ISSN 1807-1783                atualizado em 16 de março de 2012   


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O Ensino de História e as Novas Tecnologias: Como Conciliar a Sala de Aula e o Computador

por Ana Paula Passos Pereira, André Luís Menari Pereira e Willian Silva de Vasconcellos

Sobre os autores[1]

INTRODUÇÃO

Desde os primórdios, o homem sempre se mostrou capaz de transmitir o conhecimento adquirido com as suas descobertas. Assim foi com o fogo, com a roda, com a filosofia das civilizações clássicas e com a religião do medievo.

Com o passar do tempo, foram sendo criadas novas formas de passar esse conhecimento adiante. Assim surgiram as primeiras instituições de ensino na Grécia Antiga que visavam transmitir o conhecimento dos filósofos. Séculos depois, os conventos e mosteiros, passando o conhecimento religioso, embora, ainda restrito a um grupo seleto de pessoas.

Na Idade Moderna, além de destes ensinamentos, havia também a preocupação com ao que hoje denominamos "Etiqueta", onde aqueles que eram o público-alvo, primeiramente apenas destinado às crianças, aprendiam a como se comportar diante de uma série de situações.

É contemporânea a instituição de ensino tal qual a conhecemos, no qual um professor passa o conhecimento a um número de alunos, de ambos os sexos, dependendo de sua faixa etária, de sua capacidade intelectual (em alguns países), etc. Embora seja atual a instituição por si só, a forma de um mestre ter seus discípulos a quem transmite o conhecimento, é mais do que antiga. Apenas a estrutura é nova. Por dentro, tudo ainda se mantém, em alguns lugares, com os mesmos problemas que existiam, quando estes não pioraram.

1. O ENSINO DE HISTÓRIA NO BRASIL

A precariedade da educação pública no Brasil é conseqüência da forma em que o conhecimento é passado para os alunos. O método utilizado pela maioria dos professores não sofreu alteração enquanto as novas gerações buscam outra forma de aprender. Por viverem nas condições mais variadas estes alunos não vêem como aquele ensinamento transmitido pode ser adequado à sua realidade. É possível perceber, desta forma, uma elevação cultural de determinados grupos sociais e, consequentemente, a desvalorização de outros.

"Na atual conjuntura educacional, não é mais possível continuar vendo a escola como um campo de atuação das manifestações culturais dominantes, uma vez que a escola tem como principio básico a formação dos cidadãos nas suas concepções mais amplas e democráticas, pois vivemos numa sociedade em que as manifestações políticas e culturais são múltiplas e variadas e, nesse contexto, se faz necessário a construção de uma prática pedagógica que privilegie as diferenças existentes no próprio ambiente de sala de aula." (CEREZER, 2007).

O aluno se desinteressa devido aos problemas do Sistema Educacional Brasileiro como a "Progressão Continuada", que se baseia na não-reprovação do aluno, assim, ele acaba passando por uma etapa da construção do seu conhecimento mesmo quando o seu desenvolvimento em determinada matéria escolar é ruim. Isso acaba causando, também, uma abnegação do professor já que o sistema de ensino não permite sua autonomia na transmissão do conhecimento.

O professor também se desinteressa pelo ensino devido ao salário baixo recebido em diversas regiões do país, assim, tenta aumentar sua renda atuando em várias instituições, de vários períodos do dia e com o aumento dessa carga horária não encontra tempo para que ele atualize seu conhecimento e a forma de transmiti-lo, tornando a sua aula exaustiva, retrógrada e, algumas vezes, de nível inferior, "sendo assim, faz-se necessário outro modelo educacional, uma vez que os padrões atuais são incompatíveis a memorização, repetição de fatos e o professor exclusivo detentor do saber." (FRANÇA, SIMON, 2006)

Numa sociedade onde os conhecimentos científicos ficam ultrapassados num curto espaço de tempo, não se pode admitir que "a escola, local onde se deveria produzir conhecimento, fique a margem da maior fonte de informações disponíveis e mais, não seja capaz de orientar sua utilização". (FERREIRA, 1997)

Uma forma de tentar recuperar o interesse dos alunos é fazer com que ele possa se reconhecer naquilo que lhe é ensinado e como a maioria dos adolescentes já tem contato com as novas tecnologias, principalmente o computador e a internet, o uso destas ferramentas pode aproximar o aluno, o ensinamento e a realidade. O papel dos professores, então, deveria ser o de ir

