Sobre a autora[1]
A inspiração deste texto vem de algumas reflexões intermitentes em minha vida
profissional no último ano, somadas a uma experiência particular com o Programa
Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid) do curso de História da
Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), ao qual estou vinculada. No ofício
de historiadora, no entanto, sempre estive ligada a questões relativas ao ensino
(metodologias, relação professor/aluno, formação do professor etc.) e ao
patrimônio (as relações de força que o consagram ou o destroem, que lhe concedem
memória ou esquecimento). Tudo isso junto me levou a pensar de maneira mais
articulada e comprometida sobre a Educação Patrimonial.
A expressão não é nova, todavia ainda pouco conhecida e, tampouco, praticada. Na
década de 1980, mais precisamente em 1983, a proposta de Educação Patrimonial
foi discutida num primeiro seminário no Museu Imperial do Rio de Janeiro, em
Petrópolis, com inspiração no trabalho pedagógico de Heritage Education
desenvolvido na Inglaterra e com o qual Maria de Lourdes Parreiras Horta havia
tido contato. Naquele momento, a noção de patrimônio com a qual se trabalhava
era a de material, e desde a criação do Instituto do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional (IPHAN), na década de 1930, estava em trânsito a preservação
dos chamados patrimônios de pedra e cal erguidos na forma das grandes obras
arquitetônicas que no Brasil representavam os poderes (da Igreja Católica, dos
senhores de engenho ou das fazendas de café, além das Casas de Câmara e da
Moeda, por exemplo). Essa nova noção de patrimônio partia dos objetos:
utensílios, vestígios materiais que falam de como as pessoas se socializavam e
viviam.
Vale lembrar que, na década de 1980, o Brasil tinha na pedagogia uma grande
referência: Paulo Freire. O método revolucionário que alfabetizava centenas de
pessoas em pouco tempo, partindo de palavras geradoras retiradas do cotidiano
das pessoas, também inspirou Horta. Todavia, mesmo produzindo outros trabalhos,
o que ganhou amplitude e alcance foi o publicado em 1999, cuja proposta era ser
uma referência metodológica para quem quisesse trabalhar com Educação
Patrimonial. Neste que se materializou em um Guia Básico, ela define:
A Educação Patrimonial é um instrumento de alfabetização cultural que
possibilita ao indivíduo fazer a leitura do mundo que o rodeia, levando-o à
compreensão do universo sociocultural e da trajetória histórico-temporal em que
está inserido. Este processo leva ao reforço da autoestima dos indivíduos
e comunidades e à valorização da cultura brasileira, compreendida como
múltipla e plural (HORTA et al., 1999, p. 6).
Nota-se que os grifos em negrito das autoras remetem a uma pedagogia voltada
para os indivíduos e a sua sensibilização. A metodologia deste bê-á-bá da
Educação Patrimonial colocava no centro do trabalho os objetos peças-chaves.
Baseava-se num processo que deveria compreender quatro etapas: observação,
registro, exploração e apropriação. A observação, com o objetivo de identificar
o objeto, sua função e significado, e também desenvolver a percepção visual e
simbólica. O registro, devendo servir para fixar o conhecimento percebido,
desenvolver a memória e o pensamento lógico-operacional. Na etapa de exploração
seria desenvolvida a capacidade de análise, de julgamento e de interpretação.
Por último, a apropriação consistiria no envolvimento afetivo, na autoexpressão
e na valorização do bem cultural. Nesse processo, apreendia-se um repertório da
Educação Patrimonial a partir do entendimento de inventário, de salvaguarda, de
tombamento, preservação e restauração.
O Guia traz várias sugestões e exemplos de atividades realizadas em diferentes
lugares: centros históricos, sítios arqueológicos, museus, fazenda e escola.
Enfim, tornou-se um material didático de referência para os que se embrenharam
nas sendas da Educação Patrimonial. A obra que serviu de modelo e inspiração
para muitas práticas e outras escrituras abriu também outros caminhos. A
proposta metodológica partiu dos museus para as escolas. O desafio que ora
apresento é fazer o caminho inverso: da escola para os museus, ou para os
espaços museais lugares de memória.
