Sobre a autora[1]
Introdução
Laranjeiras é a segunda cidade mais antiga do Estado de Sergipe,
destacando-se uma forte presença de uma cultura material configurada por sua
composição arquitetônica com ruas sinuosas, igrejas e casarios construídos sob o
modelo português nos séculos XVII, XVIII e XIX.
Em
1863, a cidade vivia seu apogeu comercial sob o título de Empório Comercial de
Sergipe por estar em contato direto com Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro. Esse
foi o ano em que também ocorreu a segunda epidemia da Cólera Morbo nesta cidade,
fazendo assim inúmeras vítimas (OLIVEIRA, 1935, p. 128).
A saúde pública encontrava-se fragilizada, como informa o Relatório de
Presidente da Província de Sergipe (1864, p.02) no qual constam relatos sobre as
ações das autoridades e os recursos disponibilizados para a melhoria do
contexto, todavia, sem sucesso: "A saúde, mercê de Deus, não tem n'estes últimos
tempos, depois da cessação do cholara-morbus, soffrido a mínima alteração."
Assim, o Dr. Francisco Alberto Bragança juntamente a outros médicos e
autoridades Laranjeirenses, vendo a necessidade de ter um Hospital na cidade, em
14 de Março de 1864, promove uma reunião para definir a criação de uma Irmandade
da Piedade e da
Misericódia que, posteriormente, estaria vinculada a um Hospital
de Caridade para dar aos desvalidos e aos enfermos daquela comunidade o socorro
necessário (OLIVEIRA, 1935, p. 104).
No ano de 1866, na casa de propriedade do médico Francisco Alberto de
Bragança, na extremidade de uma barranca desabitada com fundos para o rio
Cotinguiba, de onde se avistava as Igrejas de Nossa Sra. da Conceição dos Pardos
e de Nossa Sra. do Rosário,
foi concluído o andar superior do Hospital da Caridade de Laranjeiras São João
de Deus (protetor da pobreza enferma). Foi nesse local que, segundo a memória
local, Lampião[2]
teria sido atendido na "calada da noite" passando-se por um fazendeiro
pernambucano por volta de 1929 (AZEVEDO, 1971).
A installação deste pio estabelecimento, cuja idea ao espirito de caridade e
philantropia de que são dotados os habitantes d'aquella importante cidade, teve
lugar no dia 29 do anno passado, a cujo acto tive de assistir e por essa
occasião observar o asseio e decencia da respectiva casa, oferecendo assim os
necessarios commodos para o tratamento dos doentes. (RELATÓRIO DE PRESIDENTE DA
PROVÍNCIA DE SERGIPE, 21/01/1867, p.32)
O hospital, vizinho à loja maçônica do município, encontra-se hoje em
ruínas, completamente abandonado, conservando somente sua fachada e desprotegido
em sua entrada,
mesmo se tratando de uma propriedade particular. A construção possui uma grande
variedade estilística (evidenciando aspectos do ecletismo e neogótico) em sua
arquitetura composta por janelas
e porta arqueadas, frisos e vários ornamentos em forma de losangos com brasões
que lembram uma flor-de-lis[3]
e um caduceu[4]
peculiar, adornando o frontão acima da porta da
entrada (MELLO, 2011a, p.309).
As interferências nas edificações de Laranjeiras em seu contexto urbano, com
mudanças no âmbito social, denotam processos de ruptura e continuidade com seu
passado. Através de destruições e perdas no espaço da cidade, percebidas
principalmente quando convivem elementos da cidade antiga (ruínas) ao lado de
elementos modernos (restauros ou novas construções), a urbanidade é vista como
representação do que já foi, do que não é mais e do que se propõe a ser de agora
em diante (SANTOS, 2009, p.16).
Observa-se a cidade de Laranjeiras sob os efeitos da transição do tempo em
sua materialidade, modificando-se e/ou desaparecendo entre renovações e
modernizações do espaço processo que também
deixa muitas marcas nas memórias de diferentes grupos socias. Ainda que a
memória se afirme nas continuidades urbanas, o esquecimento está presente na
deteriorização daquilo que já é passado (SANTOS, 2009, p.16).
