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Capítulo da recepção de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda: leituras contemporâneas à obra (1936-1938) (Parte 1)

por Raphael Guilherme de Carvalho

Ir para Segunda Página Sobre o autor[1] "Em nenhum momento, é verdade, deixara eu transparecer em suas páginas [de Raízes do Brasil] qualquer sedução pelos regimes de força. Publicado o livro em 1936, quando andava em maré alta a pregação do integralismo, oferecia ele, ao contrário, uma denúncia inequívoca do fascismo, tanto em suas manifestações europeias quanto na variante indígena".[2] Sérgio Buarque de Holanda (1967) Introdução Este artigo avalia a recepção imediata do ensaio Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, dado ao público em 1936. Encontra-se no Arquivo Central do SIARQ/Unicamp, fundo Sérgio Buarque de Holanda, uma coleção de resenhas de "Raízes do Brasil" publicadas em jornais de diversas regiões do país entre os anos de 1936 e 1938. Observar mais de perto as leituras de Raízes do Brasil é importante para a compreensão do contexto intelectual e político no Brasil daqueles anos 1930, bem como a tensão inerente ao ensaio, entre permanência e mudança, entre um "passado que não passa" e um horizonte de expectativas que não se confirma. Aí reside o objetivo deste artigo. O conceito meta-histórico "horizonte de expectativas" (Jauss e Koselleck) é fundamental para a abordagem, na medida em que orienta a leitura imediata da obra: inserida em dada historicidade, a novidade dialoga com as experiências que possui o leitor, que pode satisfazer ou romper com este horizonte de espera. Assim, a recepção, ela mesma, é também um fato social e histórico. A leitura de Raízes do Brasil teve repercussão variada de acordo com os contextos em que foi ponderada. Há grande dificuldade em se medir a recepção da obra de um modo geral, o que exigiria pesquisa de largo fôlego, e este artigo restringe-se à recepção imediata e à leitura da obra em contexto significativo, de amplas mudanças para a nação e consequentes carências de orientação. Com isso, visa-se, no fundo, compreender o ensaio buarquiano em sua historicidade. Estética da Recepção e sentido de Raízes do Brasil "Raízes do Brasil" é uma obra que no transcorrer do tempo alcançou fortuna crítica admirável, talvez mesmo inapreensível em sua totalidade. Suscitou inúmeros debates em sua época; criou uma polêmica ardida com o escritor fascista Cassiano Ricardo em torno do conceito de "homem cordial"[3] e passou por reavaliações do autor na edição seguinte (1948); foi canonizado pelo prefácio escrito por Antonio Cândido em 1969 para a quinta edição, junto com "Casa Grande & Senzala" de Gilberto Freyre (1933) e "Formação do Brasil econômico" de Caio Prado Jr. (1942), como "o clássico de nascença" entre os três livros de "interpretação do Brasil" que marcaram toda uma geração; sobreviveu a um período de eclipse, quando se associou a ideia do homem cordial à visão positiva e saudosa do legado ibérico por Freyre: Ronaldo Vainfas aponta, sobre isso, que "o senso comum [...] construído no meio universitário, onde prevalecia o esquerdismo, [...] acabou embolando os dois autores, embora Freyre tenha sido apoiante do regime [militar] e Sérgio Buarque, crítico assumido"[4]; por fim, desde os anos 1980, após a morte de Sérgio Buarque mesmo ele tendo afirmado que "já se tenha gastado muita cera com este pobre defunto"[5] , vem sendo relido, reinterpretado e incorporado ao debate acadêmico, assim como outros vieses de sua obra, como a atividade de crítico literário, tem crescido em importância.[6] Esse pequeno esboço da fortuna crítica e da trajetória tortuosa de Raízes do Brasil demonstra a força do efeito produzido historicamente pelo clássico ensaio de interpretação histórica de Sérgio Buarque de Holanda. Robert Wegner, estudioso da obra do historiador, sugere que um trabalho interessante e, proporcionalmente, de largo fôlego seria uma análise completa da trajetória e da recepção da obra mais conhecida de Sérgio Buarque[7]. O contínuo da recepção e do efeito do ensaio buarquiano no tempo são certos; contudo, de difícil apreensão, pois que em uma abordagem internalista/externalista, necessariamente depreendem-se novas leituras e efeitos da obra em cada mudança de horizonte da experiência histórica. Evidente, não é este nosso objetivo neste texto. Por ora, interessa-nos a compreensão do ensaio buarquiano em seu tempo, a partir de embates que travou com os integralistas e suas leituras arbitrárias nos dias seguintes ao vir a público. Seguindo e deslocando para um "uso historiográfico" a estética da recepção (rezeptionsästhetic) de Hans Robert Jauss, torna-se fundamental a expressão deste autor quando diz que a intenção de seus estudos e proposições teóricas inovadoras era uma apologia da compreensão histórica,[8] segundo a tradição hermenêutica que remonta a Dilthey, a quem coube tornar a dimensão histórica do conhecimento um fundamento das ciências do espírito. Cabe citar Jauss, novamente, para esclarecer o tencionamento: A reconstrução do horizonte de expectativa sob o qual uma obra foi criada e recebida no passado possibilita que se apresentem as questões para as quais o texto constitui uma resposta e que se descortine, assim, a maneira pela qual o leitor de outrora terá encarado e compreendido a obra.