A definição de lugares de memória[2],
tributada a Pierre Nora, foi amplamente discutida no Brasil após a publicação do
artigo Entre memória e história: a problemática dos
lugares pela revista Projeto História, do Programa de
Pós-graduação em História da PUC-SP, em dezembro de 1993. Desde então, esse
trabalho tornou-se referência para se pensarem os trabalhos com a memória e por
que a celebramos em lugares. Afinal:
Se habitássemos ainda nossa memória, não teríamos necessidade de lhe consagrar
lugares. Não haveria lugares porque não haveria memória transportada pela
história. Cada gesto, até o mais cotidiano, seria vivido como uma repetição
religiosa daquilo que sempre se fez, numa identificação carnal do ato e do
sentido. Desde que haja rastro, distância, mediação, não estamos mais dentro da
memória, mas dentro da história (NORA, 1993, p. 8-9).
Numa perspectiva diferente da discutida pelos franceses da Nova História dos
Annales, Andreas Huyssen, em seus ensaios de literatura comparada produzidos
na década de 1990 e traduzidos e publicados em livro no Brasil em 2000, defende
que os discursos sobre memória na Europa, na década de 1980, foram impulsionados
pelo debate sobre as efemérides alemãs: Holocausto, história do Terceiro
Reich, a queda do Muro de Berlim e a consequente unificação da Alemanha. Ele
destaca o papel das mídias no processo de construção de memórias e reverbera:
[...] não é mais possível, por exemplo, pensar no Holocausto ou num outro trauma
histórico como uma questão ética e política séria, sem levar em conta os
múltiplos modos em que ele está agora ligado à mercadorização e à
espetacularização em filmes, museus, docudramas, sites na Internet, livros de
fotografia, histórias em quadrinhos, ficção e até contos de fada (La vita è
bela, de Benigni) e música popular (HUYSSEN, 2000, p. 21).
Huyssen destaca que os anos 1980 criou uma obsessão pela memória e,
paradoxalmente, a necessidade de memória se ligou ao ritmo acelerado do
esquecimento. Ao finalizar um capítulo sobre os monumentos e a memória do
Holocausto, ele alerta: O futuro não nos julgará pelo esquecimento, e sim pela
rememoração ampla de tudo, e ainda por não agirmos de acordo com essas memórias
(HUYSSEN, 2000, p. 86).
Essa sedução[3]
monumental levou a Alemanha a eventos como o do embrulhamento do Reichstag
(sede do Parlamento desde a República de Weimar, iniciada em 1918, e que fora
incendiada em 1933 e bombardeada em 1945), em Berlim, na expressão artística de
Cristo e Jeanne-Claude, em 1995. Esconder obra tão grande consistia no sentido
oposto de fazer ver a importância de valorizá-la. As obras de restauração do
Reichstag foram a cabo, então, em 1999.
As nações se fortalecem nos sentidos que constroem e sacralizam-se no
investimento de construção de suas memórias, e sobre esse ponto concordam Nora e
Huyssen. Nora (1993, p. 14) ainda diz: Não se celebra mais a nação, mas se
estudam suas celebrações. A rememoração dá forma às nossas ligações com o
passado. Nesse movimento, pois, vivemos um intenso revigoramento dos museus. O
museu possibilita um contato direto com o objeto que o livro não proporciona.
Por isso esse investimento a partir dos processos de revitalização de museus
trazia a proposta pedagógica de aproximar mais os alunos desses espaços de
memória e de instruí-los em noções patrimoniais e de pertencimento cultural.
Francisco Regis Ramos (2010), ao contar o episódio do roubo da perna da estátua
do Capistrano de Abreu na praça de Fortaleza, em 2003, lembra que é preciso
considerar as noções de tempo o cronológico e o presente. Quem rememora e
materializa na forma de escultura o faz na noção do tempo duradouro, enquanto
quem furta parte dessa memória materializada está na dinâmica do tempo imediato,
da sua necessidade do momento. Ramos alerta que os monumentos estão sempre
sujeitos às ações do tempo. É preciso, pois, fazer-lhes sempre novas perguntas.
