ISSN 1807-1783                atualizado em 06 de julho de 2012   


Editorial

Expediente

De Historiadores

Dos Alunos

Arqueologia

Perspectivas

Professores

Entrevistas

Reportagens

Artigos

Resenhas

Envio de Artigos

Eventos

Curtas


Nossos Links



Destaques
Fale Conosco
Cadastro
Newsletter


O Hospital São João de Deus em Laranjeiras (SE): uma proposta de estudo sobre memória, representação social e cultura material (1866-1949)

por Danielle de Oliveira Cavalcante

Sobre a autora[1]

Introdução

Laranjeiras é a segunda cidade mais antiga do Estado de Sergipe, destacando-se uma forte presença de uma cultura material configurada por sua composição arquitetônica com ruas sinuosas, igrejas e casarios construídos sob o modelo português nos séculos XVII, XVIII e XIX.

Em 1863, a cidade vivia seu apogeu comercial sob o título de Empório Comercial de Sergipe por estar em contato direto com Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro. Esse foi o ano em que também ocorreu a segunda epidemia da Cólera Morbo nesta cidade, fazendo assim inúmeras vítimas (OLIVEIRA, 1935, p. 128).

A saúde pública encontrava-se fragilizada, como informa o Relatório de Presidente da Província de Sergipe (1864, p.02) no qual constam relatos sobre as ações das autoridades e os recursos disponibilizados para a melhoria do contexto, todavia, sem sucesso: "A saúde, mercê de Deus, não tem n'estes últimos tempos, depois da cessação do cholara-morbus, soffrido a mínima alteração."

Assim, o Dr. Francisco Alberto Bragança juntamente a outros médicos e autoridades Laranjeirenses, vendo a necessidade de ter um Hospital na cidade, em 14 de Março de 1864, promove uma reunião para definir a criação de uma Irmandade da Piedade e da Misericódia que, posteriormente, estaria vinculada a um Hospital de Caridade para dar aos desvalidos e aos enfermos daquela comunidade o socorro necessário (OLIVEIRA, 1935, p. 104).

No ano de 1866, na casa de propriedade do médico Francisco Alberto de Bragança, na extremidade de uma barranca desabitada com fundos para o rio Cotinguiba, de onde se avistava as Igrejas de Nossa Sra. da Conceição dos Pardos e de Nossa Sra. do Rosário, foi concluído o andar superior do Hospital da Caridade de Laranjeiras São João de Deus (protetor da pobreza enferma). Foi nesse local que, segundo a memória local, Lampião[2] teria sido atendido na "calada da noite" passando-se por um fazendeiro pernambucano por volta de 1929 (AZEVEDO, 1971).

A installação deste pio estabelecimento, cuja idea ao espirito de caridade e philantropia de que são dotados os habitantes d'aquella importante cidade, teve lugar no dia 29 do anno passado, a cujo acto tive de assistir e por essa occasião observar o asseio e decencia da respectiva casa, oferecendo assim os necessarios commodos para o tratamento dos doentes. (RELATÓRIO DE PRESIDENTE DA PROVÍNCIA DE SERGIPE, 21/01/1867, p.32)

O hospital, vizinho à loja maçônica do município, encontra-se hoje em ruínas, completamente abandonado, conservando somente sua fachada e desprotegido em sua entrada, mesmo se tratando de uma propriedade particular. A construção possui uma grande variedade estilística (evidenciando aspectos do ecletismo e neogótico) em sua arquitetura composta por janelas e porta arqueadas, frisos e vários ornamentos em forma de losangos com brasões que lembram uma flor-de-lis[3] e um caduceu[4] peculiar, adornando o frontão acima da porta da entrada (MELLO, 2011a, p.309).

As interferências nas edificações de Laranjeiras em seu contexto urbano, com mudanças no âmbito social, denotam processos de ruptura e continuidade com seu passado. Através de destruições e perdas no espaço da cidade, percebidas principalmente quando convivem elementos da cidade antiga (ruínas) ao lado de elementos modernos (restauros ou novas construções), a urbanidade é vista como representação do que já foi, do que não é mais e do que se propõe a ser de agora em diante (SANTOS, 2009, p.16).

