pessoas de fora, fora daquela comunidade e do núcleo familiar. A venda da terra se caracteriza como um rompimento com o ser do lugar, com a identidade social do indivíduo e com a constituição histórica, cultural e social daquela coletividade. Uma vez que a formação daquela comunidade está ligada por laços de parentesco e culturais.

O processo de venda das terras é um reflexo da impossibilidade de sustentabilidade deste grupo social ante as transformações da sociedade capitalista. A lida na terra integrava simultaneamente o agrupamento de várias pessoas para a execução da atividade de plantio e permitia-lhes um espaço no tempo para "os causos", denotando a transposição de uma rotina em um ritual de sociabilização[13].

Tal fato foi relatado por duas moradoras do bairro, de forma bastante espontânea onde um grupo de pessoas se reunia para limpar a terra a ser cultivada. Porém, esta organização não resistiu às transformações ocorridas na sociedade capitalista, este fato é retratado pela própria venda das terras realizadas no interior deste bairro. Este processo altera a constituição social e histórica e mesmo as manifestações religiosas existentes no interior do bairro. Cuja história encontra-se marcada seja em construções, como a escola, seja na preservação de uma árvore que assinalou o momento de chegada dos primeiros moradores. Portanto, a história do Guajuvira encontra-se registrada no interior do próprio espaço em que circulam cotidianamente seus habitantes.

A escola do Guajuvira traz o nome de uma de suas primeiras moradoras, Rita Tomé, e atende crianças do bairro, portanto descendentes daquela cujo nome foi dado à escola, e outras crianças que residem nas suas proximidades. Desta forma, a escola possui o nome de uma pessoa do lugar, que não é um político da cidade ou um fazendeiro das proximidades, mas é alguém que morou no Guajuvira e, à sua época, conviveu com os moradores de então e, mais, é uma pessoa da família.

Ao se analisar os relatos destes moradores, percebe-se que o bairro possui inúmeras linguagens que se expressam de diversas formas, bem como, as histórias contadas pelos moradores. Uma destas representa uma alegoria fantástica do carvão que vira ouro, retrata um lugar do bairro chamado "Capinzá", diz respeito aos mistérios e riquezas existentes no interior do mesmo. Habita nas profundezas de uma nascente de água do bairro um homem que aparecia para as pessoas trazendo à mão um punhado de brasa pedindo ajuda. Aquele que o ajudasse ficaria rico, pois a brasa iria se transformar em ouro.

Juntamente a esta alegoria fantástica que integra o conjunto de elementos culturais desta comunidade aparecem dois aspectos de cunho moral que merecem destaque: a coragem e a cooperação. Coragem para pegar o punhado de brasa nas mãos o que nos remete a ideia de cooperação e recompensa. Destarte, tal história pode não se tratar apenas de uma alegoria fantástica, mas, de um mecanismo através do qual estejam implícitos valores norteadores de práticas e/ou comportamentos sancionados por este grupo social. Assim, uma vez fora deste grupo, um indivíduo deixa para trás não apenas construções materiais, mas todo o conjunto de elementos simbólicos (as tradições) que o definem como integrante desta comunidade. Uma vez fora deste núcleo social o indivíduo terá que ressemantizar seu universo simbólico e posteriormente se redefinir dentro de um outro grupo social.

AS PRÁTICAS RELIGIOSAS DO GUAJUVIRA

A dança de São Gonçalo é uma manifestação religiosa emblemática da comunidade do Guajuvira, pois juntamente com as festas em homenagem à Santa Rita de Cássia e São Sebastião representam um conjunto de práticas religiosas realizadas no interior do aludido bairro. O destaque dado especialmente a esta dança é devido ao fato desta veicular simbolicamente, um diálogo entre os habitantes do Guajuvira e os moradores de Curiúva, uma vez que, por ocasião da dança de São Gonçalo e demais festas religiosas há uma intensa circulação de pessoas de Curiúva no interior do bairro.