"(...) muito além da sala de aula e conteúdos específicos, temos que contribuir para o desenvolvimento pleno do aluno, o que inclui capacidade, e habilidade de distinguir situações e tomar decisões. Não estamos mais presos à educação tradicional em métodos e nem mesmo em conteúdos. Hoje temos que focar na construção do conhecimento e no aprender contemplando nesse contexto fatores ligados à realidade. Não adianta usarmos como exemplo um disco de vinil se as crianças de hoje usam CDs. Podemos e devemos explicar o que é, como se utilizava, mas para chegar a esses detalhes de conceitos e histórias, temos que partir de situações reais. Por que não utilizar um CD para explicar o que é um disco?" [2]

Baseando-se no fragmento apresentado, podemos dizer então, que o professor tem a responsabilidade de educar seus alunos em todos os âmbitos de sua vida, sanando talvez, uma carência desde a falta de diálogo com os pais, até esse contato direto com a internet. Fazendo com que o aluno adquira um senso crítico maior, questionador, que aprenda a pensar e cobrar de outros professores melhorias no ensino.

"Crianças vão vivenciando a escola como um lugar para dialogar e pensar com outras pessoas, sobre o que acontece no mundo (...) Se assim fosse, a escola poderia deixar de ser vivida como algo separado das outras experiências da vida, como um pequeno mundo à parte." (NILDECOFF,1991)

Nesse ponto, poderíamos até inferir que, seguindo o pensamento de Urie Bronfenbrenner na sua obra "A Ecologia Do Desenvolvimento Humano", a escola deve propiciar um ambiente em que o aluno se sinta bem e confiante para progredir, já que este "ecossistema" em que ele vive, tem interferência direta em todos os outros "ecossistemas", tal qual, por exemplo, o ambiente familiar.

 Qualquer problema existente nesse ecossistema (a escola) pode interferir nos outros e vice-versa. Cabe então ao professor a função de organizar uma maneira que propicie o aluno ao aprendizado, buscando a fonte do problema e como contorná-la ou, se possível, erradicá-la.

Se o professor dispuser de meios e maneiras, deve-se conciliar a principal fonte atrativa dos jovens de hoje em dia com o ambiente de sala aula, como veremos a seguir.

2. AS NOVAS TECNOLOGIAS E SEU USO NA EDUCAÇÃO

É necessário que façamos o uso dos novos meios de comunicação para o melhor entendimento dos alunos, já que os mesmos cada vez mais cedo têm contato com computadores, Internet e redes sociais como: Orkut, Facebook, Twitter, etc. Com o uso dessas inovações em sala de aula é possível falar de assuntos até então vistos tão distantes deles de uma forma divertida e que faça uma alusão ao cotidiano dessas pessoas, já que o desinteresse pela matéria e causado, justamente, pelo aluno não conseguir "dialogar" e nem se "enxergar" naquilo que aprende.

Como mostra alguns dos dados da 2ª Pesquisa sobre o Uso das Tecnologias da Informação e da Comunicação no Brasil, realizada pelo CGI.br (Comitê Gestor da Internet no Brasil) em parceria com o IBGE e o IBOPE, cujos primeiros resultados foram divulgados em Novembro de 2006, e que tem como objetivo "investigar a penetração e uso da internet, incluindo questões específicas sobreuso de governo eletrônico, comércio eletrônico, segurança, educação, barreiras de acesso" (Cetic, 2006), entre outros, surgem algumas constatações importantes:

a) 97% dos domicílios brasileiros possuem TV;

b) 90% dos domicílios brasileiros possuem rádio;

c) 68% dos domicílios brasileiros possuem telefone celular;

d) 50% dos domicílios brasileiros possuem telefone fixo;

e) 19,6% dos domicílios brasileiros possuem computador;

f) 14,5% dos domicílios brasileiros possuem acesso à Internet.

As gerações anteriores tinham contato maior com a televisão, devido à sua acessibilidade, tanto que nos dias atuais várias campanhas de conscientização são passadas através deste recurso, obtendo aceitação de uma camada mais ampla da sociedade.

É possível encontrar até hoje, nas programações de alguns canais de televisão os chamados "Telecursos" que, além de ser uma maneira de ensinar a população atingida por esse meio os mesmos aprendizados passados pelos professores em sala de aula, auxiliando o acesso de mais pessoas ao aprendizado.

Com a Inclusão Digital, mais e mais pessoas tiveram acesso ao computador e, consequentemente, à Internet, principalmente os adolescentes que encontraram nessa ferramenta uma forma rápida de comunicação e entretenimento.