A memória, como propriedade de conservar certas informações, remete-nos em
primeiro lugar a um conjunto de funções, graças às quais o homem pode atualizar
impressões ou informações passadas, ou que ele representa como passadas. Os
esquecimentos e os silêncios da história são reveladores destes mecanismos de
manipulação da memória coletiva que perpassam a relação dos indivíduos e/ou da
coletividade (LE GOFF, 2003, p.419). Assim, a memória compõe-se como:
[...] um elemento essencial do que se costuma chamar de identidade, individual
ou coletiva, cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das
sociedades de hoje, na febre e na angústia (LE GOFF, 2003, p. 469).
A partir da ação do tempo sobre a cultura material edificada, seu contexto
histórico e relações sociais desenvolvidas pela comunidade nas estruturas de seu
entorno, as memórias coletivas tornam-se visíveis ou invisíveis enquanto
símbolos de decadência ou patrimônio. Nesse sentido, o estudo do Hospital São
João de Deus, conectado aos aspectos da memória, torna-se um importante
instrumento para o entendimento das percepções dos grupos sobre as
representações sociais do espaço edificado sob o signo do caduceu.
Logo, a pesquisa insere-se no âmbito da História Cultural ao configurar-se
como o estudo dos processos com os quais se constrói um sentido, uma vez que as
representações podem ser pensadas como: "[...] esquemas intelectuais, que criam
as figuras graças às quais o presente pode adquirir sentido, o outro tornar-se
inteligível e o espaço ser decifrado" (CHARTIER, 1990, p.17).
A proposta de estudo nasce de uma pesquisa anterior de PIBIC-CNPq (2011-2012) da
Universidade Federal de Sergipe (UFS), vinculado ao curso de graduação em
Museologia, compreendendo os estudos iniciais de Arqueologia Histórica[5]
aplicada às edificações de
ruínas na cidade de Laranjeiras, dentre elas o
Hospital São João de Deus, tendo como base teórico-metodológica a Arqueologia da
Arquitetura[6]
e a Arqueologia da Paisagem[7].
Destina-se agora a elaboração de uma dissertação de Mestrado a ser defendida em
2014.[8]
O Hospital São João de Deus entre a memória e a historiografia de um "lugar
ausente".
Existem poucas obras publicadas sobre Laranjeiras com alusão ao hospital São
João de Deus, e as que abordam esse objeto o fazem através de uma escrita
memorialista, pouco informando sobre fontes primárias utilizadas na construção
narrativa. Outro problema apresenta-se em relação às lacunas e contrações que os
mesmos relatos trazem, suscitando dúvidas e um anseio por obter uma maior
profundidade de análise sobre o tema.
Na seara da historiografia sobre a cidade de Laranjeiras, a obra "História de
Laranjeiras Cathólica" (1935) é um trabalho que ajuda a remontar alguns
aspectos socioculturais da população laranjeirense no século XIX, trazendo
relatos sobre a cidade, a saúde pública e o papel do hospital São João de Deus
através das pesquisas do Cônego Philadelpho Jonathas de Oliveira.
Os "Relatórios de Presidente de Província de Sergipe" (1835-1918),
enquanto fontes primárias, ofertam uma grande contribuição informando sobre a
saúde pública de Laranjeiras, com destaque para o hospital São João de Deus em
sua trajetória e dificuldades. Segundo o Exmo. Sr. Dr. José Pereira da Silva
Moraes (1867), Presidente da Província e autoridade presente na inauguração do
hospital, a instalação do estabelecimento, sob o espírito de caridade e
filantropia, o levou a observar o anseio e decência da respectiva casa,
oferecendo assim os necessários cômodos para o tratamento dos doentes.
O Dr. Antônio Militão de Bragança assumiu e administrou o Hospital São
João de Deus, fundado pelo seu pai, o Dr. Alberto de Bragança, anos depois da
sua morte. O artigo em homenagem ao centenário de nascimento do Dr. Antônio
Militão de Bragança na Revista do IHGSE de nº 24 (1960), escrito pelo Dr.