A dança de São Gonçalo é um espaço onde os crentes estabelecem um diálogo com Deus por intermédio do Santo. Através desta, os habitantes do Guajuvira se reconhecem, sendo esta uma tradição mantida pelo grupo. As práticas religiosas manifestas no interior deste bairro demonstram a peculiaridade com que os habitantes vivenciam a religião. Esta forma específica de se dialogar com Deus chamamos de catolicismo popular. Este catolicismo nasceu da interpretação que os diferentes segmentos sociais, indígenas africanos, homens brancos pobres, faziam da religião. O diálogo com o santo é estabelecido a partir de necessidades cotidianas. Poderíamos citar como exemplo para a compreensão deste caráter pragmático deste catolicismo, uma divindade bastante conhecida, Santo Antônio. Esta forma específica de se dialogar com Deus, surgiu no interior do próprio catolicismo tradicional, que já havia sofrido alterações após o contado com povos de diferentes culturas.

Santo Antônio (1195-1231) é uma devoção popular lusitana, cujo índice de devotos durante a Idade Média em Portugal foi bastante elevada, devoção mantida à época colonial em diversas partes do Brasil. Esta divindade era tida como cupido, por isso a designação santo casamenteiro. Outra atribuição a Santo Antônio era de deparador de coisas perdidas, sobretudo para os senhores de escravos na captura de negros fujões[14]. A partir da análise da devoção a Santo Antônio, seja em Portugal à época medieval ou mesmo no Brasil colonial, percebemos o caráter pragmático desta religiosidade popular. Entretanto, para se compreender a constituição desta é necessário apontar o processo de formação do catolicismo brasileiro, uma vez que a religiosidade popular surgiu no interior do catolicismo tradicional. O que se pretende ressaltar é que o catolicismo tradicional foi ressignificado pelos povos que o integraram, originando desta forma “os catolicismos” baseados nas diferentes vivências religiosas.

O Cristianismo do longo de sua história entrou em contato com diferentes culturas, seja na América Hispânica e Portuguesa à época da colonização, nos séculos XV e XVI, seja em outros continentes, em conquistas anteriores a estas no continente asiático e africano. É exatamente neste contato com povos de diferentes culturas que o Cristianismo começa a sofrer interferências. Concomitantemente à sua ação transformadora é transformado[15]. O catolicismo português se caracterizou por seu caráter messiânico, salvífico, guerreiro. O português impregnado pelo ideal salvífico à época da colonização, possuía duas missões em terras brasileiras: colonizar e evangelizar era preciso mostrar ao indígena o verdadeiro Deus, através da catequização[16]. Nos aldeamentos indígenas era transmitido não somente o cristianismo, mas o discurso legitimador da colonização portuguesa.

Porém, para a efetivação da evangelização fazia-se necessário conhecer a língua e a cultura do povo conquistado, neste espaço houve o confronto de duas culturas distintas onde o receptor interpreta a mensagem recebida (o catolicismo) a luz de sua cultura ressignificando seu universo. O choque entre estas duas culturas marcou de forma indelével a organização social e a cosmovisão indígena, se por um lado tem-se o desmantelamento das antigas estruturas organizacionais indígenas, por outro lado paulatinamente iniciou-se um processo de ressignificação do universo.

O encontro entre o português cristão e o indígena por eles denominado pagão não deve ser interpretado unilateralmente como um processo em que os indígenas perderam definitivamente sua cultura. Mas, deve-se atentar para o fato de que muito embora, indígenas e africanos, tenham obtidos projetos de evangelização diferenciados utilizaram-se da religião e/ou cultura do dominador como elemento de ressemantização do universo, constituindo-se como um elemento identitário[17].

Os indígenas da América Latina, da região dos Andes mantiveram forte devoção a Jesus Cristo e à Virgem Maria, ao mesmo tempo em que eram realizadas festas religiosas anualmente para celebrar a figura de Pachamama, terra-mãe, protetora da agricultura, festa esta que revigora os laços entre o homem e a natureza. O ser católico para os indígenas dos Andes está associado a um conjunto de práticas culturais e/ou religiosas que permite a este grupo uma reinterpretação a ligação entre homem e natureza, elementos que traduzem um modo de ser e viver uma experiência religiosa, o catolicismo[18].

