ISSN 1807-1783                atualizado em 06 de julho de 2007   


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Reflexões acerca da concepção de história de Karl Marx

por Fernanda Loureiro Goulart


Karl Marx
Foto de Wikipédia - http://pt.wikipedia.org/wiki/Karl_Marx

Sobre a autora[1]

 

Embora Karl Marx não tenha se detido a uma análise aprofundada a respeito de sua concepção de História – o que é de se esperar, não sendo ele um historiador – uma marcante preocupação pelo conhecimento histórico e o método de análise histórica permeia suas obras. Até mesmo em trabalhos voltados a objetivos específicos e altamente relacionados à política de sua época, como em Crítica ao programa de Gotha, publicado em 1875. Marx demonstra um compromisso com uma análise histórica da sociedade, com vistas a influir em seu funcionamento presente.

            Uma primeira consideração a respeito da concepção de história presente em Marx tem justamente a ver com a relação entre a atualidade e a história. A história de Marx tem um objetivo, uma espécie de missão: é através do conhecimento histórico e da análise acurada dos fatos que se torna possível compreender os elementos formativos da sociedade. Entendendo o funcionamento da sociedade é possível influir nela, modificando-a conforme os interesses em voga. Conhecer a história para Marx é adquirir um instrumento básico para agir na sociedade; mais especificamente, estudar e entender a sociedade capitalista como produção histórica é observar os meios de suplantar tal sociedade. A teoria tem a função de orientar a ação prática e torná-la eficaz. Não à toa a palavra práxis tornou-se palavra de ordem dos comunistas, apontando a estreita relação entre teoria e prática observada nos escritos de Marx.

            Como teórico da sociedade capitalista, Marx nunca deixou de buscar no passado as origens das categorias contemporâneas. Mesmo em textos focados em discussões políticas correntes em sua época, ele não deixou de contar com o respaldo de análises históricas. Em Crítica ao programa de Gotha, por exemplo, Marx faz uma análise do programa do partido Socialista alemão escrito Lassale, e a todo o momento critica noções mal fundamentadas historicamente. O mesmo se dá com sua crítica a Proudhon, em Miséria da Filosofia, publicado em 1847. O exemplo maior da aliança entre teoria e prática é, contudo, o Manifesto do Partido Comunista, publicado em 1848. Este se trata de um manifesto político totalmente voltado para a ação com vistas a modificar a sociedade e traz uma espécie de síntese da concepção histórica de Marx e Engels.

            Voltemos um pouco. No tempo em que Marx vivia, estava em curso uma crescente especialização de saberes. Embora não houvessem, em separado, tantas disciplinas como existem hoje, havia uma distinção entre as ciências naturais – que eram regidas por leis – e as ciências do espírito. Marx busca leis para as ciências do espírito, leis que regeriam o funcionamento e evolução da sociedade. Assim, torna-se possível o que já foi dito antes: um conhecimento profundo da sociedade capitalista com vistas a suplantá-la. Entretanto, podemos ir além e estabelecer mais uma concepção acerca da história para Marx. O que se nos apresenta aqui é uma história como processo – com a influência de Hegel –, que segue um caminho determinado por leis que regem a evolução social.

 

A história de todas as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a história das lutas de classe.[2]

 

Todos os movimentos históricos têm sido, até hoje, o movimento de minorias ou em proveito de minorias.[3]

 

Todas as sociedades anteriores se basearam no antagonismo entre classes opressoras e classes oprimidas.[4]

 

‘Na medida em que o trabalho se desenvolva socialmente, convertendo-se assim em fonte de riqueza e de cultura, desenvolvem-se também a pobreza e o desamparo do operário, e a riqueza e a cultura dos que não trabalham’. Essa é a lei de toda a história até hoje.[5]

 

            Tais trechos revelam a idéia de processo histórico e de leis que regem tal processo. Revelam, ainda, uma generalização característica do pensamento de Marx, que não acreditava em análises de elementos isolados. Mas voltando à idéia de processo, Marx é usualmente tachado de teleológico, devido à sua concepção de um fim específico e necessário à história, o que também seria relacionável a Hegel. Ainda assim, parece-me importante ressaltar que Marx retira do processo histórico o providencialismo divino existente no pensamento hegeliano. Para Hegel, o processo histórico se daria por desígnio e expressão de um espírito universal, transcendental. Marx, entretanto, não parece ver o processo histórico como providencial. As leis que regem a sociedade não foram criadas a fim de levarem a um objetivo divino, ou maior que a esfera humana. São leis que competem a relações humanas que, ao se tornarem complexas, tornam-se maiores do que a subjetividade dos homens pode modificar por si só. Mas a história seria feita por homens, objetiva e subjetivamente.