Juliano Simões, contém relatos sobre a sua trajetória médica e a preocupação com
a população frente à epidemia de varíola, entre
1911 1912, evidenciada por uma citação de sua fala:
Aceitei como um apêlo ao meu amor à terra que me deu o berço e não podendo ser
indiferente ao infortúnio que fatalmente lhe traria a epidemia invasora, não
tendo até então encontrado o Govêrno Médicos que se quisessem comissionar para
os trabalhos da varíola nesta cidade, sem mais hesitações e desfalecimentos,
fiel ao juramento de meu sacerdócio, com perigo embora de minha vida, e do que
me são caros, aqui fiquei prestando a meus conterrâneos todos os serviços que o
terrível morbus reclamava para sua debelação. (SIMÕES,
1960, p.82).
O próprio Dr. Antônio Bragança escreveu a obra "A Varíola em Laranjeiras
(1911-1912)", relatando o contexto da população laranjeirense nos tempos da
epidemia de varíola. Reclamava da mudança da
administração e a consequente escassez dos recursos, a insalubridade do edifício
que abrigava o hospital, afirmando que em 1911 a cidade passava por "amargas,
pungentes e dolorosas recordações".
As paredes negras e tectridas imprimiam ao ambiente uma desagradável tristeza,
que ainda mais enfraquecia o moral já abatido dos pobres enfermos. O solo
impregnado de miasmas, causava uma immediata repugnância a todo aquelle que
acidentalmente transpunha os umbraes daquella casa, onde vão procurar allivio
para as suas dores os infelizes atrozmente torturados pelas vicissitudes da vida
(BRAGANÇA, 1912, p.44).
Ainda a obra "Doutor Bragança, esse varão laranjeirense", de autoria de
Camarino Bragança de Azevedo, publicada em 1971, é um relato memorialista da
referida personalidade, trazendo dados sobre a genealogia da família Bragança,
do hospital São João de Deus e do contexto da saúde pública em Laranjeiras sob
os auspícios do Dr. Bragança.
Ressalte-se ainda nessa linha biográfica o verbete dedicado ao Dr.
Bragança presente no "Dicionário Bibliográfico Sergipano", publicado em 1925
(p.50-51), organizado por Manoel Armindo Guaraná. E também no "Dicionário
biográfico de médicos de Sergipe" (séc. XIX e XX), oganizado em 2009, por
Antônio Samarone de Santana, Lucio Antônio Prado Dias e Petrônio Andrade Gomes.
Ainda em 2009, o artigo "Lançando um olhar sobre o patrimônio
arquitetônico de Laranjeiras", dos arquitetos Eder Donizeti da Silva e Adriana
Dantas Nogueira, na revista "O despertar do conhecimento na Colina Azulada",
vol.1, embora tratem de diversas edificações da cidade, ao optarem seguir a rota
do plano urbanístico do Programa Monumenta/IPHAN de 2003, não fazem qualquer
referência ao prédio do hospital.
Em 2011, houve a publicação de dois artigos: "A
Arqueologia Histórica em Laranjeiras (SE-Brasil): uma proposta de salvaguarda da
cultura material portuguesa nas ruínas da cidade" (MELLO, 2011a) na revista
"História da Sociedade e da Cultura", publicado pela Universidade de Coimbra; e
"Arqueologia nas ruínas de Laranjeiras (SE): Novas práticas tridimensionais de
salvaguarda do patrimônio histórico" (MELLO; FIGUEIRÔA, 2011), no jornal da
Cidade. Ambos tratam das ruínas do hospital e do
teatro Santo Antônio sob o viés da Arqueologia Histórica e da aplicação
tecnológica a esses objetos.
Embora não se enquadre como "bibliografia", vale a pena mencionar o
vídeo-documentário "On the trail of ruins: views on a social Archaeology
in the city of Orange (Sergipe, Brazil)"[9],
com 20 minutos, produzido em 2011 e exibido no mesmo ano durante a Reunião da
Sociedade Brasileira de Arqueologia (SAB) na UFSC, Florianópolis. O documentário
(MELLO, 2011b) foi feito a partir de uma quantidade significativa de fotografias
detalhadas das estruturas de duas edificações urbanas em ruínas de Laranjeiras:
o Hospital São João de Deus e o Teatro São Pedro.