Da mesma forma que os indígenas da América, os africanos no Brasil foram integrados ao catolicismo de forma diferenciada nas denominadas irmandades. As irmandades à época colonial, representavam a hierarquização social existente, estas integravam separadamente homens brancos nobres, negros, homens brancos pobres, etc. E mesmo as irmandades dos negros distinguiam-se por nações africanas, os crioulos negros nascidos no Brasil, tinham maior dificuldade de se inserir nas irmandades. O historiador João José Reis[19], aponta que no interior das irmandades existia de certa forma um reflexo da própria ordem escravocrata na qual estava imersa, uma vez que as irmandades estruturavam-se a partir de critérios raciais e de classes sociais. No interior das irmandades, as funções burocráticas eram exercidas por brancos, pois, a maioria dos negros não detinha o conhecimento da escrita, se atentarmos para tal fato, perceberemos o reflexo do mundo dos senhores num espaço de negros e escravos.

Os escravos não constituíam um bloco homogêneo, em certas localidades como na Bahia, as diferenças nacionais constituíram a base das irmandades. Paulatinamente, a partir do séc. XVII as irmandades foram se abrindo, tornando possíveis relações interétnicas. Assim, iniciou-se o processo de abertura das irmandades constituídas em torno de devoções dos escravos à época colonial, Nossa Senhora do Rosário, Senhor Bom Jesus das Necessidades e Redenção Santo Antônio de Categeró entre outros. Porém, a mais numerosa em todo o país foi sem dúvida à irmandade do Rosário. Estas irmandades e/ou confrarias tinham a finalidade inicialmente de ajuda mútua, seus integrantes doavam joias e quando necessitavam a irmandade dava assistência em caso de doença e organizavam funerais em caso de morte. No interior destas existiam os membros responsáveis pela assistência aos doentes, festas e funerais, esmolas, culto ao divino, administração da capela e compra de alforrias de escravos.

É perceptível, que as irmandades à época colonial possuíam certa autonomia que permitiam aos seus integrantes não somente a realização de cultos mais sobretudo a organização de festas, criando um espaço onde se entrecruzam o sagrado e o profano. Enfim, um espaço de sociabilidade instituiu-se um lugar onde os escravos de diversos grupos étnicos por meio de uma religião se reúnem fortalecendo os laços de identidade. As irmandades dos santos Eslebão e Efigênia por ocasião das festas destes santos elegiam reis e rainhas ao som do atabaque e músicas, cantadas em dialeto africano recriando em novas terras os reinados da “Mãe-África”. Se por um lado o catolicismo à época colonial criou formas de hierarquização social no campo religioso, ordenando as confrarias de acordo com a etnia e classe social por outro criou espaços onde a partir do catolicismo tornou-se possível a manutenção de determinadas tradições culturais.

Paulatinamente, o catolicismo popular vai tomando corpo seja nas festas realizadas no interior das irmandades, ou na própria relação íntima e cotidiana com o sagrado, na identificação do devoto com o sofrimento do santo, elemento que faz tornar suportáveis as agruras terrenas. Sendo assim, São Benedito por ser negro, filho de escravos era constantemente recorrido por seus devotos, nenhum santo branco os entenderiam tão bem quanto seu irmão de cor. Na oração abaixo é possível perceber a intimidade travada entre o São Benedito e o devoto, uma relação semelhante à existente no Guajuvira entre seus moradores e São Gonçalo, negro como seus devotos, santo da festa, da folia. Esta prática religiosa onde se mesclam o sagrado e o profano. A festa e a reza era uma característica marcante dos negros em suas irmandades à época colonial. Vejamos a oração dos escravos:

Meu São Benedito

é um santos dos pretos

Que fala na boca

E responde nos peitos.

Que santo é aquele

Que vem no andor?