É possível notar certa resistência por parte de alguns professores em relação ao uso do "Power Point", que em muitos dos casos ocorre devido ao fato de não saber como manuseá-lo e pelo difícil acesso, já que as instituições de ensino público dispõem de poucos aparelhos de "Data Show" e na maioria das vezes ficam trancados em salas de difícil acesso. E quando usados, não são bem feitos, contendo muitas informações, dificultando o entendimento do aluno, que não consegue "digerir" tantas informações juntas. Acaba sendo então pouco didático, mas, é claro, isso não é um "privilégio" das escolas de nível médio. Nas universidades também vemos professores com pouca didática e "Slides" que não contém as informações necessárias ao estudante. É preciso inserir a tecnologia nos nossos dias e em nossas aulas para que ela tenha o objetivo de ajudar no crescimento e no aprendizado, facilitando o entendimento e possibilitando uma aproximação entre discentes e docentes.

"Os recursos de multimídia, fotografia, vídeo, imagens, sons, filmes e computação gráfica, quando usados corretamente, constituem-se em ferramentas de apoio para a apresentação, construção e transmissão do conhecimento histórico produzido na academia, resultante da investigação científica, possibilitando novas formas de apreensão, uma vez que estes recursos audio-visuais despertam a atenção dos alunos, tornando-os mais interessados e contribuindo para a melhoria da aprendizagem, estabelecendo uma relação de interação com o conteúdo entre professores e alunos do ensino fundamental e médio." (FERREIRA, 1999)

Uma alternativa para suprir essa falta de infra-estrutura das escolas é o professor disponibilizar aos alunos o material que ele mesmo construiu ao longo de sua formação acadêmica, na utilização de outros materiais didáticos, inclusive a utilização de músicas e filmes.

No uso destes recursos cabe ao professor também mostrar no que a cinematografia ou a audiográfica representavam na época de suas composições e as mensagens por elas transmitidas, podemos citar como exemplo, as músicas da época da Ditadura Militar no Brasil, em que pode se notar uma crítica ao sistema mascarada pelas suas letras, assim como filmes antigos mostravam a submissão feminina enquanto os atuais mostram as mulheres lutando pelo seu espaço, principalmente quando o filme é uma nova versão de um longa-metragem já gravado anteriormente.

Essas ferramentas quando não possuídas pelo professor, podem ser encontradas com facilidade através da Internet. Desta maneira, o professor pode tanto disponibilizá-las para a classe em uma aula, ou deixar como um material complementar à aula assim, fazendo com que os alunos vão à busca do conhecimento.

"O acesso a internet abre caminhos para novas maneiras de adquirir conhecimento e fonte de ilimitadas informações, que vão desde artigos científicos, livros, documentos, revistas e outros. Como qualquer recurso tecnológico, esta deve ser entendida como um dos meios alternativos para construir o conhecimento, visto que propicia ao indivíduo interligar-se com o mundo, resultando em escolas mais flexíveis, menos autoritária, cedendo lugar para ambientes aconchegantes, atrativos, estimuladores e criativos." (MORAN, 1997)

Essa estratégia já vem sendo usada em várias partes do país que é o caso de algumas faculdades que oferecem Educação à Distância, método de ensino que vem se expandindo de forma considerável por apresentar a comodidade e a facilidade que a internet propicia.

"Hoje em dia, não resta mais dúvidas sobre sua importância e relevância para a sociedade do mundo globalizado e tecnologicamente ajustado. A cada novo desenvolvimento tecnológico, novas possibilidades são acrescentadas a essa modalidade de ensino, atualmente prestigiada por diversos organismos nacionais e internacionais." (FREITAS, 2005)

3. EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA

Educação à Distância, Aprendizagem à Distância e Ensino à Distância, dessas três expressões, a terceira é provavelmente a menos usada. Entretanto é a única tecnicamente correta de acordo com a afirmação de Eduardo O. Chaves² "Educação e aprendizagem são processos que acontecem dentro do indivíduo  não há como a educação e a aprendizagem possam ocorrer remotamente ou à distância."

A Educação à Distância já existe desde o século XIX, mas só nas ultimas décadas passou a ser mais utilizada devido a uma alta procura de pessoas que necessitavam de um curso para desejavam complementar sua formação, porém não dispunham de tempo ou de mobilidade para participar de cursos presenciais. Essa prática evoluiu conforme o avanço tecnológico permitia a sua alteração.

No começo a Educação a Distância era disponibilizada através dos chamados "Cursos por Correspondência" principalmente para o ensino de línguas em várias universidades dos Estados Unidos da América. O aperfeiçoamento dos serviços de correio, a agilização dos meios de transporte e, sobretudo, o desenvolvimento tecnológico aplicado ao campo da comunicação e da informação influíram decisivamente nos destinos da Educação à Distância.