Ao aliar o material bibliográfico tradicional acima referenciado a uma
documentação primária ainda não trabalhada sobre o hospital, utilizando-se de
alguns pressupostos metodológicos da Arqueologia Histórica, na relação
interdisciplinar entre os campos de saber, torna-se possível compreender a
História Cultural do Hospital São João de Deus em sua funcionalidade e
representação social discursiva na memória local.
O que falam das pedras? Da materialidade edificada à representação social
discursiva.
A História Cultural tem por principal objetivo identificar o modo como em
diferentes lugares e momentos uma realidade social é construída, pensada, dada a
ler. Voltando-se para a vida social, esse campo pode tomar por objeto as formas
e os motivos de suas representações e pensá-las como análise do trabalho de
representação das classificações e das exclusões que constituem as configurações
sociais e conceituais de um tempo ou de um espaço. No entanto, a História
Cultural deve ser entendida como o estudo dos processos com os quais se constrói
um sentido, tornando-se aberto o espaço a ser decifrado (CHARTIER, 1990, p.17).
Nesse sentido, o Hospital São João de Deus torna-se tanto na materialidade
de sua edificação hoje em ruínas, como nos discursos oficiais textuais e
extra-oficiais da oralidade dos moradores de Laranjeiras, um objeto propício a
interpretação da representação social elaborada sobre o mesmo.
A representação permite visualizar uma coisa ausente, o que supõe uma
distinção radical entre aquilo que representa e aquilo que é representado. Por
outro lado, a representação também é percebida como exibição de uma presença,
como apresentação pública de algo, como instrumento de conhecimento que faz ver
um objeto ausente através da sua substituição por uma imagem capaz de
reconstituí-lo em memória e de figurá-lo tal como ele é (CHARTIER, 1990, p. 20).
A presença do hospital nos relatórios de presidentes de província, diários
oficiais e periódicos locais que se mantém ausente dos relatos memorialistas ou
históricos sobre a cidade de Laranjeiras evidenciam esse jogo de luz e sombra na
construção da linguagem informativa. Assim como o destaque das ruínas, ora
ressaltadas pelo IPHAN e pela Prefeitura de Laranjeiras, ora esquecidas em sua
salvaguarda, por serem visíveis ou invisíveis como remanescências decadentes de
um passado esquecido, compõe a paisagem imagética da realidade social
laranjeirense. E segundo Burke (2008, p. 99), imagens e textos refletem ou
imitam a realidade social, ou seja, construção ou produção da realidade, por
meio de representações.
Há um forte interesse popular pelas memórias históricas. Esse interesse,
segundo Burke, é provavelmente advindo da aceleração das mudanças sociais e
culturais que ameaçam as identidades, ao separar aquilo que somos daquilo que
fomos (BURKE, 2008, p. 88). Desse modo, o estudo do hospital propicia o trânsito
pelas identidades da população de Laranjeiras no contexto das alterações
socioculturais entre o século XIX e XX.
Aliando-se, portanto, a discussão de identidade à perspectiva da memória,
compreendendo-as em sua simbiose no contexto de negociação, mudança e
transformação "em função dos outros", segundo a visão de Pollak para quem:
a memória é um elemento constituinte do sentimento de identidade, tanto
individual como coletiva, na medida em que ela é também um fator extremamente
importante do sentimento de continuidade e de coerência de uma pessoa ou de um
grupo em sua reconstrução de si (1992, p.5).
Pautada a priori por esse quadro teórico, a metodologia adotada nessa
pesquisa segue três etapas, a saber: a análise
textual, a partir das fontes escritas; a análise da oralidade, a partir da
realização de entrevistas de caráter semi-estruturado, e o estudo das estruturas
arquitetônicas da edificação em ruínas do hospital São João de Deus junto à
materialidade e fontes imagéticas do local.
Inicialmente o
estudo bibliográfico centra-se nas contribuições teóricas de vários autores que
realizaram artigos, monografias, dissertações, teses ou livros que abordam sob
algum aspecto a presença do hospital São João de Deus em Laranjeiras. Conforme
Martins (2000, p.28): "trata-se, portanto, de um estudo para conhecer as
contribuições científicas sobre o tema, tendo como objetivo recolher,
selecionar, analisar e interpretar as contribuições teóricas existentes sobre o
fenômeno pesquisado".