[9] Compreender a obra em sua historicidade requer, ainda, que se preste a devida atenção àquilo que Hans-Georg Gadamer[10] apontava, e que Jauss incorpora à sua estética da recepção, a inevitabilidade da "fusão dos horizontes de expectativa" do presente (atual, de onde fala o intérprete/historiador) e do passado (que se quer reconstruir). As questões que se impõem são afetadas pelo horizonte atual, não podendo mais inserir-se em seu contexto original. É o que Jauss chama "a diferença hermenêutica" entre a compreensão passada e presente de uma obra.[11] Também é importante ressaltar, preliminarmente, o caráter ensaístico do livro de Sérgio Buarque. Antonio Candido, por exemplo, atribui ao ensaísmo um lugar central na intelectualidade brasileira do período. A categoria do "ensaio" (como forma), entre a arte e a ciência, entre a literatura e a história ou a sociologia, para o crítico Antonio Candido "constitui o traço mais característico de nosso pensamento".[12] Candido acentua o caráter simbiótico entre literatura e ciências sociais, que se esboçava desde o fim do século XIX (com Silvio Romero, Euclides da Cunha e Oliveira Vianna) e se desenvolveu plenamente nos anos do modernismo. Essa proeminência do aspecto literário sobre o científico derivaria, segundo o crítico literário, da raiz brasileira em uma sociedade europeia afeita às humanidades e da falta de iniciativa política voltada para a instrução formal e a ciência no Brasil. Desta ordem de coisas resultaria que: "ante a impossibilidade de formar aqui pesquisadores, técnicos, filósofos, ela [a literatura] preencheu a seu modo a lacuna, criando mitos e padrões que serviram para dar forma e orientar o pensamento".[13] Desvinculado, portanto, de instituições promotoras do saber, o ensaio se apresenta, nesse contexto intelectual (dos grandes "intérpretes do Brasil")[14] como um exercício quase pessoal de reflexão, privilegiando as carências de orientação do presente vivido do autor, que procura unir o rigor metodológico-conceitual, sem reprimir, com isso, o alcance abrangente da interpretação e a fruição do estilo. Em linhas gerais, Raízes do Brasil relaciona-se intimamente com a tradição do historicismo e das ciências do espírito alemãs. Maria Odila assevera, em suas análises de Raízes do Brasil, os traços de historicismo e hermenêutica no texto buarquiano. Segundo a autora, a partir do convívio intelectual com Friederich Meinecke em Berlim, entre 1929-1930, Sérgio Buarque aderiria a um modo de ser historista, que consistia basicamente em renegar intelectualismos e a ver na vida dos homens em sociedade configurações de momento, conceitos temporários de vida, valores culturais sempre relativos, em processo de devir, de mudança, de fluidez e transformação.[15] Antonio Candido, comentando o crivo compreensivo do ensaio, diria de Raízes do Brasil que ele é "o único [de todos os livros de Sérgio] do qual se pode dizer que é meio "alemão"".[16] Candido destaca a imersão de Sérgio Buarque em "poderosa corrente hermenêutica", que valoriza a intuição e os saltos qualitativos da minúcia à generalização, e a identificação simpática com o objeto de estudo. O enfoque compreensivo do estudo de Sérgio Buarque é "forma quase misteriosa de penetrar o objeto". Associando Sérgio Buarque ao historicismo e à hermenêutica, pelo exercício da compreensão, ele, como Dilthey e outros, tornava-se observador participante de valores peculiares de outras épocas históricas: "era uma forma de conhecimento temporário e provisório, que se renovava, que a seu ver possibilitava certo [...] exorcismo crítico, capaz de libertar os indivíduos do peso de suas tradições e valores imutáveis".[17] Segundo Dias, pode-se observar em toda sua obra um destaque, ou uma preocupação com a questão da mudança histórica, considerada inerente à vida social: "há um fulcro inspirador comum a todos os seus trabalhos, que é a reconstituição das tensões entre as tradições e a mudança histórica". [18] Robert Wegner também enxerga como fio condutor da obra de Sérgio Buarque (não apenas Raízes do Brasil) a forma como a relação entre tradição e modernidade é mobilizada pelo autor (relação constante no ensaísmo do pensamento social brasileiro). No fundo, Raízes do Brasil trata-se de uma obra sobre a (não) modernização brasileira ou sobre os obstáculos à modernização e a incompatibilidade entre cordialidade e civilidade.[19] Raízes do Brasil não resolve suas tensões internas. Não há um desfecho programático como era comum à expectativa dos autores e leitores da época. No capítulo final, "Nossa Revolução", não há um programa nem apresentação de soluções possíveis. Há, no máximo, um conclame para que se observe "o nosso ritmo espontâneo",[20] isto é, a particularidade brasileira frente ao processo amplo de modernização, lento e oscilante entre a ruína do mundo agrário (projetado em direção ao passado) e a emergência do novo, do urbano e das massas (projetado em direção ao futuro, antecipando possibilidades não concretizadas). A temporalidade se apresenta, portanto, como uma chave interpretativa privilegiada. O Modernismo e Raízes do Brasil É relativamente conhecida a militância de Sérgio Buarque no modernismo brasileiro.