            Partindo desse ponto, entretanto, pode-se observar uma outra característica interessante da concepção de história de Marx: a presença do homem como autor da história. Embora Marx insista na idéia de que os homens se deparam com condições de existência que produzem sua cultura, sua mentalidade, sua identidade, são os homens que movem a sociedade e são eles que podem modificar as condições existentes. Como está escrito nesse excerto de O 18 Brumário de Luís Bonaparte:

 

Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem ; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado.[6]

 

            E ainda na Miséria da Filosofia:

Os mesmos homens que estabelecem as relações sociais de acordo com a sua produtividade material, produzem também os princípios, as idéias, as categorias, conforme as suas relações sociais.[7]

           

Marx vê os homens também como ‘‘autores e atores do seu próprio drama’’[8]. Busca, também, tirar o papel do herói da história, colocando em seu lugar o homem comum, mesmo que massificado. São exatamente as massas que fazem a história, não um homem sozinho. Não é, assim, Luís Bonaparte que, por si só, chegou ao trono francês, mas toda uma conjunção de fatores ligados às leis do processo histórico – que movimenta as pessoas ao mesmo passo que é movimentado por elas – que tornaram possível seu entronamento.

 

Eu (...) demonstro como a luta de classes na França criou circunsstâncias e condições que possibilitaram a um personagem medíocre e grotesco desempenhar um papel de herói.[9]

 

            Resta ainda falar dos traços mais discutidos a respeito da história como concebida por Marx : o materialismo e a dialética.

            Resumidamente, para Marx a sociedade se constitui e evolui a partir de necessidades econômicas e relações oriundas dessas necessidades. É a partir do processo econômico que se estabelece a realidade social e é a realidade social que determina a consciência dos homens – sua cultura, moral, princícpios, etc.

            No prefácio à Contribuição à Crítica da Economia Política, Marx escreve:

 

Na produção social de sua vida, os homes contraem determinadas relações necessárias e independentes de sua vontade, relações de produção que correspondem a uma determinada fase de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais.  O conjunto dessas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta a superestrutura jurídica e política e à qual correspondem detrminadas formas de consciência social. O modo de produção da vida material condiciona o processo da vida social, política e espiritual em geral. Não é a consciência do homem que determina o seu ser, mas, pelo contrário, o seu ser social é que determina a sua consciência.[10]

 

            E na A Ideologia Alemã:

 

Tal como os indivíduos expressam sua vida, assim são eles. O que eles são coincide, portanto, com sua produção, tanto com o que produzem, como com o modo como produzem. O que os indivíduos são, portanto, depende das condições materiais de sua produção.[11]

 

A produção de idéias, de representações, da consciência, está, de início, diretamente entrelaçada com a atividade material e com o intercâmbio material dos homens, como a linguagem da vida real. O representar, o pensar, o intercâmbio espiritual dos homens, aparecem aqui como emancipação direta de seu comportamento material.[12]

 

            Em relação à dialética, Marx toma a idéia de Hegel, mas, segundo o primeiro, a inverte. O princípio para Marx não é o Espírito, a Idéia, como para Hegel. Para este, os homens agiam como instrumentos do Espírito Universal, inconscientemente, e as diferentes etapas de ralização do Espírito equivaliam ao processo histórico. Marx coloca como ponto de partida para o processo histórico o mundo material, no que se nota a influência de Feuerbach. Entretanto, para o último, a matéria, ponto inicial, diz respeito a um mundo já dado, não havendo a concepção de processo. Marx alia a idéia de matéria como ponto inicial, de Feurbach, à submissão da realidade à lógica, de Hegel.