Observa-se a cidade de Laranjeiras sob os efeitos da transição do tempo em sua materialidade, modificando-se e/ou desaparecendo entre renovações e modernizações do espaço  processo que também deixa muitas marcas nas memórias de diferentes grupos socias. Ainda que a memória se afirme nas continuidades urbanas, o esquecimento está presente na deteriorização daquilo que já é passado (SANTOS, 2009, p.16).

A memória, como propriedade de conservar certas informações, remete-nos em primeiro lugar a um conjunto de funções, graças às quais o homem pode atualizar impressões ou informações passadas, ou que ele representa como passadas. Os esquecimentos e os silêncios da história são reveladores destes mecanismos de manipulação da memória coletiva que perpassam a relação dos indivíduos e/ou da coletividade (LE GOFF, 2003, p.419). Assim, a memória compõe-se como:

[...] um elemento essencial do que se costuma chamar de identidade, individual ou coletiva, cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje, na febre e na angústia (LE GOFF, 2003, p. 469).

A partir da ação do tempo sobre a cultura material edificada, seu contexto histórico e relações sociais desenvolvidas pela comunidade nas estruturas de seu entorno, as memórias coletivas tornam-se visíveis ou invisíveis enquanto símbolos de decadência ou patrimônio. Nesse sentido, o estudo do Hospital São João de Deus, conectado aos aspectos da memória, torna-se um importante instrumento para o entendimento das percepções dos grupos sobre as representações sociais do espaço edificado sob o signo do caduceu.

Logo, a pesquisa insere-se no âmbito da História Cultural ao configurar-se como o estudo dos processos com os quais se constrói um sentido, uma vez que as representações podem ser pensadas como: "[...] esquemas intelectuais, que criam as figuras graças às quais o presente pode adquirir sentido, o outro tornar-se inteligível e o espaço ser decifrado" (CHARTIER, 1990, p.17).

A proposta de estudo nasce de uma pesquisa anterior de PIBIC-CNPq (2011-2012) da Universidade Federal de Sergipe (UFS), vinculado ao curso de graduação em Museologia, compreendendo os estudos iniciais de Arqueologia Histórica[5] aplicada às edificações de ruínas na cidade de Laranjeiras, dentre elas o Hospital São João de Deus, tendo como base teórico-metodológica a Arqueologia da Arquitetura[6] e a Arqueologia da Paisagem[7]. Destina-se agora a elaboração de uma dissertação de Mestrado a ser defendida em 2014.[8]

O Hospital São João de Deus entre a memória e a historiografia de um "lugar ausente".

Existem poucas obras publicadas sobre Laranjeiras com alusão ao hospital São João de Deus, e as que abordam esse objeto o fazem através de uma escrita memorialista, pouco informando sobre fontes primárias utilizadas na construção narrativa. Outro problema apresenta-se em relação às lacunas e contrações que os mesmos relatos trazem, suscitando dúvidas e um anseio por obter uma maior profundidade de análise sobre o tema.

Na seara da historiografia sobre a cidade de Laranjeiras, a obra "História de Laranjeiras Cathólica" (1935) é um trabalho que ajuda a remontar alguns aspectos socioculturais da população laranjeirense no século XIX, trazendo relatos sobre a cidade, a saúde pública e o papel do hospital São João de Deus através das pesquisas do Cônego Philadelpho Jonathas de Oliveira.

Os "Relatórios de Presidente de Província de Sergipe" (1835-1918), enquanto fontes primárias, ofertam uma grande contribuição informando sobre a saúde pública de Laranjeiras, com destaque para o hospital São João de Deus em sua trajetória e dificuldades. Segundo o Exmo. Sr. Dr. José Pereira da Silva Moraes (1867), Presidente da Província e autoridade presente na inauguração do hospital, a instalação do estabelecimento, sob o espírito de caridade e filantropia, o levou a observar o anseio e decência da respectiva casa, oferecendo assim os necessários cômodos para o tratamento dos doentes.