[21] Raízes do Brasil é, de certa forma, tributário das questões postas pelo movimento artístico na década de 1920 e de seus desdobramentos na década de 1930, sobretudo relativamente à "brasilidade" os traços definidores do caráter e modo de ser brasileiro. Sérgio Buarque, em particular, desde os primeiros artigos como crítico de rodapé preocupa-se com a "originalidade nacional" e com uma arte de expressão tipicamente brasileira. Sua participação no movimento evidencia um caminho mais ou menos particular ou singular, se consideradas algumas das querelas que travou e tomadas de posição que nem sempre agradaram aos grupos e indivíduos que estiveram à frente do modernismo. Há diversas conexões mais ou menos subterrâneas entre a militância modernista e Raízes do Brasil. Aqui, aludiremos apenas à aversão do autor quanto a qualquer forma de construtivismo, mecanicismo e importação de ideias e sistemas doutrinários desvinculados da realidade brasileira. Em relação ao contexto intelectual e político dos anos 1930, o ensaio representa, na visão de Antonio Arnoni Prado, "o olhar maduro do intelectual que encarna, ele próprio, a superação crítica do sistema em que se formou".[22] O "sistema" em questão trata-se do movimento modernista nas letras e nas artes brasileiras no início do século XX. O projeto de "interpretação do Brasil" de Sérgio Buarque atravessaria, portanto, o movimento e culminaria na publicação de Raízes do Brasil, em 1936, como uma espécie de "acerto de contas" com os modernistas.[23] Sérgio Buarque não participou diretamente da Semana de Arte Moderna de 1922. Mas, neste mesmo ano, constava como o representante da Revista Klaxon no Rio de Janeiro, periódico no qual colaborou como autor apenas eventualmente. A participação mais ativa de Sérgio Buarque nos rumos do modernismo tem início em 1924 antes, atuou como "propagandista" dos eventos de São Paulo no Rio de Janeiro, como atesta o artigo "O futurismo paulista" (1922) quando funda a revista Estética, em parceria com Prudente de Moraes Neto, com o objetivo de preencher o vazio causado pelo expiro de Klaxon (1922-23). Estética, diferente de Klaxon, não se propunha uma revista iconoclasta, mas, sim, de crítica e debate intramodernista. Já na primeira edição, no artigo Um homem essencial, sobre Graça Aranha, embora o tom celebrativo da sua figura, Sérgio Buarque critica levemente o autor de Canaã ao mencionar sua despreocupação em relação ao pensamento histórico: "[...] nele, a imaginação histórica nada significa para a imaginação estética, sendo antes um estorvo, na medida em que deprime o artista enquanto homem completo".[24] Mas é no ensaio de 1926, O lado oposto e outros lados, que Sérgio Buarque marca bem sua posição e percebe a movimentação de grupos mais ou menos rivais no interior do modernismo. O alvo é, desta vez explicitamente e com toda força, Graça Aranha e a autoimposição de sua persona como patrono e liderança natural do movimento. Sérgio afirma que "até mesmo dentro do movimento que suscitou esses milagres têm surgido germes de atrofia que os mais fortes têm combatido sem trégua". A acusação é, sobretudo, ao fato de estes autores (Guilherme de Almeida, Ronald de Carvalho e Graça Aranha, do chamado "grupo da mesa") arrogarem para si a liderança do movimento e tentarem impor a construção de uma arte genuinamente brasileira. Para Sérgio, uma arte brasileira "não surgirá, é mais que evidente, de nossa vontade, nascerá muito mais provavelmente de nossa indiferença".[25] O chamado "grupo da mesa" representa, portanto, o "lado oposto". Mas há, ainda, os "outros lados". Estes "outros lados" representam o pendor reacionário do modernismo, que se manifestaria nos anos subsequentes na facção ideológica do Integralismo ou na reação espiritualista católica liderada por um Tristão de Athayde.[26] Estes grupos concebiam, na ótica de Sérgio Buarque, [...] uma elite de homens, inteligentes e sábios, embora sem grande contato com a terra e com o povo [...] gente bem-intencionada e que esteja de qualquer modo à altura de nos impor uma hierarquia, uma ordem, uma experiência que estrangulem de vez esse nosso maldito estouvamento de povo moço e sem juízo. Carecemos de uma arte, de uma literatura, de um pensamento enfim, que traduzam um anseio qualquer de construção, dizem. E insistem sobretudo nessa panaceia abominável da construção. [27] Tais querelas modernistas em que Sérgio Buarque se envolveu tiveram como ponto de partida a crítica deitada pelos editores de Estética sobre o livro de Ronald de Carvalho, Estudos brasileiros. A obra vertia simples compilação de conferências proferidas por Ronald de Carvalho no México, o que levou os jovens críticos a questionarem a sua publicação no Brasil: Daí o resumir-se seu livro em simples esboços históricos da nossa vida social e artística, sem maior vantagem para quem, como nós, tem tantos historiadores e tão pouca história. O que nos falta um pouco de espírito crítico falta também ao livro, que não consegue sequer colocar homens e fatos à vontade nos seus lugares. Sobre nossa nacionalidade, sobre nossas letras, sobre nossas artes, nada que já não tenha sido dito. E todos esses assuntos estão exigindo revisão urgente. Seria necessário estudá-los com espírito novo, ousado, irreverente, sem a menor preocupação com o que escreveram Rocha Pombo ou Sílvio Romero.[28] Percebe-se, além da visão crítica reclamada pelos jovens autores, o déficit historiográfico descortinado. A missão do modernismo seria, também, a reescrita crítica da história do Brasil e da literatura brasileira, afinada com os novos critérios que se vinham impondo pelo modernismo, a saber, principalmente o parâmetro basilar da questão da identidade própria do Brasil. Com isso, Sérgio Buarque deixa entrever uma inquietação com relação à função do passado enquanto referência para compreensão da cultura brasileira. Some-se a isso o caráter reflexivo da revista Estética e a reivindicação de uma ponderação em prol da experiência brasileira como ponto de partida para uma arte genuinamente representativa da brasilidade. Tem-se a hipótese de que, desde então, Sérgio Buarque preocupa-se com a historicidade, entendida como orientação no tempo das intenções do agir baseadas na experiência histórica.