ISSN 1807-1783                atualizado em 16 de março de 2012   


Editorial

Expediente

De Historiadores

Dos Alunos

Arqueologia

Perspectivas

Professores

Entrevistas

Reportagens

Artigos

Resenhas

Envio de Artigos

Eventos

Curtas


Nossos Links



Destaques
Fale Conosco
Cadastro
Newsletter


A indumentária pré-histórica e a marca Comme des Garçons: uma possível comparação

por Laura Schemes Prodanov

Sobre a autora[1]

Introdução

O tema deste artigo é a marca Comme des Garçons e a indumentária pré-histórica. A partir dessa temática procurarei responder ao seguinte problema: de que forma podemos perceber a influência do período histórico citado nos modelos da marca?

Os objetivos desse artigo são resgatar a história da moda pré-histórica e dos anos 70; identificar a importância da moda japonesa para a moda dos anos 70; realizar um histórico da marca citada e comparar esta marca com a indumentária da pré-história.

Quando estudamos a história da moda do período pré-histórico observei que a indumentária lembrava, de alguma forma, os modelos apresentados pela marca Comme des Garçons, da estilista Rei Kawakubo e que a mesma poderia ter sido influenciada por esse período histórico nas suas criações.

A metodologia de pesquisa utilizada será a pesquisa bibliográfica em livros de história da moda, sites da internet e fotos da marca.

O vestuário da pré-história e a marca Comme des Garçons

Para realizarmos a comparação a que nos propomos, achamos importante contextualizar, primeiramente, a indumentária pré-histórica.

Segundo Boucher (2010), graças aos avanços arqueológicos, é possível termos uma noção muito clara de como era o vestuário do período citado.

O individuo pré-histórico que vivia em zonas quentes, não precisa usar roupas para se aquecer, assim, ele estava mais preocupado em se enfeitar com acessórios para se distinguir dos outros membros do grupo por razões espirituais e materiais, desejo de atrair simpatia, atenção ou de mostrar quem ele era ou a qual grupo pertencia. O autor ainda diz que nos países quentes as peles eram utilizadas apenas para cobrir as partes sexuais, o que corresponderia muito mais a uma ideia religiosa do que a uma necessidade física (BOUCHER, 2010).

As matérias- primas utilizadas variavam conforme as necessidades climáticas e atividades cotidianas, assim, as peles eram muito utilizadas nos países frios. Segundo Braga (2004),

[...] As peles, inicialmente usadas com o próprio pelo do animal, eram normamente de urso ou rena e passaram a por processos de mastigação para serem amaciadas. Posteriormente, era normal untar essa pele com óleos ou gorduras animais para atribuir-lhe certa impermeabilidade e maciez, o que dava à peça uma maior durabilidade (BRAGA, 2004, p.18).

O autor citado acima coloca que as peles eram presas ao corpo dos indivíduos com as próprias garras dos animais ou mesmo atando umas as outras com os nervos, tendões, fios da crina ou rabo de cavalos.

Os corantes foram bastante utilizados e eram provenientes de cascas de árvores, como o tanino, e de plantas, que forneciam tinturas nas cores lilás, laranja, vermelho, etc. (BOUCHER, 2010; BRAGA, 2004).

Quando o homem deixou de ser nômade, caçador e coletor e passou a viveu num único lugar e praticar a agricultura, a indumentária também mudou, "visto que o vegetal linho proporcionou-lhes [...] a técnica de feltragem e [...] num processo evolutivo a própria tecelagem" (BRAGA, 2004, p.19). Dessa forma, houve um grande avanço técnico, mesmo sendo um tecido ainda bastante artesanal.

Boucher (2010) diz que foram encontradas peças de roupas completas em sepulturas dinamarquesas e que mostram que elas eram cortadas em uma largura grande, conforme imagens abaixo. As dimensões não eram mais rigorosamente adaptadas a roupa a ser feita e diversas peças eram feitas sob medida. Muitas vezes a ornamentação das peças era mais importante do que ela em si, com suas costuras e modelagem correta.