O Dr. Antônio Militão de Bragança assumiu e administrou o Hospital São João de Deus, fundado pelo seu pai, o Dr. Alberto de Bragança, anos depois da sua morte. O artigo em homenagem ao centenário de nascimento do Dr. Antônio Militão de Bragança na Revista do IHGSE de nº 24 (1960), escrito pelo Dr. Juliano Simões, contém relatos sobre a sua trajetória médica e a preocupação com a população frente à epidemia de varíola, entre 1911  1912, evidenciada por uma citação de sua fala:

Aceitei como um apêlo ao meu amor à terra que me deu o berço e não podendo ser indiferente ao infortúnio que fatalmente lhe traria a epidemia invasora, não tendo até então encontrado o Govêrno Médicos que se quisessem comissionar para os trabalhos da varíola nesta cidade, sem mais hesitações e desfalecimentos, fiel ao juramento de meu sacerdócio, com perigo embora de minha vida, e do que me são caros, aqui fiquei prestando a meus conterrâneos todos os serviços que o terrível morbus reclamava para sua debelação. (SIMÕES, 1960, p.82).

O próprio Dr. Antônio Bragança escreveu a obra "A Varíola em Laranjeiras (1911-1912)", relatando o contexto da população laranjeirense nos tempos da epidemia de varíola. Reclamava da mudança da administração e a consequente escassez dos recursos, a insalubridade do edifício que abrigava o hospital, afirmando que em 1911 a cidade passava por "amargas, pungentes e dolorosas recordações".

As paredes negras e tectridas imprimiam ao ambiente uma desagradável tristeza, que ainda mais enfraquecia o moral já abatido dos pobres enfermos. O solo impregnado de miasmas, causava uma immediata repugnância a todo aquelle que acidentalmente transpunha os umbraes daquella casa, onde vão procurar allivio para as suas dores os infelizes atrozmente torturados pelas vicissitudes da vida (BRAGANÇA, 1912, p.44).

Ainda a obra "Doutor Bragança, esse varão laranjeirense", de autoria de Camarino Bragança de Azevedo, publicada em 1971, é um relato memorialista da referida personalidade, trazendo dados sobre a genealogia da família Bragança, do hospital São João de Deus e do contexto da saúde pública em Laranjeiras sob os auspícios do Dr. Bragança.

Ressalte-se ainda nessa linha biográfica o verbete dedicado ao Dr. Bragança presente no "Dicionário Bibliográfico Sergipano", publicado em 1925 (p.50-51), organizado por Manoel Armindo Guaraná. E também no "Dicionário biográfico de médicos de Sergipe" (séc. XIX e XX), oganizado em 2009, por Antônio Samarone de Santana, Lucio Antônio Prado Dias e Petrônio Andrade Gomes.

Ainda em 2009, o artigo "Lançando um olhar sobre o patrimônio arquitetônico de Laranjeiras", dos arquitetos Eder Donizeti da Silva e Adriana Dantas Nogueira, na revista "O despertar do conhecimento na Colina Azulada", vol.1, embora tratem de diversas edificações da cidade, ao optarem seguir a rota do plano urbanístico do Programa Monumenta/IPHAN de 2003, não fazem qualquer referência ao prédio do hospital.

Em 2011, houve a publicação de dois artigos: "A Arqueologia Histórica em Laranjeiras (SE-Brasil): uma proposta de salvaguarda da cultura material portuguesa nas ruínas da cidade" (MELLO, 2011a) na revista "História da Sociedade e da Cultura", publicado pela Universidade de Coimbra; e "Arqueologia nas ruínas de Laranjeiras (SE): Novas práticas tridimensionais de salvaguarda do patrimônio histórico" (MELLO; FIGUEIRÔA, 2011), no jornal da Cidade. Ambos tratam das ruínas do hospital e do teatro Santo Antônio sob o viés da Arqueologia Histórica e da aplicação tecnológica a esses objetos.

Embora não se enquadre como "bibliografia", vale a pena mencionar o vídeo-documentário "On the trail of ruins: views on a social Archaeology in the city of Orange (Sergipe, Brazil)"[9], com 20 minutos, produzido em 2011 e exibido no mesmo ano durante a Reunião da Sociedade Brasileira de Arqueologia (SAB) na UFSC, Florianópolis. O documentário (MELLO, 2011b) foi feito a partir de uma quantidade significativa de fotografias detalhadas das estruturas de duas edificações urbanas em ruínas de Laranjeiras: o Hospital São João de Deus e o Teatro São Pedro.

Ao aliar o material bibliográfico tradicional acima referenciado a uma documentação primária ainda não trabalhada sobre o hospital, utilizando-se de alguns pressupostos metodológicos da Arqueologia Histórica, na relação interdisciplinar entre os campos de saber, torna-se possível compreender a História Cultural do Hospital São João de Deus em sua funcionalidade e representação social discursiva na memória local.