A partir daí, começou a utilização de um novo meio de comunicação, o rádio, que penetrou também no ensino formal. O rádio alcançou muito sucesso em experiências nacionais e internacionais, tendo sido bastante explorado América Latina nos programas de educação a distância do Brasil, Colômbia, México, Venezuela, entre outros.

"Analisando a relação de determinadas variáveis com a evasão de estudantes do Curso Introdutório da Universidade Nacional Aberta da Venezuela (UNA), uma instituição de ensino a distância. Os resultados indicaram que o típico aluno é adulto, trabalha em regime de tempo integral e estuda em tempo parcial. A análise dos dados indicou que certas variáveis não institucionais (aquelas sobre as quais a instituição não tem controle direto) estão relacionadas com persistência, mas não necessariamente com aprovação. Assistência acadêmica, apoio, tutoria adequada, programas condizentes com às necessidades do estudante adulto trabalhador podem levá-lo a concluír o curso com aprovação." (FREITAS,1982)

Nesse processo de aprendizagem, assim como no ensino regular o orientador ou o tutor da aprendizagem atua como "mediador", isto é, aquele que estabelece uma rede de comunicação e aprendizagem multidirecional, através de diferentes meios e recursos da tecnologia da comunicação, não podendo assim se desvincular do sistema educacional e deixar de cumprir funções pedagógicas no que se refere à construção da ambiência de aprendizagem. Essa mediação tem a tarefa adicional de vencer a distância física entre educador e o educando, que deverá ser auto-disciplinado e auto-motivado para que possa superar os desafios e as dificuldades que surgirem durante o processo de ensino-aprendizagem. Cabe ao aluno então correr atrás do aprendizado, não tendo o professor como o detentor do saber.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante destes fatos é possível notar como as novas tecnologias vêm auxiliando o aprendizado de história tanto no Brasil quanto no mundo, embora seja até um pouco inexpressivo ainda no primeiro.

Dentro de alguns anos, talvez, seja destinada uma maior atenção para os problemas que encontramos nas escolas do nosso país e que, assim, possamos melhorar a qualidade do ensino e, através disso, uma melhoria na qualidade de vida da população no geral, afinal o progresso só pode ser obtido quando a sua base estiver na educação.

AGRADECIMENTOS

Em primeiro lugar, gostaríamos de agradecer à professora Cláudia Gomes pelo entusiasmo mostrado quando escolhemos o tema do artigo e pelo auxílio prestado na elaboração deste. Agradecemos também aos professores Pedro Paulo Funari e Claudio Umpierre Carlan pelo incentivo da publicação, bem como da ajuda para que isso fosse realizado.

REFERÊNCIAS

CEREZZER, Oswaldo Mariotto. Mestre em Educação e Professor do Departamento de História. Da Universidade do Estado do Mato Grosso (UNEMAT) - Campus Cáceres. Formação de Professores e Ensino de História: Perspectivas e Desafios. Revista Espaço Acadêmico, nº77  Outubro de 2007  Mensal  Ano VII.

FERREIRA, Carlos Augusto Lima. O Ensino de História nas Escolas de Ensino Fundamental e Médio de Salvador de Bahia: análises de variáveis e a contribuição do computador. Barcelona: Universitat Autónoma de Barcelona, 1997. 120 p. (Dissertação, Mestrado em Pedagogia Aplicada

_______________________________. Ensino de História e a Incorporação das Novas Tecnologias da Informação e Comunicação: Uma Reflexão.

FRANÇA, Cyntia Simioni & SIMON, Cristiano Biazzo. Como Conciliar Ensino de História e Novas Tecnologias?

FREITAS, K. S. de. Student Attrition in the Introductory Course of the National Open University of Venezuela. USA: The Pennsylvania State University, 1982.

FREITAS, K. S. de. Um panorama geral sobre a história do ensino a distância. 2005.

MORAN, José Manuel. Como utilizar a Internet na Educação. Revista Ciência da Informação, vol. 26, n.2, maio-agosto, 1997; páginas 146-153

NILDECOFF, Maria Teresa. A Escola e a Compreensão da Realidade. São Paulo, Brasiliense, 1991, p. 33.


[1] Graduandos E História (Licenciatura) do 5º período, da Universidade Federal de Alfenas. Esse trabalho foi realizado na Disciplina Psicologia da Educação, Ministrada pela professora Cláudia Gomes.

[2] SLEIMAN, Cristina Moraes - Advogada, pedagoga, mestranda (Sist. Elet. - Poli/USP), membro da Comissão de Apoio ao Advogado Professor (OAB/SP), atua em Internet, Política e Normas de Segurança da Informação e Educação Digital no SENAC/SP.