As informações constantes em periódicos locais, como "A Vida Laranjeirense" e
nos "Diários Oficiais do Estado", relatando o levantamento de recursos junto à
União destinados ao hospital no início do século XX, aliadas aos dados presentes
nos Relatórios de Presidentes da Província de Sergipe (1835-1918) descrevem a
situação da cidade de Laranjeiras sob a ótica da saúde pública, investimentos,
tensões e descaso serão tratadas como elementos discursivos passíveis de análise
em sua intertextualidade[10],
na qual os textos estão diretamente vinculados ao contexto histórico em sua
produção de sentido.
Desse modo, "os sentidos que podem ser lidos, então, em um texto não estão
necessariamente ali, nele. O(s) sentidos(s) de um texto passa(m) pela relação
dele com outros textos" (ORLANDI, 2006: 11)
Faz-se a opção pelo entendimento das representações sociais a
partir da metodologia da análise do discurso da linha francesa. Nas
fontes textuais com lacunas, distorções ou subjetividades rememorativas sobre o
hospital São João de Deus busca-se
compreender que a linguagem tem a ver com
a exterioridade, não estando a idéia de todo implicada na idéia de completude.
Assim, se a linguagem não é um sistema monolítico, não é completa, não é
transparente, nem linear, nem inteira e nem precisa, toma-se "como incompletude
o fato de que o que caracteriza qualquer discurso é a multiplicidade de sentidos
possíveis" (ORLANDI, 2006:23).
Paul Thompson, em "A voz do passado" (1992), já havia detectado o valor
das fontes orais na história social moderna, uma vez que a oralidade proporciona
presença histórica e reconhecimento à visão de mundo de uma determinada
comunidade em seu cotidiano.
Por isso, para captar as vozes difusoras das representações sociais que
permeiam o imaginário dos habitantes e trabalhadores nas imediações do hospital,
o recurso à história oral para a realização de entrevistas com a comunidade de
Laranjeiras será essencial. Sob esse aspecto, a escolha do método para a
realização de entrevistas está se baseando em princípios que nortearão a relação
testemunha/entrevistador mesmo antes da coleta das fontes orais. Assim, a coleta
dos registros orais ocorre mediante os passos indicados por Chantal de
Tourtier-Bonazzi (2002), compreendendo a seleção das testemunhas, o lugar das
entrevistas, o roteiro das entrevistas e a transcrição do material gravado em
MP-4.
Os dados serão tratados qualitativamente (análise do discurso) e
quantitativamente (elaboração de tabelas e gráficos) que permitam visualizar com
mais objetividade as informações recolhidas entre o universo de entrevistados (a
saber: idosos moradores das proximidades do hospital, familiares remanescentes
dos Bragança, guias de turismo credenciados na cidade, professores e jovens,
perfazendo de 50 a 80 entrevistas).
A terceira etapa da pesquisa será realizada através de fontes materiais
configuradas nas ruínas do hospital. Serão, portanto, utilizados os estudos de
Andrés Zarankin (1999; 2002), sobre a Arqueologia da Arquitetura e as
interpretações de plantas baixas, bem como de Pedro Paulo Funari (1988), sobre
técnicas de utilização do espaço na pesquisa.
Através da ação sobre o espaço, o tempo e a destruição é que se originou a
Arqueologia Urbana, sendo utilizada na geração do conhecimento sobre a cultura
material e a preservação do Patrimônio Cultural da cidade de Laranjeiras (SE).
"La arqueología urbana nació como un área de investigación de caráter
interdisciplinario; entrar al pasado significa sumarle a la arqueología la
historia, poner los restos materiales junto com los documentos escritos y
gráficos, tres formas de registros diferentes, y usarlos juntos para interpretar
el pasado" (SCHÁVELZON, 2002 p. 203).[11]
Complementando esse cenário, com a Arqueologia da Arquitetura, as construções
passam a ser vistas como elementos ativos, produtos culturais que interatuam de
forma dinâmica com o homem (ZARANKIN, 1999, p.241), proporcionando uma nova
perspectiva de análise ao abordar aspectos relacionados à conformação do entorno
humano.