É São Benedito,

É nosso senhor.[20]

Este santo era adorado à época colonial com batuques, congadas, caxambus práticas que aproximavam o santo do ritual africano. Nesta oração, presente no texto: A cultura clerical e a folia popular de Maria Aparecida J. Veiga Gaeta fica claro que São Benedito é um santo dos “pretos”, dos desvalidos pela sorte, que somente ele irmão de cor e da desventura de ser escravo era capaz de entendê-los. A adoração a este santo como diz a oração não era da boca pra fora ecoava no peito, afinal era um sentimento que identificava negros de diversos grupos étnicos. É interessante apontar que, São Benedito parece possuir um certo destaque pois era considerado Senhor dos escravos. No cristianismo esta denominação é designada especialmente a Deus-pai e ao filho os demais santos (exceto Nossa Senhora) não recebem esta denominação.

A instituição da religião entre os escravos se constituiu como um mecanismo de contenção de rebeliões escravas. Alguns senhores de escravos obrigavam seus escravos a se confessarem uma vez ao ano. No diálogo com o padre o escravo recebia o discurso legitimador da ordem escravista. A instituição do catolicismo entre os escravos, no período colonial, permitiram-lhes por um certo tempo vivenciar a religião de maneira mais autônoma nas irmandades e/ou confrarias. Uma vez que, não havia uma coordenação direta destas, por parte da igreja. Neste espaço os escravos possuíam suas devoções, Nossa Senhora do Rosário e São Benedito entre outras, e construíram suas identidades a partir da devoção a estes santos, recriando em algumas práticas religiosas, antigas tradições africanas ao som de batuques atabaques, congadas entre outros.

Mas esta permissibilidade e autonomia de culto, existente até a segunda metade do século XIX, sofreu críticas por parte da Igreja Católica, por ocasião do Concílio do Vaticano I (1869-1870), onde se iniciou um processo de romanização do catolicismo no Brasil. Estas mudanças começaram a surtir efeito no início do século XX, quando o padre deixará de exercer em festas religiosas o papel de apenas celebrador da missa, a ele ficaria destinada à própria organização da festa, a participação do leigo foi paulatinamente sendo restringida e a Igreja passou a controlar de forma mais efetiva a realização de festas religiosas. O antigo catolicismo permaneceu, assim, em áreas distantes onde a presença do padre não era constante.

O processo de romanização do catolicismo brasileiro criou outras devoções para o povo tais como: a adoração ao Sagrado Coração de Jesus, o Apostolado da Oração buscando extirpar as antigas devoções populares, e reafirmar a perenidade da Igreja e seus princípios entre os fiéis. Este projeto ultramontano[21] relegou à sacristia antigas imagens do catolicismo popular substituindo-os por santos de origem europeia, o culto aos santos europeus como Santo Afonso de Liguori e madre Mazzarello passaram a ocupar lugar de destaque nos altares católicos[22].

A consolidação do ultramontanismo no Brasil se efetivou com a construção do Cristo Redentor no Rio de Janeiro, inaugurada pelo arcebispo Dom Sebastião Leme em 1933, constituindo-se como um dos mecanismos utilizados para a extirpação do catolicismo popular, a religiosidade popular neste momento passou a ser vista como uma manifestação desprovida de conhecimentos litúrgicos[23]. Paralela a todas estas transformações empreendidas a nível nacional retirou-se a presença de bandas musicais e batuques africanos das celebrações litúrgicas substituindo-as por um novo tipo de musicalidade o canto gregoriano. A partir destes mecanismos a Igreja buscava redimensionar as crenças populares. Entretanto, esta transformação entrou em choque com as antigas práticas populares, foi sentida em comunidades distantes do núcleo eclesiástico, esta afirmação diz respeito aos reflexos destas transformações numa comunidade específica, o Guajuvira.

O senhor Salvador, morador do bairro, irmão de Pedro Meireles é uma figura de destaque no bairro. Pois, além de ser um dos construtores da atual Igreja de São Sebastião do Guajuvira é também o organizador das festas religiosas, de Santa Rita e São Sebastião realizados no bairro. Trata-se de uma figura importante, pois é o principal articulador das práticas religiosas deste bairro em sua entrevista ele diz que: “Em sessenta e um os padres, o padre reza a missa pre’le aquilo tudo que dê pra fazê reza nos preto[24].