Figura 1 - Roupa dinamarquesa pré-histórica[2]

Figura 2 - Roupa feminina da Dinamarca do período do bronze antigo[3]

Figura 3 - Túnica formada de uma peça de tecido triangular[4]

O autor segue dizendo que a roupa de uma estátua encontrada em 1922 sugeria uma espécie de tanga formada por uma série de faixas trançadas, algumas verticais e estreitas que iam até os pés, atravessadas por partes horizontais, conforme podemos ver na imagem a seguir.

Figura 4 - Estatueta dinamarquesa[5]

Para Boucher (2010), essas peças coletadas permitem afirmar

[...] o uso corrente [...] dos seguintes elementos de vestuário: para as mulheres, bata, cinto, calçados e toucado ou fita de cabelos com adornos; para os homens, manto, túnica, cinto, calçados e toucado (BOUCHER, 2010, p.26).

Depois de identificarmos essas características das vestimentas do período pré-histórico, achamos importante identificar algumas características da moda dos anos 70, período no qual surgiram os estilistas japoneses, principalmente Rei Kawakubo, criadora da marca que será por nós analisada.

A moda nos anos 70 pode ser dividida através de duas influências, a hippie, com seus toques coloridos, psicodélicos e românticos, e a disco, com os materiais sintéticos, as sandálias usadas com meias e as calças extremamente justas. Todos queriam fugir da moda e tudo era permitido para se destacar, desde que não tivesse um aspecto comum. Por causa disso, as pessoas ousavam muito, usando plataformas, calças boca de sino exageradas, cabelo black power, entre outras extravagâncias da época. A década de 70 foi muito confusa para os jovens e marcada por protestos e certo desencanto, mas também de esperança nos novos rumos da vida cotidiana, e consequentemente, da moda (MOUTINHO, 2000).

Nesse contexto, a moda japonesa começou a se destacar na Europa e nos Estados Unidos, com estilistas como Kenzo, primeiro japonês que se estabeleceu em Paris e Issey Miyake.

Entretanto, os criadores que mais se destacaram pelo seu trabalho inusitado foram Yohji Yamamoto e Rei Kawakubo. Ambos são fãs da assimetria, da sobreposição e do preto, e surgiram em uma época em que grifes luxuosas com logotipos valorizados estavam em alta. Suas primeiras coleções chocaram a comunidade com sua moda conceitual e completamente fora do senso comum, muitas vezes estranha aos olhos de pessoas acostumadas ao perfeccionismo da moda francesa.

Rei Kawabubo, nascida em 1942 e formada em Belas Artes, ganhou fama em Paris no fim da década de 70 e durante a década de 80 "com roupas que procuravam redefinir os padrões do vestuário feminino ocidental e oriental" (MOUTINHO, 2000, p.244). Seus modelos eram apresentados com peças rasgadas, amassadas, com materiais pouco usuais, mais grosseiros e enrolados ao corpo, como podemos ver nas imagens a seguir:

Figura 5 - Modelo Comme des Garçons [6]

Figura 6 - Comme des Garçons,1987 [7]

Segundo OHara, apud Moutinho (2000, p.244,245), "[...] suas cores sombrias e sua imagem assexuada, sem curvas, causaram considerável impacto sobre os estilos de vestir da década de 80".

A estilista foi uma das primeiras a utilizar com mais frequência tecidos sintéticos em suas coleções. Em função dessas peculiaridades, a clientela da estilista era formada principalmente por intelectuais e artistas que gostavam de roupas mais extravagantes (MOUTINHO, 2000).