O que falam das pedras? Da materialidade edificada à representação social discursiva.

A História Cultural tem por principal objetivo identificar o modo como em diferentes lugares e momentos uma realidade social é construída, pensada, dada a ler. Voltando-se para a vida social, esse campo pode tomar por objeto as formas e os motivos de suas representações e pensá-las como análise do trabalho de representação das classificações e das exclusões que constituem as configurações sociais e conceituais de um tempo ou de um espaço. No entanto, a História Cultural deve ser entendida como o estudo dos processos com os quais se constrói um sentido, tornando-se aberto o espaço a ser decifrado (CHARTIER, 1990, p.17).

Nesse sentido, o Hospital São João de Deus torna-se tanto na materialidade de sua edificação hoje em ruínas, como nos discursos oficiais textuais e extra-oficiais da oralidade dos moradores de Laranjeiras, um objeto propício a interpretação da representação social elaborada sobre o mesmo.

A representação permite visualizar uma coisa ausente, o que supõe uma distinção radical entre aquilo que representa e aquilo que é representado. Por outro lado, a representação também é percebida como exibição de uma presença, como apresentação pública de algo, como instrumento de conhecimento que faz ver um objeto ausente através da sua substituição por uma imagem capaz de reconstituí-lo em memória e de figurá-lo tal como ele é (CHARTIER, 1990, p. 20).

A presença do hospital nos relatórios de presidentes de província, diários oficiais e periódicos locais que se mantém ausente dos relatos memorialistas ou históricos sobre a cidade de Laranjeiras evidenciam esse jogo de luz e sombra na construção da linguagem informativa. Assim como o destaque das ruínas, ora ressaltadas pelo IPHAN e pela Prefeitura de Laranjeiras, ora esquecidas em sua salvaguarda, por serem visíveis ou invisíveis como remanescências decadentes de um passado esquecido, compõe a paisagem imagética da realidade social laranjeirense. E segundo Burke (2008, p. 99), imagens e textos refletem ou imitam a realidade social, ou seja, construção ou produção da realidade, por meio de representações.

Há um forte interesse popular pelas memórias históricas. Esse interesse, segundo Burke, é provavelmente advindo da aceleração das mudanças sociais e culturais que ameaçam as identidades, ao separar aquilo que somos daquilo que fomos (BURKE, 2008, p. 88). Desse modo, o estudo do hospital propicia o trânsito pelas identidades da população de Laranjeiras no contexto das alterações socioculturais entre o século XIX e XX.

Aliando-se, portanto, a discussão de identidade à perspectiva da memória, compreendendo-as em sua simbiose no contexto de negociação, mudança e transformação "em função dos outros", segundo a visão de Pollak para quem:

a memória é um elemento constituinte do sentimento de identidade, tanto individual como coletiva, na medida em que ela é também um fator extremamente importante do sentimento de continuidade e de coerência de uma pessoa ou de um grupo em sua reconstrução de si (1992, p.5).

Pautada a priori por esse quadro teórico, a metodologia adotada nessa pesquisa segue três etapas, a saber: a análise textual, a partir das fontes escritas; a análise da oralidade, a partir da realização de entrevistas de caráter semi-estruturado, e o estudo das estruturas arquitetônicas da edificação em ruínas do hospital São João de Deus junto à materialidade e fontes imagéticas do local.

Inicialmente o estudo bibliográfico centra-se nas contribuições teóricas de vários autores que realizaram artigos, monografias, dissertações, teses ou livros que abordam sob algum aspecto a presença do hospital São João de Deus em Laranjeiras. Conforme Martins (2000, p.28): "trata-se, portanto, de um estudo para conhecer as contribuições científicas sobre o tema, tendo como objetivo recolher, selecionar, analisar e interpretar as contribuições teóricas existentes sobre o fenômeno pesquisado".

As informações constantes em periódicos locais, como "A Vida Laranjeirense" e nos "Diários Oficiais do Estado", relatando o levantamento de recursos junto à União destinados ao hospital no início do século XX, aliadas aos dados presentes nos Relatórios de Presidentes da Província de Sergipe (1835-1918) descrevem a situação da cidade de Laranjeiras sob a ótica da saúde pública, investimentos, tensões e descaso serão tratadas como elementos discursivos passíveis de análise em sua intertextualidade[10], na qual os textos estão diretamente vinculados ao contexto histórico em sua produção de sentido.