[29] Duas das possíveis conexões sub-reptícias entre a crítica literária modernista produzida pelo autor entre 1920-1926 e o clássico ensaio de 1936, dizem respeito, portanto, ao repúdio do construtivismo e das doutrinas estéticas e políticas importadas, bem como à valorização da experiência histórica original brasileira, que permanecem em Raízes do Brasil: "não existiria, à base dessa desconfiança no poder milagroso das ideias, um secreto horror à nossa realidade nacional?".[30] Sérgio Buarque acode a necessidade, para melhor compreensão e visada dos horizontes que se apresentavam ao Brasil dos anos 1930, de que se atentasse ao ritmo espontâneo da história. Negá-lo seria a negação da experiência concreta e a ignorância do movimento dinâmico da temporalidade histórica: "querer ignorar esse mundo será renunciar ao nosso próprio ritmo espontâneo, à lei do fluxo e refluxo, por um passo mecânico e uma harmonia falsa".[31] Não apenas aos positivistas ele direcionava sua crítica, mas a todos os sistemas de pensamento importados durante o século XIX e sem raízes na vida brasileira, como os liberais, evolucionistas, progressistas, enfim, aos letrados em geral e seu apego excessivo às formas a-históricas e amor ao passado enquanto tal: o grande pecado do século passado foi justamente ter feito preceder o mundo das formas vivas do mundo das fórmulas e conceitos [...] Essa opinião enganosa tomou vulto depois de incentivada a crença no mito do progresso, com o êxito do comtismo, do spencerismo, do marxismo e de tantas ideologias semelhantes.[32] Positivistas, evolucionistas e marxistas, segundo o ponto de vista de Sérgio Buarque, desconsideravam a historicidade e a espontaneidade de uma história que, ao se movimentar do singular para unidades mais amplas de sentido, não se poderia submeter a modelos e conceitos ou sistemas filosóficos inflexíveis. A história viva, acompanhando "nosso ritmo espontâneo" era, portanto, o centro de interesse de Sérgio Buarque.[33] Um exemplo mais ou menos radical (mas não sem propósito, afinal, Sérgio Buarque também criticava o passadismo tradicionalista de intelectuais católicos, representados por um Tristão de Athayde, que reagiam ao modernismo) pode ser útil para tornar mais claro este argumento: "as épocas realmente vivas nunca foram tradicionalistas por deliberação. A escolástica na Idade Média era viva porque era atual [grifos nossos]".[34] Raízes do Brasil integra, em sua composição, uma avaliação crítica de toda a geração modernista; no modernismo estão a origem das preocupações de Sérgio Buarque e a matriz das ideias por ele defendidas: tributário da geração de 1922, prosseguiria, a partir de 1924, em um caminho singular e mais ou menos radical, rompendo com alguns lados do modernismo, observando sua tendência conservadora e priorizando a questão da temporalidade (da experiência histórica) que se apresentava mister à década de 1930. O ensaio de 1936, tributário igualmente de sua estada na Alemanha e do convívio com o historicismo e as ciências do espírito, buscou compreender os obstáculos historicamente antepostos à modernidade brasileira (em sua temporalidade específica), especialmente as questões da democracia e da cidadania. Cordialidade e personalismo, ambos constituíam os entraves que caracterizavam a tensão entre tradição e mudança histórica. Leituras contemporâneas de Raízes do Brasil Irradiando-se a partir de São Paulo, o movimento modernista na década de 1920, de experimentação e busca de alternativas culturais, acompanha o crescimento desordenado da cidade, o processo de industrialização, aceleração do cotidiano e desenraizamento da cultura de massas europeia, em meio às notícias da recente Primeira Guerra Mundial. Destes acontecimentos e transformações profundas da realidade nacional e global, emerge, por exemplo, e sobremaneira, uma nova consciência de brasilidade impressa nas "interpretações do Brasil". [35] Lucia Lippi Oliveira afirma que há dois momentos distintos do modernismo: o primeiro caracteriza-se pelo "combate ao passado e elaboração de nova estética adequada à vida moderna [...] entendida como a vida urbana e industrial que tinha São Paulo como seu ponto máximo". [36] A segunda fase do movimento modernista, a partir do "Manifesto Pau-Brasil" (1924), de Oswald de Andrade, teria na brasilidade seu eixo principal: "o modernismo cria e difunde a necessidade de identificar a substância do ser brasileiro, denuncia os conhecimentos/saberes atrasados que impedem a captação do ser brasileiro e colabora na elaboração de inúmeros retratos do Brasil".[37] Podemos também pensar, com João Luiz Lafetá autor desta tese consagrada sobre as etapas do modernismo entre as décadas de 1920 e 1930 estes momentos distintos como uma virada do "carnavalesco" para a ideologia, ou, ainda, como da estética para a política, o que seria o nacionalismo modernista uma marca profunda da década de 1930.