Nesta fala, se analisarmos cuidadosamente o seu teor levando-se em conta critérios de atemporalidade e seletividade da memória, concluiremos que o projeto ultramontano se fez presente mesmo em populações mais distantes onde a prática religiosa dos negros precisavam ser devidamente vigiada para analisar seus preceitos litúrgicos. Fazer reza nos “preto” era relevante principalmente aqueles que habitavam regiões mais distantes onde o discurso de hierarquização eclesiástica das práticas litúrgicas não ecoasse com tanto vigor.

Entretanto, os santos festejados no interior do bairro faziam parte da tradição destes habitantes, que mesmo quando moravam em Jaguariaíva realizavam as festas em homenagem a estes santos: Santa Rita de Cássia e São Sebastião. Nas festas de Santa Rita e São Sebastião, realizadas no interior deste bairro, é distribuído café com pão para todos, este café era financiado pela realização de leilões dentro desta comunidade da qual participavam pessoas de bairros próximos e de Curiúva. Antes da realização destas festas ocorrem as novenas tanto de São Sebastião quanto de Santa Rita. Os noveneiros, pessoas responsáveis pela novena de cada santo, organizam o seu café para a festa. Durante as novenas, é feito o leilão cada um traz sua prenda que é oferecida ao santo, o dinheiro do leilão serve para o custeio do café com pão oferecido aos devotos no interior do bairro, no final da novena.

Dona Terezinha é uma figura de destaque neste bairro, pois além de ser professora da escola e responsável pelo trabalho de catequese, realizado aos sábados com as crianças, é a agente da Pastoral da Criança e coordenadora dos dízimos da Igreja do Bairro. O papel de Dona Terezinha é muito significativo, seja na pastoral da criança e mesmo na coordenação do dizimo que integra estes habitantes à Igreja. Segundo seu relato, a realização destas festas, de Santa Rita e São Sebastião é uma tradição muito representativa, esta conta com gestos espontâneos e participativos de toda a comunidade. Esta manifestação, além de fortalecer os laços de identidade e coesão social, viabiliza a sedimentação desta tradição no bairro. Uma tradição que em diversos momentos vai se demonstrar mais forte que o discurso eclesiástico, por se tratar de práticas tradicionalmente mantidas por este grupo social.

Na primeira seção, é relatado um momento de confronto entre o catolicismo tradicional e as práticas religiosas populares mantidas no interior do bairro. Este embate aconteceu devido ao desejo da Igreja querer arrecadar o dinheiro dos leilões realizados, para o financiamento das festas de Santa Rita e São Sebastião. Caso os habitantes repassassem o valor à matriz, teriam missa todos os domingos, pois o dinheiro financiaria entre outras coisas a locomoção do padre. Os moradores preferiram abrir mão das missas naquele momento e manter suas práticas religiosas.

Outro episódio ocorrido na comunidade revela o embate entre o catolicismo hierárquico e o catolicismo popular. Após a insistência de um padre da Paróquia de Curiúva em levar os santos da capela do Guajuvira para a Igreja, o pai de Dona Laura, uma das moradoras do bairro, levou os santinhos para a Paróquia. Passou-se dois dias, foi buscá-los de volta, os santos que foram levados eram padroeiros do “lugar”: São Sebastião, Santa Rita de Cássia, São Roque, São Benedito e Santo Antônio. Sendo que, aos dois primeiros são realizadas festas no interior do bairro, Dona Laura comenta que este padre fora embora para São Jerônimo, diz também que: “Daí veio outros padres, mais agora saí missa aqui, mas os padres não invorca. A festa é aqui e os padres não invorca com a festa, agora esse outro padre que tinha aqui, esse um era crué[25].