Ao pretender uma reflexão sobre as representações sociais dos grupos
locais num sentido cultural e histórico, através das ruínas do hospital,
busca-se decodificar as informações contidas na materialidade de forma
inteligível para o acesso da população ali circundante, empreendendo-se a
valorização social, a salvaguarda, e a inserção cidadã dos laranjeirenses na
apropriação de seu patrimônio.
Será fundamental ainda nesta pesquisa a utilização de fotografias do edifício
no passado e das ruínas no tempo presente, para um melhor entendimento da
materialidade do antigo hospital, empreendendo uma análise mais detalhada das
estruturas visíveis, uma vez que:
Uma paisagem cultural não pode ser vista como única, mas como múltipla, nela
coexistindo vários fragmentos de realidades temporais, revelando assim a relação
dos indivíduos com os valores dominantes (SILVA, 2000/2001, p.172)
Sendo assim, o trabalho metodológico com as imagens encontra um guiamento
técnico no trabalho de Kossoy (1989, p.24), que compreende a fotografia como
elemento de subsídio à pesquisa a partir do momento em que se dimensionam seu:
assunto; fotógrafo; tecnologia e coordenadas de espaço e tempo. Implementando
ainda uma leitura semiótica da imagem capaz de decodificar os signos presentes
na fotografia (FERRARA, 1988; MASCARO, 1994), uma vez que "é uma unidade de
manifestação auto-suficiente, um todo de significação um texto ou discurso,
então suscetível de análise" (CARDOSO; MAUAD, 1997).
Considerações Finais
O trabalho aqui proposto pretende cotejar a documentação de arquivo,
publicações de memorialistas e periódicos locais ainda pouco explorados em
Sergipe, buscando inserir a narrativa sobre o hospital São João de Deus na seara
de uma historiografia sergipana atenta
às práticas discursivas
sobre a cultura material local.
Lloyd S. Kramer (1992, p.131-132) ressalta que o traço distintivo da nova
abordagem cultural da história reside no reconhecimento, por parte dos
historiadores, do "papel ativo da linguagem, dos textos e das estruturas
narrativas na criação e descrição da realidade histórica".
A História,
ao estudar os processos relacionados à memória de uma
edificação, contribui para a identificação,
valorização e preservação do patrimônio cultural material (JORGE, 2000). E com a
produção de informações sobre o hospital, pretende-se um melhor entendimento de
sua significação social em Laranjeiras a partir do século XIX até a
contemporaneidade, imbuída em discursos textuais oficiais e orais
extra-oficiais.
Sua existência nos momentos críticos de epidemias de cólera "morbus"
e varíola na cidade e as ações governamentais em torno de providências a
respeito da saúde pública em Sergipe aparecem transcritas tanto nos Relatórios
de Presidente de Província (1835
- 1918) como nos Diários Oficiais (1909;
1934) enquanto fontes ainda pouco relacionadas ao
prédio do hospital.
Entre as publicações dedicadas à História de Laranjeiras (Cf.
NUNES; SANTOS, 2009, p.155-207),
ainda não existem trabalhos acadêmicos de profundidade no campo da História que
tratem o hospital como objeto específico de pesquisa em monografias,
dissertações ou teses, embora dados do Instituto do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional (IPHAN) e da Prefeitura Municipal de Laranjeiras apontem essa
construção do século XIX como uma das mais importantes da região do Contiguiba
(MAPA HISTÓRICO-CULTURAL DE LARANJEIRAS, 2011).
Por isso,
a pesquisa proposta revela originalidade e potencial para obtenção de respostas
às lacunas que ainda persistem na historiografia sergipana sobre Laranjeiras.
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THOMPSON, Paul. A voz do passado: história oral. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1992.
TOURTIER-BONAZZI, Chantal de. Arquivos: Propostas metodológicas. In: FERREIRA,
Marieta de Moraes; AMADO, Janaína (Orgs.). Usos e abusos da história oral.
Rio de Janeiro: FGV, 2002. p.233-245.