[38] Antonio Candido qualifica como "desvio" a linha dos modernistas "radicais de ocasião" que passaram do nacionalismo estético ao nacionalismo político nos anos 1930, quando irrompe a crise das oligarquias dominantes com a Revolução de Outubro. Antonio Arnoni Prado, referindo-se ao Integralismo, que representa a culminância do nacionalismo modernista, define-o, na esteira de Antonio Candido, como "uma falsa vanguarda" para ele, a contradição entre realidade e esforço retórico é o que dá direção ao seu itinerário.[39] Dentre os primeiros resenhistas de Raízes do Brasil, Limeira Tejo (no jornal O Diário, de Santos-SP, em 21 de novembro de 1936) saúda o aparecimento de Raízes do Brasil como um "trabalho digno da época presente". O pernambucano, autor do Retrato Sincero do Brasil, percebe a motivação subjacente ao ensaio buarquiano, ao afirmar: "a democracia na sociedade brasileira era uma exigência histórica em um país de formação tão heterogênea [...], já não nos envergonhamos de nossas raízes misturadas". Comenta, com igual efusão, a complexidade da escrita da história buarquiana, que, "por força da própria transformação histórica foi adquirindo complexidade, o que no domínio intelectual traduz-se por esse imenso interesse na investigação de suas causas". Isso porque a escrita buarquiana (e daquela geração, como um todo), sua forma ensaística de interpretação do passado vem a romper com a pura cronologia de fatos históricos: "Durante muito tempo se acreditou no Brasil que a história fosse um ramo da apologética. O que deveria interessar aos historiadores era o fato em si [...], a pura celebração de grandezas e de heróis".[40] A pequena nota do jornal A Rua, do Rio de Janeiro, elogiando a capacidade interpretativa e crítica do livro, define-o como "uma grande realização de nossa cultura".[41] Outra pequena nota, do jornal Minas Geraes, elogia a escrita ensaística de Sérgio Buarque, entre a elegância do estilo e o espírito crítico: "aliado às virtudes de pesquisador estão os méritos de prosador claro e elegante [...], tornando-se a leitura um requintado prazer espiritual".[42]Valdemar Vasconcelos, no Correio do Povo, de Porto Alegre-RS, apresenta percepção interessante do livro, para ele um trabalho "sobre a atualidade brasileira", movido pela "inquietação intelectual de compreender o sentido de nosso destino coletivo". [43] Jayme de Barros, no Diário da Noite (RJ) de 23 de novembro de 1936 percebe afinidades entre a historiografia de Sérgio Buarque e a de Capistrano de Abreu, bem como com o ensaísmo de Paulo Prado. A crítica do passado é comum entre os autores: "não é outro o ponto de partida da obra pessimista de Capistrano de Abreu e do sombrio Retrato do Brasil de Paulo Prado". O livro é elogiado por abrir largos horizontes para a psicologia social brasileira, convertendo-se em "roteiro intelectual para a verdadeira descoberta do Brasil". A ressalva é feita ao fato de a matéria não avançar em direção a uma solução.[44] No Jornal do Brasil (RJ), Múcio Leão aguardava com anseio o lançamento da obra, afinal, "Sérgio já era considerado um autor excelente" e gozava da fama de ser o brasileiro "que mais ama os livros". A seção Registro Literário relembra o autor de Estética como "a primeira manifestação do espírito renovador no movimento moderno" e lamenta ter a revista sobrevivido pouco, pelo escândalo que causou à "pequena burguesia literária". O resenhista parece, de início, mais interessado em exaltar o autor: "homem tranquilo, o mais natural, o mais encantador dos homens [...] vive como um cidadão pacífico [...] E todo aquele seu tumulto de boemia e originalidade é puramente fato da imaginação". Nos sete capítulos do livro, Múcio Leão encontra uma direção, um sentido de continuidade, e percebe no quinto capítulo, "o homem cordial", a "parte mais importante do livro". No entanto, ataca com veemência o que considera contraditório no pensamento político de Sérgio Buarque: "seu pensamento, em tal campo, parece cheio de contradições [...] parece que o Sr. Sérgio Buarque incorre na sua própria crítica quando diz que o brasileiro tem tendência a aceitar as ideias mais díspares". O último capítulo, que contém a crítica do Integralismo, na opinião do resenhista parece mais um "apêndice" para "combater o Integralismo a propósito do Sr. Otávio de Faria". Questiona: afinal, Sérgio Buarque de Holanda é um Republicano, Liberal-democrata ou discípulo de Hitler?[45] Novamente, portanto, percebe-se nos resenhistas o incômodo com o modo genético de explicação histórica[46] e a ausência de um desfecho programático explícito. Tem a mesma sensação Oscar Mendes, da Folha de Minas (Belo Horizonte), na seção "A Alma dos Livros" de 17 de janeiro de 1937. O livro de Sérgio Buarque de Holanda é "um grande provocador de debates", mas incorre em "grave falha": "não conclui [...], não resume numa síntese forte e clara o seu julgamento, nem organiza num corpo de doutrina capaz de levar o Brasil a uma renovação de valores". Por esse motivo, taxa a obra como "trabalho negativista e cético". Disso resulta que, embora aflore temáticas pertinentes à atenção dos intelectuais aos problemas característicos da realidade brasileira, não vai, de fato, às raízes do Brasil.[47] A Folha da Manhã (SP), de 28 de novembro de 1936, na pena de Rubens do Amaral avalia que Sérgio Buarque "nos deu um estudo interessantíssimo sobre a influência da raça portuguesa na formação de nossa psicologia nacional". Em seguida, contudo, assume o tom crítico: "pena que o Sr. Sérgio Buarque de Holanda, notável na pesquisa e na exposição, seja tímido nas conclusões". Sérgio Buarque critica, no capítulo final, o liberalismo no Brasil, o fascismo à brasileira e, igualmente, o comunismo, para o desespero de Rubens do Amaral: "E, então, que é que basta? Ou não há em Raízes do Brasil uma afirmação? Ou é tão sutil que escapou à minha percepção?".