Desse modo, "os sentidos que podem ser lidos, então, em um texto não estão necessariamente ali, nele. O(s) sentidos(s) de um texto passa(m) pela relação dele com outros textos" (ORLANDI, 2006: 11)

Faz-se a opção pelo entendimento das representações sociais a partir da metodologia da análise do discurso da linha francesa. Nas fontes textuais com lacunas, distorções ou subjetividades rememorativas sobre o hospital São João de Deus busca-se compreender que a linguagem tem a ver com a exterioridade, não estando a idéia de todo implicada na idéia de completude. Assim, se a linguagem não é um sistema monolítico, não é completa, não é transparente, nem linear, nem inteira e nem precisa, toma-se "como incompletude o fato de que o que caracteriza qualquer discurso é a multiplicidade de sentidos possíveis" (ORLANDI, 2006:23).

Paul Thompson, em "A voz do passado" (1992), já havia detectado o valor das fontes orais na história social moderna, uma vez que a oralidade proporciona presença histórica e reconhecimento à visão de mundo de uma determinada comunidade em seu cotidiano.

Por isso, para captar as vozes difusoras das representações sociais que permeiam o imaginário dos habitantes e trabalhadores nas imediações do hospital, o recurso à história oral para a realização de entrevistas com a comunidade de Laranjeiras será essencial. Sob esse aspecto, a escolha do método para a realização de entrevistas está se baseando em princípios que nortearão a relação testemunha/entrevistador mesmo antes da coleta das fontes orais. Assim, a coleta dos registros orais ocorre mediante os passos indicados por Chantal de Tourtier-Bonazzi (2002), compreendendo a seleção das testemunhas, o lugar das entrevistas, o roteiro das entrevistas e a transcrição do material gravado em MP-4.

Os dados serão tratados qualitativamente (análise do discurso) e quantitativamente (elaboração de tabelas e gráficos) que permitam visualizar com mais objetividade as informações recolhidas entre o universo de entrevistados (a saber: idosos moradores das proximidades do hospital, familiares remanescentes dos Bragança, guias de turismo credenciados na cidade, professores e jovens, perfazendo de 50 a 80 entrevistas).

A terceira etapa da pesquisa será realizada através de fontes materiais configuradas nas ruínas do hospital. Serão, portanto, utilizados os estudos de Andrés Zarankin (1999; 2002), sobre a Arqueologia da Arquitetura e as interpretações de plantas baixas, bem como de Pedro Paulo Funari (1988), sobre técnicas de utilização do espaço na pesquisa.

Através da ação sobre o espaço, o tempo e a destruição é que se originou a Arqueologia Urbana, sendo utilizada na geração do conhecimento sobre a cultura material e a preservação do Patrimônio Cultural da cidade de Laranjeiras (SE).

"La arqueología urbana nació como un área de investigación de caráter interdisciplinario; entrar al pasado significa sumarle a la arqueología la historia, poner los restos materiales junto com los documentos escritos y gráficos, tres formas de registros diferentes, y usarlos juntos para interpretar el pasado" (SCHÁVELZON, 2002 p. 203).[11]

Complementando esse cenário, com a Arqueologia da Arquitetura, as construções passam a ser vistas como elementos ativos, produtos culturais que interatuam de forma dinâmica com o homem (ZARANKIN, 1999, p.241), proporcionando uma nova perspectiva de análise ao abordar aspectos relacionados à conformação do entorno humano.

Ao pretender uma reflexão sobre as representações sociais dos grupos locais num sentido cultural e histórico, através das ruínas do hospital, busca-se decodificar as informações contidas na materialidade de forma inteligível para o acesso da população ali circundante, empreendendo-se a valorização social, a salvaguarda, e a inserção cidadã dos laranjeirenses na apropriação de seu patrimônio.