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[1] As reflexões deste artigo são originadas da monografia de Especialização em História e Cultura realizada na UEPG, sob a orientação do Professor Dr. Édison Armando Silva. Agradeço a José Alexandre pela leitura cuidadosa e suas valiosas sugestões para este texto.

[2] Licenciada em História, Especialista em História e Cultura e Mestre em Educação pela UEPG (Universidade Estadual de Ponta Grossa). Pesquisadora do GEDHI (Grupo de Estudos em Didática da História).

[3] O Guajuvira é um bairro localizado na zona rural da cidade de Curiúva-PR, e é composto em sua maioria por negros que estão ligados por laços consanguíneos.

[4] VAINFAS, R. História das mentalidades e história cultural. In: CARDOSO, C. F.; VAINFAS, R. (orgs). Domínios da história. Ensaios de teorias e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997.

[5] MAYOL, P. Morar. In: A invenção do cotidiano: Morar e cozinhar. Petrópolis: Vozes, 1980. p. 39.

[6] GONZÁLEZ, J. L. et al. Catolicismo popular: história cultura e teologia. São Paulo: Vozes, 1993.

[7] Penitente: pessoa que faz uma promessa.

[8] Leigos: pessoas da comunidade.

[9] Romeiros: pessoas que tocam violão, cantam e orientam os passos da dança.

[10] Pedro Meireles faleceu no início de 2000 pouco tempo depois da realização desta entrevista.

[11] São Gonçalo, fora um frade dominicano que teria vivido em Amarante no século XIII, segundo explicações de origem popular São Gonçalo quando jovem era “farrista” e gostava de dançar com as prostitutas para impedi-las de pecar. Assim teria surgido a dança. Um dia uma daquelas mulheres que estava grávida deu à luz a duas crianças e ele teria servido de parteiro, quando morreu foi santificado e a dança que ele inventara continuou a se realizar alastrando-se por diversas regiões do Brasil. DANTAS, G. Beatriz. Cadernos de folclore. Dança de São Gonçalo. Vol. 9, P. 4.

[12] Vorteada: conjunto de passos que compõem a dança.

[13] Entrevista cedida em 29/01/2000.

[14] MOTT, L. O cotidiano e a vivência religiosa: entre a capela e o calundu. In: História da vida privada no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. p. 187, v. 1.

[15] GONZALEZ, J. L. et al. Catolicismo popular: História, cultura, teologia. São Paulo: Vozes, 1993. p. 15-32.

[16] GONZALEZ, J. L. et al. Catolicismo popular: História, cultura, teologia. São Paulo: Vozes, 1993. p. 16.

[17] SANCHIS, P. As tramas sincréticas da história: Sincretismo e modernidades no espaço luso-brasileiro. Revista Brasileira de Ciências Sociais. n. 28. p. 123-138.

[18] BRANDÃO, C. R. et al. Religião, Classe, Etnia. In: Catolicismo popular história, cultura, teologia. Rio de Janeiro: Vozes, 1992. p. 94-95.

[19] REIS, J. J. Identidade e diversidade étnicas nas irmandades negras no tempo da escravidão. Revista Tempo. 1997. v. 2, n. 3, p. 7-33.

[20] GAETA, M. A. J. V. A cultura clerical e a folia popular. Revista Brasileira de História. São Paulo, 1997. p. 7. v. 17. n. 34. Apud: POEL, F. V. D. Rosário dos homens pretos. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1981. p. 131.

[21] Esta palavra vem do latim ultramontanus, o termo designa no universo católico os fiéis que atribuem ao papa um importante papel na direção da fé e no comportamento do homem. O projeto ultrmontano tenta unificar ação e doutrinação, exigindo uma freqüência aos sacramentos e a adesão aos ritos e às práticas devocionais que unem o homem ao sobrenatural, vem substituir as antigas práticas espirituais controladas por leigos.

[22] GAETA, M. A. J. V. A cultura clerical e a folia popular. Revista Brasileira de História. São Paulo, 1997. p. 8. v. 17. n. 34.

[23] Idem.

[24] Entrevista cedida em 29/01/2000.

[25] Entrevista cedida em 28/01/2000.