[48] O crítico Sergio Milliet, amigo de Sérgio Buarque desde os anos 1920, também não lhe poupa da crítica, no Estado de São Paulo de 18 de novembro de 1936. Antes, contudo, elogia soberbamente os métodos e a escrita da história por Sérgio Buarque: "aos historiadores não interessa mais a exatidão dos fatos, mas, principalmente a interpretação [...]. Poucos escaparam à força centrífuga da cronologia: Capistrano de Abreu, Paulo Prado, Alcântara Machado, e outros, reservará sem dúvida a posteridade o título de precursores da nova maneira". O elogio a Sérgio Buarque, neste aspecto, refere-se à vivacidade de seu pensamento histórico, ligado às questões mais substanciais de seu tempo presente: "reviver o passado parece ter sido o seu intuito mais positivo". Por outro lado, observa que a generalização das teses de "interpretação do Brasil" tem seus defeitos mais ou menos graves, como "a abstração das contradições da realidade" e o descaso para com "a heterogeneidade do país". Sua crítica, no entanto, concentra-se em outras questões, encontradas no capítulo final de Raízes do Brasil, sobre as "diretrizes apontadas". Milliet aponta que o autor, em atitude modernista, rebela-se contra a volta ao passado e ao amor à tradição e que, ao invés, sugere que o ponto de referência e sentido desloque-se para o futuro. Mas, ao não apresentar respostas ao impasse central do livro, entre tradição e modernidade, "nada apresenta de positivo": Dirão que a crítica é extemporânea e que o autor não pretendeu resolver coisa alguma, mas tão somente fazer sua contribuição para o melhor conhecimento do Brasil. Concordamos. Vamos mais longe: admiramos a prudência da análise e o ceticismo sereno das suas considerações. Desejaríamos, porém, encontrar numa obra tão bem pensada e escrita alguns princípios norteadores, úteis para os que se preparam para o governo de amanhã, e no escritor de primeira grandeza, que o livro revela, uma dessas almas de líder que tanto carecemos.[49] Uma hipótese explicativa para a não-resolução das tensões de Raízes do Brasil estaria em que Sérgio Buarque indica a necessidade de formulação de um caminho próprio às singularidades da formação histórica brasileira ("nosso ritmo espontâneo"), a partir da experiência histórica brasileira (o que exclui intelectualismos e sistemas filosóficos totalizantes, como positivismo e marxismo, bem como encampa a crítica ao liberalismo).[50] É possível considerar o livro como uma réplica ao descompasso entre o Brasil real e o Brasil legal, personalismo e impessoalidade, herança ibérica e modernização, na medida em que se propõe a uma interpretação que engloba as antíteses. A tensão do ensaio resultaria da impossibilidade de cruzamento entre cordialidade (legado do iberismo) e civilidade (característica do americanismo), impasse que dificulta, se não inviabiliza, a constituição de uma esfera pública. Essas duas linhas cordialidade e civilidade são paralelas, nunca se cruzam. "Já temos visto que o Estado, criatura espiritual, opõe-se à ordem natural e a transcende. Mas também é verdade que essa oposição deve resolver-se em um contraponto para que o quadro social seja coerente consigo".[51] Daí a não-proposta de uma solução viável ou de um programa político palpável, o que seria incondizente com um dos argumentos centrais do livro, de fundo hermenêutico-romântico, sobre interioridade e ritmo. O ritmo espontâneo cresce das reservas interiores: as formas exteriores da sociedade devem ser como um contorno congênito a ela e dela inseparável: emergem continuamente das suas necessidades específicas e jamais de escolhas caprichosas.[52] Ir para Segunda Página
[1] Mestrando no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná (PGHIS/UFPR). Bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Agradeço à equipe de funcionários do Arquivo Central/Siarq da Unicamp pela recepção, incentivo e disposição em servir aos pesquisadores. [2] HOLANDA, S.B. Elementos básicos da nacionalidade: o homem. In: MONTEIRO, P.M.; EUGÊNIO, J. K. Sérgio Buarque de Holanda: Perspectivas. Campinas, SP: Ed. Unicamp; RJ: Eduerj, 2008, p. 619. O texto foi publicado originalmente em folheto que reproduzia palestra proferida na Escola Superior de Guerra (ESG) em 1967. [3] A ponto de a partir da segunda edição da obra (1948) inserir uma nota explicativa a respeito da polêmica com Cassiano Ricardo: "pela expressão cordialidade', se eliminam aqui, deliberadamente, os juízos éticos e as intenções apologéticas a que parece inclinar-se o sr. Cassiano Ricardo, quando prefere falar em bondade' ou em homem bom'. Cumpre ainda acrescentar que essa cordialidade, estranha, por um lado, a todo formalismo e convencionalismo social, não abrange, por outro, apenas e obrigatoriamente sentimentos positivos e de concórdia. A inimizade bem pode ser tão cordial como a amizade, visto que uma e outra nascem do coração, procedem, assim, da esfera do íntimo, do familiar, do privado." In: HOLANDA, S.B. Raízes do Brasil. 26ª. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 204-5. [4] VAINFAS, R. "Posfácio". In: HOLANDA, S.B. Visão do Paraíso. São Paulo: Cia. das Letras, 2010, p. 551. [5] Apud MONTEIRO, P. M. A Queda do Aventureiro. Campinas: Ed.Unicamp, 1999, p. 265. [6] Diversos estudos têm sido dedicados àquele "pobre defunto". Tentamos organizá-los antecipando as escusas por possíveis falhas e esquecimentos dividindo-as em a) ensaios críticos, b) coletâneas de textos do próprio Sérgio Buarque, c) teses e dissertações acadêmicas. São elas: a) a edição especial da Revista do Brasil, 1987, por seu amigo Francisco Assis Barbosa; Sérgio Buarque de Holanda: vida e obra, por Arlinda Nogueira, 1988; Sérgio Buarque de Holanda e o Brasil, 1988, por Antonio Candido; os anais do 3º. Colóquio UERJ, 1992, dedicado a Sérgio Buarque; e, mais recentemente, uma grande obra coletiva, Sérgio Buarque de Holanda: perspectivas, 2008, organizada por P. M. Monteiro e J. K. Eugênio; b) Sérgio Buarque de Holanda, 1985, coletânea sob responsabilidade de Maria Odila Leite da Silva Dias; Raízes de Sérgio Buarque de Holanda, 1988, preparada por Francisco Assis Barbosa; Capítulos de Literatura Colonial, 1990, por Antonio Candido; em 1996, o Livro dos Prefácios e O Espírito e a Letra (2 vols.), por Antonio Arnoni Prado; mais recentemente, os Escritos Coligidos (2 vols.), organizados por Marcos Costa; c) entre outros, Marcus Vinicius Correa Carvalho defendeu a dissertação Raízes do Brasil, 1936: tradição, cultura e vida na Unicamp em 1997 e em 2003 a tese de doutorado Outros lados: Sérgio Buarque de Holanda: crítica literária, história e política (1920-1940); Pedro Meira Monteiro defendeu a tese "A Queda do Aventureiro" na Unicamp em 1999; Robert Wegner publicou A conquista do oeste: a fronteira na obra de Sérgio Buarque de Holanda, em 2000, como resultante de sua tese de doutoramento; João Kennedy Eugênio defendeu o doutorado na UFF em 2010 com a tese Um ritmo espontâneo: o organicismo em Raízes do Brasil e Caminhos e Fronteiras; Thiago Nicodemo, na USP, produziu a dissertação Urdidura do Vivido: Sérgio Buarque de Holanda e Visão do Paraíso nos anos 1950 em 2008 e em 2011 a tese de doutorado Alegoria Moderna: consciência histórica e figuração do passado na crítica literária de Sérgio Buarque de Holanda. [7] WEGNER, R. A conquista do oeste: a fronteira na obra de Sérgio Buarque de Holanda. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2000, p. 28. [8] JAUSS, H.R. A história da literatura como provocação à teoria literária. São Paulo: Ática, 1994, p. 73. [10] A fusão de horizontes pode ser explicada recorrendo-se a outras duas expressões de Gadamer, a "distância temporal" e a "história efeitual", sintetizadas nas seguintes passagens: "o tempo já não é mais, primariamente, um abismo a ser transposto porque divide e distância, mas é, na verdade, o fundamento que sustenta o acontecer, onde a atualidade finca suas raízes. A distância no tempo, não é, por conseguinte, algo que deva ser superado. Esta era, antes, a pressuposição ingênua do historicismo, ou seja, que era preciso deslocar-se ao espírito da época, pensar segundo seus conceitos e representações em vez de pensar segundo os próprios, e somente assim se poderia alcançar a objetividade histórica. Na verdade, trata-se de reconhecer a distância no tempo como uma possibilidade positiva e produtiva do compreender [...] Uma hermenêutica adequada à coisa em questão deve mostrar na própria compreensão a realidade da história. Ao que é exigido com isso, eu chamo "história efeitual". Entender é, essencialmente, um processo de história efeitual". Cf. GADAMER, H-G. Verdade e Método: traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. Petrópolis, RJ: Vozes,1997, p. 445-448. [11] A novidade e contribuição da estética da recepção, tal como pensada pioneiramente por Jauss, é explicada por Luiz Costa Lima, autor responsável por trazer ao Brasil a estética da recepção a partir de traduções fundamentais: "A questão principal consiste em supor que a entrada em cena do leitor era por si suficiente para romper os impasses da abordagem histórico-literária [...]. Para que ultrapassasse essa lacuna teria sido preciso trazer o leitor para a estrutura da obra, isto é, mostrar que seu papel vivo e ativo é previsto pela própria estrutura da obra [...]. A obra assume seu caráter histórico quando a intervenção do leitor não se confunde com a de um mero complemento". In: LIMA, L. C. (Org.) A literatura e o leitor: textos de estética da recepção. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979, p. 20. [12] CANDIDO, A. Literatura e Sociedade. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2010, p. 141. [14] Raízes do Brasil aparece no cenário intelectual brasileiro em momento de profusão de interpretações e projetos sobre o país. Pouco antes, em 1928, Paulo Prado publicaria o Retrato do Brasil: ensaio sobre a tristeza brasileira, definido pelo autor como um "quadro impressionista" com objetivo de se "chegar à essência das coisas". Talvez em resposta a isso Sérgio Buarque se questione a respeito da possibilidade ou não de uma "estrita objetividade" em um "estudo compreensivo". De todo modo, a discussão sobre o ensaio denota que ele é mais afeito à subjetividade de um autor que à somatória e demonstratividade de dados objetivos. Cf. PRADO, P. Retrato do Brasil: ensaio sobre a tristeza brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 85-6. Sobre a categoria "intérpretes do Brasil" e a discussão da historiografia brasileira canônica, ver BRESCIANI, M. S. O charme da ciência e a sedução da objetividade: Oliveira Vianna entre intérpretes do Brasil. São Paulo: Editora Unesp, 2007. [15] DIAS, M.O.L.S. Sérgio Buarque de Holanda, historiador. In: Sérgio Buarque de Holanda. São Paulo: Ática, 1985 (Grandes Cientistas Sociais, 51), p. 16. [16] CANDIDO, A. Sérgio em Berlim e depois introdução. In: HOLANDA, S. B. Raízes de Sérgio Buarque de Holanda. Francisco Assis Barbosa (org.). Rio de Janeiro: Rocco, 1989, pp. 119-129. [17] DIAS, M.O.L.S. Estilo e método na obra de Sérgio Buarque de Holanda. In: Sérgio Buarque de Holanda: vida e obra. São Paulo: Edusp/IEB, 1988, pp. 73-9. [19] WEGNER, R. op. cit., p. 29. [20] HOLANDA, S.B. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1936, p. 161. [21] Alguns trabalhos exploraram pioneiramente a relação de Sérgio Buarque com o modernismo. Destaque-se o ensaio pioneiro e coletânea de artigos da fase modernista organizados por seu amigo Francisco de Assis Barbosa: BARBOSA, F.A. Raízes de Sérgio Buarque de Holanda. Rio de Janeiro: Rocco, 1988. [22] PRADO, A. A. Raízes do Brasil e o modernismo. In: CÂNDIDO, A. Sérgio Buarque de Holanda e o Brasil. São Paulo: Ed. Fund. Perseu Abramo, 1998, 71-80. [23] DIAS, M.O.L.S, Idem, 1985. [24] HOLANDA, S. B. Um homem essencial. In: O Espírito e a Letra, estudos de crítica literária 1: 1902-1947. Org. Antônio Arnoni Prado. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 179-185. [25] HOLANDA, S. B. O lado oposto e outros lados. In: O Espírito e a Letra, estudos de crítica literária 1: 1902-1947. Org. Antônio Arnoni Prado. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 225-226. [26] Uma entrevista concedida pelo autor nos anos 1980 pode ajudar a elucidar suas opiniões sobre os respectivos grupos: "O grupo do Verdeamarelismo é outra coisa. O Menotti começou com o Futurismo italiano e o Oswald ligou-se a ele no começo. Depois juntaram-se o Cândido Mota Filho, o Plínio Salgado. O Prudente escreveu um artigo sobre O estrangeiro, dizendo que era imitação do Oswald de Andrade e o Plínio ficou uma fúria e escreveu um artigo: ―O homem que plagiou o nome do avô. Eu mesmo cheguei a escrever que o Plínio imitava o estilo do Oswald, mas não sem antes extrair as partes pudentas [sic]. Houve um grupo que inicialmente combatia o Modernismo e depois passou a dizer-se modernista da ala espiritualista. Alceu Amoroso Lima aceitou essa explicação. Nestor Vítor, que pertencia a essa ala, dividia todo mundo em bilaquianos e cruzistas. Achava que o pessoal da Klaxon era bilaquiano, porque não seguia a linha do Cruz e Souza. Creio que até o Tristão de Athayde passou certa vez por bilaquiano". In: LEONEL, Maria Célia de Moraes. Estética e modernismo: revista trimensal. São Paulo: Hucitec; Brasília: INL; Fundação Nacional Pró-Memória, 1984, p. 171-180. [27] HOLANDA, S. B. Idem, p. 226-227. [28] HOLANDA, S. B. Estudos brasileiros. In: O Espírito e a Letra, estudos de crítica literária 1: 1902-1947. Org. Antônio Arnoni Prado. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 204-205. [29] RÜSEN, J. Razão histórica: teoria da história: os fundamentos da ciência histórica. Trad. de Estevão de Rezende Martins. Brasília: UnB, 2001, p. 59. [30] HOLANDA, S. B. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1936, p. 119. [33] Uma análise esmiuçada da questão pode ser vista em EUGÊNIO, J. K.Ritmo espontâneo. Organicismo em Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda. Teresina: EDUFPI, 2011. [34] Idem, p. 7 [grifos meus]. [35] Embora o modernismo não seja fenômeno exclusivo de São Paulo, como bem demonstrou, por exemplo, Ângela de Castro Gomes, em trabalho sobre o modernismo em outras regiões do Brasil. O próprio Sérgio Buarque de Holanda, paulista de nascença, permanecia no Rio de Janeiro durante os tempos mais efusivos do movimento modernista. Cf. GOMES, A. C. Essa gente do Rio... Modernismo e nacionalismo. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 1999. [36] OLIVEIRA, L. L. . Questão nacional na Primeira República. In: Helena Carvalho de Lorenzo; Wilma Peres da Costa. (Org.). A década de 1920 e as origens do Brasil moderno. São Paulo: Editora UNESP, 1997, v. 1, p. 190. [38] LAFETÁ, J. L. 1930: a crítica e o modernismo. São Paulo: Ed. 34, 2000, p. 28. [39] CANDIDO, A. op. cit., p. 133. [40] TEJO, L. Raízes do Brasil. O Diário. Santos-SP, 21 nov., 1936, s/p. [41] A RUA. Rio de Janeiro, 31 out., 1936. [42] MINAS GERAES. Belo Horizonte, 31 out., 1936. [43] VASCONCELLOS, V. Raízes do Brasil. Correio do Povo. Porto Alegre, 15 nov., 1936. [44] BARROS, J. Raízes do Brasil. Diário da Noite. Rio de Janeiro, 23 nov., 1936, s/p. [45] LEÃO, M. Registro Literário. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 7 nov., 1936. [46] Cf. Rüsen, no modo genético de explicação histórica, "a mudança é a essência e o que dá à história o seu sentido". Esse tipo de narrativa histórica fornece uma direção para a mudança temporal do homem e do mundo, para a qual os ouvintes/leitores devem se ajustar a fim de lidar com as alterações do tempo. Rüsen exemplifica com a historiografia do historicismo, como o de Ranke, em que o tipo genético prevalece. RÜSEN, J. Narrativa histórica: fundamentos, tipos, razão. In: BARCA, I.; MARTINS, E.R.; Schmidt, M.A. (Orgs.) Jörn Rüsen e o Ensino de História. Curitiba: Ed. UFPR, 2010. [47] MENDES, O. A alma dos livros. Folha de Minas. Belo Horizonte, 17 jan. 1937. [48] AMARAL, R. Raízes do Brasil. Folha da Manhã. São Paulo, 28 nov. 1936. [49] MILLIET, S. Raízes do Brasil. O Estado de S. Paulo. São Paulo, 18 nov., 1936, s/p. [50] HOLANDA, S.B. Idem, p. 161.
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