No ano de 1981 Rei Kawakubo criou a marca Comme des Garçons em Paris e as roupas apresentadas na primeira coleção de sua grife, no mesmo ano, segundo Piza (2011) desafiavam todas as ideias tradicionais pelos volumes e proporções inesperadas, pela presença de comprimentos irregulares, pelas superposições assimétricas, e etc. O uso do preto, cor não muito usada na década de 80, era regra nas roupas de Rei.

Segundo Grand (2000) as roupas da Comme des Garçons são como obras de arte, moldadas no corpo das pessoas, diz ainda que "a moda é posta a nu e suas convenções denunciadas uma a uma, associando a análise inteligente do etnógrafo (o que parece útil, prático e razoável aos nossos olhos é apenas o que é apresentado como tal na nossa cultura)" (GRAND, 2000, p.6).

O autor ainda diz que é preciso muito mais do que conhecimento de moda para entender as peças, é necessário um vasto conhecimento de arte e filosofia para que todos aqueles tecidos costurados em lugares estranhos façam algum sentido.

Para Piza (2011),

Quando Rei Kawakubo cria vestidos com corcundas e quadris imensos, ela não está querendo enfeiar a mulher, mas mexer com a nossa percepção de que a simetria, o símbolo da perfeição, é humana (PIZA, 2000, p.142).

Suas roupas se encaixam mais como obras de arte do que como prêt-à-porter, pois são dificílimas de serem usadas na rua, (como podemos ver nas imagens abaixo) afinal, "O belo não se encontra necessariamente ao lado do bonito" (KAWAKUBO, apud GRAND, 2000, p. 13).

Figuras 7 - Modelo Comme des Garçons[8]

Esses fatores levam a marca a ser considerada pioneira no quesito de fazer roupa como arte, pois Rei Kawakubo é uma artista que escolheu colocar em prática seus dotes, não através de pinturas e de esculturas, mas, sim, através das roupas.

Considerações finais

Partindo das características da vestimenta pré-histórica e da marca Comme des Garçons, podemos realizar uma comparação entre elas.

A modelagem é o fator que mais aproxima a pré-história com a grife, pois apresenta partes de tecidos desencontrados, assimetrias, pontas, franjas, etc. A pessoa cortava um tecido e não sabia exatamente o que faria com ele.

Podemos dizer até que o homem pré-histórico utilizava uma espécie de moulage, pois criava as roupas diretamente no corpo das pessoas, já que não era possível fazer de outra forma.

As duas vestimentas tentam passar algo a mais com suas roupas, além da necessidade de cobrir o corpo, como poder reconhecer a que grupo aquele indivíduo pertence, o que ele pensa e quais são suas ideologias, ou somente para se diferenciar das outras pessoas.

Ambos não utilizavam muitas cores em suas vestimentas, na pré-história pela dificuldade na obtenção de corantes, na Comme des Garçons por opção.

Finalmente, podemos dizer que não encontramos a roupa perfeita, ajustada, simétrica em nenhum dos dois casos, possivelmente porque na pré-história o homem não tinha condições de conseguir isso e a grife atual por querer mostrar outras ideias através da roupa, ou porque o que a peça representa é mais importante do que ela em si.

Referências

BOUCHER, François. História do vestuário no Ocidente. São Paulo: Cosac Naify, 2010.

BRAGA, João. História da Moda: uma narrativa. São Paulo: Editora Anhembi Morumbi, 2004.

GRAND, France. Comme des Garçons. São Paulo: Cosac Naify, 2000.

MOUTINHO, Maria Rita & VALENÇA, Máslova Teixeira. A Moda no Século XX. Rio de Janeiro: Editora Senac Nacional, 2000.

PIZA, Renata. Explosão fashion. Revista Elle, edição 276, ano 24, maio 2011.


[1] Acadêmica do curso de Moda da Universidade Feevale (Novo Hamburgo/RS).

[2] BOUCHER, François. História do vestuário no Ocidente. São Paulo: Cosac Naify, 2010, p.23

[3] Ibidem, p.22

[4] Ibidem, p. 23

[5] Ibidem, p.20