ZARANKIN, Andres . Casa tomada; Sistema, poder y vivienda domestica. In: Andres
Zarankin; Felix. A. Acuto. (Org.). Sed non Satiata; Teoria Social en la
Arqueologia Latinoamericana Contemporanea. 1 ed. Buenos Aires: Del tridente,
1999, v. 1, p. 239-272.
____. Paredes que domesticam: Arqueologia da Arquitetura Escolar
Capitalista. O caso de Buenos Aires. Campinas: CHAA-IFICH - UNICAMP/FAPESP,
2002.
[1]
Graduada em História (UNITI); Graduanda em Museologia pela Universidade
Federal de Sergipe (UFS); bolsista PIBIC-CNPq (2011-2012) sob a
orientação da Profa. Dra. Janaina Cardoso de Mello, recém-aprovada nos
Mestrados em História (UFS e UFAL)
e membro do Grupo de
Estudos e Pesquisas em Memória e Patrimônio Sergipano GEMPS/CNPq.
E-mail: danielleoliveiracavalcante@hotmail.com
[2]
Virgulino Ferreira da Silva esteve envolvido no movimento conhecido como
cangaço nos sertões do Nordeste. Destacou-se como uma grande liderança
nos enfrentamentos a fazendeiros, políticos e coronéis da época.
Foi morto pela
volante no dia 27 de julho de 1938, na fazenda Angicos, situada no
sertão de Sergipe, esconderijo tido por Lampião como o de maior
segurança.
[3] É
uma figuraheráldicamuito
associada àmonarquiafrancesa,
particularmente ligada com orei
da França. Ressaltando a importância de quem
residia na habitação cujo muro era ornamentado por tal simbologia.http://pt.wikipedia.org/wiki/Flor-de-lis
(Acesso em: 14/05/2012)
[4]
O caduceu
ou bordão de Esculápio ou Asclépio é um símbolo antigo, relacionado com
a astrologia e com a cura dos doentes através da Medicina. Consiste de
um bastão envolvido por uma serpente.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Bord%C3%A3o_de_Escul%C3%A1pio (Acesso em:
16/05/2012)
[5] A
Arqueologia Histórica realiza estudos que ultrapassam a simples coleta
de objetos, promovendo interpretações a respeito do fazer e do viver de
uma sociedade. Através do estudo da cultura material, podemos entender a
estrutura espiritual da sociedade e, a partir da exploração material,
compreender a estrutura e as suas relações de poder. Sua cronologia
compreende os estudos a partir de 1500 até a contemporaneidade. Cf.
ORSER JR, 1992.
[6]
Através da Arqueologia da Arquitetura, os componentes simbólicos e
ideológicos que determinam a morfologia e a estrutura do seu espaço
podem ser analisados, incluindo vários aspectos de sua funcionalidade.
Cf. ZARANKIN, 2002.
[7]
Os estudos referentes ao espaço e a paisagem na Arqueologia se
desenvolveram com base na Geografia, nos anos de 1930. A cultura
material passa a caracterizar as formas de intervenção humana no espaço
transformado em lugar. Assim, o espaço como um todo só passa a ter
significado após sofrer a intervenção, a atuação e a vivência humana
quando transformado em lugar. Também o espaço é percebido como uma área
que possui pouco significado para quem a observa, já o lugar são áreas
que possuem significados e memórias. A Arqueologia da paisagem
preocupa-se em analisar essas intervenções na cultura material, bem como
as memórias e representações advindas destas (THOMAS, 2001; PAULS,
2006).
[8]
Projeto recém-aprovado nas seleções para 2012-2 dos Mestrados em
História da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e da Universidade
Federal de Alagoas (UFAL).
[9] Na
trilha das ruínas: olhares sobre a Arqueologia Social na cidade de
Laranjeiras (Tradução Livre).
[10] No
que diz respeito à noção de um
texto como produto de
outro texto, nascendo de/em outros textos e assim pautando-se no diálogo
entre os textos elencados como fontes.
[11] A
arqueologia urbana nasceu como uma área de investigação de caráter
interdisciplinar; entrar no passado significa somar-se a arqueologia a
história, por os vestígios materiais junto com os documentos escritos e
imagéticos, três formas de registros diferentes e usá-los juntos para
interpretar o passado (Tradução Livre).