Será fundamental ainda nesta pesquisa a utilização de fotografias do edifício no passado e das ruínas no tempo presente, para um melhor entendimento da materialidade do antigo hospital, empreendendo uma análise mais detalhada das estruturas visíveis, uma vez que:

Uma paisagem cultural não pode ser vista como única, mas como múltipla, nela coexistindo vários fragmentos de realidades temporais, revelando assim a relação dos indivíduos com os valores dominantes (SILVA, 2000/2001, p.172)

Sendo assim, o trabalho metodológico com as imagens encontra um guiamento técnico no trabalho de Kossoy (1989, p.24), que compreende a fotografia como elemento de subsídio à pesquisa a partir do momento em que se dimensionam seu: assunto; fotógrafo; tecnologia e coordenadas de espaço e tempo. Implementando ainda uma leitura semiótica da imagem capaz de decodificar os signos presentes na fotografia (FERRARA, 1988; MASCARO, 1994), uma vez que "é uma unidade de manifestação auto-suficiente, um todo de significação  um texto ou discurso, então  suscetível de análise" (CARDOSO; MAUAD, 1997).

Considerações Finais

O trabalho aqui proposto pretende cotejar a documentação de arquivo, publicações de memorialistas e periódicos locais ainda pouco explorados em Sergipe, buscando inserir a narrativa sobre o hospital São João de Deus na seara de uma historiografia sergipana atenta às práticas discursivas sobre a cultura material local.

Lloyd S. Kramer (1992, p.131-132) ressalta que o traço distintivo da nova abordagem cultural da história reside no reconhecimento, por parte dos historiadores, do "papel ativo da linguagem, dos textos e das estruturas narrativas na criação e descrição da realidade histórica".

A História, ao estudar os processos relacionados à memória de uma edificação, contribui para a identificação, valorização e preservação do patrimônio cultural material (JORGE, 2000). E com a produção de informações sobre o hospital, pretende-se um melhor entendimento de sua significação social em Laranjeiras a partir do século XIX até a contemporaneidade, imbuída em discursos textuais oficiais e orais extra-oficiais.

Sua existência nos momentos críticos de epidemias de cólera "morbus" e varíola na cidade e as ações governamentais em torno de providências a respeito da saúde pública em Sergipe aparecem transcritas tanto nos Relatórios de Presidente de Província (1835 - 1918) como nos Diários Oficiais (1909; 1934) enquanto fontes ainda pouco relacionadas ao prédio do hospital.

Entre as publicações dedicadas à História de Laranjeiras (Cf. NUNES; SANTOS, 2009, p.155-207), ainda não existem trabalhos acadêmicos de profundidade no campo da História que tratem o hospital como objeto específico de pesquisa em monografias, dissertações ou teses, embora dados do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e da Prefeitura Municipal de Laranjeiras apontem essa construção do século XIX como uma das mais importantes da região do Contiguiba (MAPA HISTÓRICO-CULTURAL DE LARANJEIRAS, 2011).

Por isso, a pesquisa proposta revela originalidade e potencial para obtenção de respostas às lacunas que ainda persistem na historiografia sergipana sobre Laranjeiras.

Bibliografia

AZEVEDO, Camarino Bragança de. Doutor Bragança, esse varão laranjeirense. Rio de Janeiro: Pongetti, 1971.

BRAGANÇA, Antônio Militão. A Varíola em Laranjeiras (1911-1912). Estado de Sergipe- Aracaju: Typ. Xavier, 1912. 53p.

BURKE, Peter. O que é história Cultural? Trad. Sérgio Góes de Paula. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.191p.

CARDOSO, Ciro F.; MAUAD, Ana Maria. Historia e imagem: os exemplos da fotografia e do Cinema. In: CARDOSO, Ciro F.; VAINFAS, Ronaldo (Orgs.). Domínios da história: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997. p. 401-417.

CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre práticas e representações. Tradução Maria Manuela Galhardo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1990. 245p.

FERRARA, Lucrécia D'Aléssio. Ver a cidade. Cidade, imagem, leitura. São Paulo: Nobel, 1988.

FUNARI, Pedro Paulo Abreu. Arqueologia. São Paulo: Editora Ática, 1988.

GUARANÁ, Manoel Armindo. Dicionário Bibliográfico Sergipano. Rio de Janeiro: Editora Pongetti, 1925.

JORGE, Vítor O. Arqueologia, Património e Cultura. Lisboa: Instituto Piaget, 2000.

KRAMER, Lloyd S. Literatura, crítica e imaginação histórica: o desafio literário de Hayden White e Dominick LaCapra. In: HUNT, Lynn (org.). A Nova História Cultural. São Paulo: Martins Fontes, 1992, p. 131-132.

KOSSOY, Boris. Fotografia e história. São Paulo: Ática, 1989.

LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas: Ed. Unicamp,2003.