             Como os excertos escolhidos indicam, para Marx o pensamento é uma consequência das condições materiais. Se o processo histórico é determinado pelas necessidades materiais e pelas relações de tais necessidades oriundas, o movimento da sociedade, o movimento que lhe permite a evolução, é determinado pela dialética. A dialética é a lei do movimento da sociedade. A idéia de tese, antítese e síntese pressupõe que a evolução da sociedade se dá como produto de elementos antagônicos. A luta entre esses antagonismos gera um novo elemento. A esse elemento se oporá um antagonismo e à sua luta seguirá um outro elemento. Assim, os antagonismos estão sempre criando espécies de rompimentos. A revolução é, portanto, inerente. Ela não pára.

            Como excertos anteriores já indicaram, para Marx o motor da história é a luta de classes. As classes seriam os antagonismos propulsores de todo o processo histórico.

 

Uma classe oprimida é a condição vital de qualquer sociedade fundada no antagonismo das classes. A libertação da classe oprimida implica pois, necessariamente, a criação de uma sociedade nova.[13]

 

Como síntese da concepção materialista e dialética da história, temos esse trecho em que Engels resume ‘‘o pensamento dominate e essencial do Manifesto’’[14]

 

A produção econômica e a estrutura social que necessariamente decorre dela constituem em cada época histórica a base da história política e intelectual dessa época ; que, por conseguinte (desde a dissolução do regime primitivo da propriedade comum da terra), toda a História tem sido uma história de lutas de classes, de lutas entre as classes exploradas e as classes exploradoras, entre as classes dominantes e as dominadas, nos diferentes estágios do desenvolvimento social.[15]

 

Para finalizar, é interessante notar a busca por uma análise histórica objetiva e acurada. Por mais que a busca histórica se caracterize por um interesse específico, a análise deve ser neutra a fim de que os resultados sejam válidos. Essa crítica Marx faz a Proudhon, que teria uma visão da história ligada a uma providência que se adequa aos interesses do próprio Proudhon.É ainda importante lembrar que essa busca por métodos científicos não se caracteriza pela fácil adoção de fórmulas. Talvez pelo contato amplo que comumente temos com uma historiografia marxista ‘‘vulgar’’, tendencionamos a simplificar as análises do próprio Marx. De dentro de sua época e dos ‘limites das circunstâncias e condições’, suas idéias influenciaram toda a forma de pensar a história, que é o que nos interessa em particular aqui. 



[1] Fernanda Loureiro Goulart: Aluna do quarto de ano de graduação em História – IFCH/UNICAMP.

[2] MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Manifesto do partido comunista. São Paulo: Escriba, s/d, p. 22.

[3] Ibidem. P. 35.

[4] Ibidem. P. 36.

[5] MARX, Karl. Crítica ao programa de Gotha. Disponível pelo site www.marxists.org

[6] MARX, Karl. O 18 brumário  e cartas a Kugelmann. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997, p. 21.

[7] MARX, Karl. “A Metafísica da Economia Política” in Miséria da Filosofia. Lisboa: Estampa, 1978, p. 122.

[8] Ibidem, p. 128.

[9] MARX, KARL. “Prefácio do autor para a segunda edição alemã (1869)” in MARX, Karl. O 18 brumário  e cartas a Kugelmann. Op. Cit, p. 14.

[10] MARX, Karl. “Prefácio à contribuição à crítica da economia política” in: MARX, KARL e ENGELS, Friederich. Textos. Volume 3. São Paulo: Edições Sociais, 1977, p. 301.

[11] MARX, KARL e ENGELS, Friederich. A Ideologia alemã: I - Feuerbach. São Paulo: Hucitec, 1999, pp. 27-28.

[12] Ibidem, p. 36

[13] MARX, Karl. Miséria da Filosofia. Op.cit, p. 191.

[14] ENGELS, FRiederich. “Prefácio à edição alemã de 1883” in: MARX, Karl e ENGELS, Friederich. Manifesto do partido comunista. Op. Cit, p. 15.

[15] Ibidem