MARTINS, Gilberto de Andrade. Manual para elaboração de monografias e dissertações. 2 ed. São Paulo: Atlas, 2000.

MASCARO, Cristiano. A fotografia e a arquitetura. Dissertação de Mestrado/Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. São Paulo: FAU-USP, 1994.

MELLO, Janaina Cardoso de. A Arqueologia Histórica em Laranjeiras (SE-Brasil): uma proposta de salvaguarda da cultura material portuguesa nas ruínas da cidade. Revista de História da Sociedade e da Cultura, 11 Tomo I, Coimbra (2011a), p. 297-315.

____ (Prod.). On the trail of ruins: views on a social Archaeology in the city of Orange (Sergipe, Brazil). Documentário (20'). Laranjeiras: GEMPS/CNPq  UFS, 2011b.

____; FIGUEIRÔA, Raquel Dantas. Arqueologia nas ruínas de Laranjeiras (SE): Novas práticas tridimensionais de salvaguarda do patrimônio histórico. In: Jornal da Cidade, 2011, p. 2B (21/09/2011).

NUNES, Verônica M. Meneses; SANTOS, Maria Socorro Soares dos. Bibliografia laranjeirense. In: NUNES, Verônica Maria Meneses; NOGUEIRA, Adriana Dantas (Orgs.). O despertar do conhecimento na colina azulada. A Universidade Federal de Sergipe em Laranjeiras. Vol. 1. 2ª Ed. São Cristóvão: EDUFS, 2009, p.155-207.

OLIVEIRA, Philadelpho Jonathas de (cônego). História de Laranjeiras Cathólica. 1ª Ed. Aracaju; Casa Ávila, 1935, 289 p.

ORLANDI, E. P. Discurso e leitura. 7ª Ed. São Paulo: Cortez, 2006.

ORSER JR, Charles E. Introdução à Arqueologia Histórica. Tradução Pedro Paulo Abreu Funari. Belo Horizonte: Oficina de Livros,1992.

PAULS, Elizabeth P. The place of Space: Architecture, Landscape, and Social Life. In: HALL, Martin and SILLIMAN, Stephen W. Historical Archaeology. USA: Blackwell Publishing, 2006. p. 65-83.

POLLAK, Michael. Memória e identidade social. In: Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 5, n. 10, 1992, p. 200-212.

RELATÓRIO DE PRESIDENTE DE PROVÍNCIA (1835-1918). Sergipe, 1867. 160p.

SANTANA, Antônio Samarone de; DIAS, Lucio Antônio Prado; GOMES, Petrônio Andrade (Orgs.). Dicionário biográfico de médicos de Sergipe (séc. XIX e XX). Aracaju: ASM, 2009.

SANTOS, Nadja Ferreira. Interface entre arquitetura e Arqueologia na preservação do patrimônio cultural urbano. Dissertação de Mestrado em Memória Social e Patrimônio Cultural/ Universidade Federal de Pelotas. Pelotas: UFPel, 2009. 156f.

SCHÁVELZON, Daniel. El Futuro do Pasado: Indagaciones en arqueología urbana. Cuidad y Ciudadanos: Aporte para lãs ensenãnza Del mundo urbano. Silvia Alderoqui y Pompi Penchansky (compilacion), Cuestiones de Educación, n°36, Editorial Paidos, año 2002. p.199-215.

SILVA, Eder Donizeti da; NOGUEIRA, Adriana Dantas. "Lançando um olhar sobre o patrimônio arquitetônico de Laranjeiras". In: NUNES, Verônica Maria Meneses; NOGUEIRA, Adriana Dantas (Orgs.). O despertar do conhecimento na colina azulada. A Universidade Federal de Sergipe em Laranjeiras. Vol. 1. 2ª Ed. São Cristóvão: EDUFS, 2009, p. 35-98.

SILVA, Lígia Maria Tavares da. Fotografia e paisagem urbana. Saeculum, n. 6/7, Jan./Dez., 2000/2001, p.171-182.

SIMÕES, Juliano. Dr. Antônio Militão de Bragança. Revista do IHGSE. Aracaju, v.19, n.24, 1960, p.73-74.

THOMAS, Julian. Archaeologies of Place and Landscape. In: HODDER, Ian. Archaeological Theory Today. Cambridge: Polity Press, 2001. p. 165-186.

THOMPSON, Paul. A voz do passado: história oral. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

TOURTIER-BONAZZI, Chantal de. Arquivos: Propostas metodológicas. In: FERREIRA, Marieta de Moraes; AMADO, Janaína (Orgs.). Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: FGV, 2002. p.233-245.

ZARANKIN, Andres . Casa tomada; Sistema, poder y vivienda domestica. In: Andres Zarankin; Felix. A. Acuto. (Org.). Sed non Satiata; Teoria Social en la Arqueologia Latinoamericana Contemporanea. 1 ed. Buenos Aires: Del tridente, 1999, v. 1, p. 239-272.

____. Paredes que domesticam: Arqueologia da Arquitetura Escolar Capitalista. O caso de Buenos Aires. Campinas: CHAA-IFICH - UNICAMP/FAPESP, 2002.


[1] Graduada em História (UNITI); Graduanda em Museologia pela Universidade Federal de Sergipe (UFS); bolsista PIBIC-CNPq (2011-2012) sob a orientação da Profa. Dra. Janaina Cardoso de Mello, recém-aprovada nos Mestrados em História (UFS e UFAL) e membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Memória e Patrimônio Sergipano GEMPS/CNPq. E-mail: danielleoliveiracavalcante@hotmail.com

[2] Virgulino Ferreira da Silva esteve envolvido no movimento conhecido como cangaço nos sertões do Nordeste. Destacou-se como uma grande liderança nos enfrentamentos a fazendeiros, políticos e coronéis da época.

Foi morto pela volante no dia 27 de julho de 1938, na fazenda Angicos, situada no sertão de Sergipe, esconderijo tido por Lampião como o de maior segurança.

[3] É uma figuraheráldicamuito associada àmonarquiafrancesa, particularmente ligada com orei da França. Ressaltando a importância de quem residia na habitação cujo muro era ornamentado por tal simbologia.http://pt.wikipedia.org/wiki/Flor-de-lis (Acesso em: 14/05/2012)

[4] O caduceu ou bordão de Esculápio ou Asclépio é um símbolo antigo, relacionado com a astrologia e com a cura dos doentes através da Medicina. Consiste de um bastão envolvido por uma serpente. http://pt.wikipedia.org/wiki/Bord%C3%A3o_de_Escul%C3%A1pio (Acesso em: 16/05/2012)

[5] A Arqueologia Histórica realiza estudos que ultrapassam a simples coleta de objetos, promovendo interpretações a respeito do fazer e do viver de uma sociedade. Através do estudo da cultura material, podemos entender a estrutura espiritual da sociedade e, a partir da exploração material, compreender a estrutura e as suas relações de poder. Sua cronologia compreende os estudos a partir de 1500 até a contemporaneidade. Cf. ORSER JR, 1992.

[6] Através da Arqueologia da Arquitetura, os componentes simbólicos e ideológicos que determinam a morfologia e a estrutura do seu espaço podem ser analisados, incluindo vários aspectos de sua funcionalidade. Cf. ZARANKIN, 2002.

[7] Os estudos referentes ao espaço e a paisagem na Arqueologia se desenvolveram com base na Geografia, nos anos de 1930. A cultura material passa a caracterizar as formas de intervenção humana no espaço transformado em lugar. Assim, o espaço como um todo só passa a ter significado após sofrer a intervenção, a atuação e a vivência humana quando transformado em lugar. Também o espaço é percebido como uma área que possui pouco significado para quem a observa, já o lugar são áreas que possuem significados e memórias. A Arqueologia da paisagem preocupa-se em analisar essas intervenções na cultura material, bem como as memórias e representações advindas destas (THOMAS, 2001; PAULS, 2006).

[8] Projeto recém-aprovado nas seleções para 2012-2 dos Mestrados em História da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e da Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

[9] Na trilha das ruínas: olhares sobre a Arqueologia Social na cidade de Laranjeiras (Tradução Livre).

[10] No que diz respeito à noção de um texto como produto de outro texto, nascendo de/em outros textos e assim pautando-se no diálogo entre os textos elencados como fontes.

[11] A arqueologia urbana nasceu como uma área de investigação de caráter interdisciplinar; entrar no passado significa somar-se a arqueologia a história, por os vestígios materiais junto com os documentos escritos e imagéticos, três formas de registros diferentes e usá-los juntos para interpretar o passado (Tradução Livre).