Caberia duvidar não só dos monumentos autoritários, mas da própria ação de dar a
algo, a qualquer coisa, o sentido de materialidade memorável.
Ramos sugere que não se desloque o museu da sala de aula. E ainda: A visita ao
museu deve começar na sala de aula, com atividades lúdicas que utilizam
materiais do cotidiano, como indícios de práticas que se fazem nas relações
sociais (RAMOS, 2004, p. 21). Esse entendimento levou à ação do módulo chamado
Patrimônio nos primeiros meses letivos deste ano de 2012, como atividade do
Pibid-História da Universidade Federal de Mato Grosso, campus de Cuiabá[4].
Mergulhados na leitura desses autores apresentados e dos debates que eles
suscitaram, elaboramos uma proposta que foi por mim coordenada e executada na
liderança da bolsista Nayara Bianca Serra Varella e coparticipação do professor
regente Marciano Max Rodrigues Vieira da escola parceira do projeto. Montamos um
cronograma de atividades que se efetivariam no prazo aproximado de dois meses.
Os trabalhos direcionados à prática docente no ambiente escolar tiveram início
no dia 6 de março, e a partir de então haveria sempre duas aulas (2 h/a)
quinzenalmente na turma do 1º F[5].
Os objetivos das duas primeiras aulas eram: refletir sobre memória através de
objetos levados pelos alunos (na semana anterior havia sido solicitado que cada
aluno levasse um objeto sobre o qual pudesse explicar por que o guardava e a que
memória remontava); diagnosticar o conhecimento desses alunos sobre lugares de
memória através de imagens de alguns prédios e monumentos da cidade de Cuiabá;
encerrar com algumas noções de patrimônio.
Desde o início estava prevista, como término das atividades, uma visita guiada
pelo Centro Histórico de Cuiabá, cujo roteiro estava alinhavado e foi sendo
amadurecido no decorrer dos trabalhos. Entendíamos que o processo de
sensibilização para o patrimônio urbano precisaria ser construído passo a passo.
Nosso trabalho esteve pautado na perspectiva da noção de patrimônio material,
cuja referência historiográfica foi muito discutida, especialmente a partir da
obra de Françoise Choay. Concordamos com a historiadora quando diz: [...] a
arquitetura é a única arte cujas obras exigem ser materialmente percorridas. Só
ela exige visitas, percursos, desvios que implicam o investimento do corpo
inteiro e que a percepção visual apenas não pode substituir (CHOAY, 2006, p.
201). Mesmo existindo atualmente recursos midiáticos que reproduzem até mesmo
cidades inteiras, talvez a visita in loco, só ela, possa dar uma dimensão
interpretativa pessoal do estar lá. A visita permite colocar os alunos em
contato direto com a obra, articular seus saberes, escapando também do uso
frequente e repetitivo do livro didático.
O livro didático, no entanto, auxiliou na escolha textual para uma leitura sobre
a cidade. As duas aulas do dia 20 de março tinham como objetivos: identificar
através de imagens parciais de bens patrimoniais (arquitetônicos) se os alunos
reconheciam onde as imagens se localizavam, o que eram. Depois, por intermédio
do texto didático de Elce Cavalcante (2006) sobre o Estado Novo, foram
analisados os elementos que falam da cidade as mudanças ocorridas no espaço
urbano, a exemplo da construção do teatro, o Grande Hotel (que atualmente abriga
a Secretaria Estadual de Cultura), o Liceu Cuiabano, o prédio onde hoje funciona
o Arquivo Público do Estado. Todas são obras da época do Estado Novo, do governo
de Júlio Müller, cujo conjunto é tombado pelo Estado e encontra-se numa das ruas
principais da cidade, não à toa nomeada de Getúlio Vargas. Parte dessas aulas se
fundamentou também na obra de Leila Lacerda (2008).
As duas aulas do dia 10 de abril tiveram como objetivos: refletir e debater
sobre memória e patrimônio da cidade através de estudo dirigido de texto sobre a
Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito (CONTE & FREIRE, 2005, p.
32-33). Ao tratar da igreja que remonta ao período do bandeirantismo, primeira
metade do século XVIII, fala-se também das origens do povoado que se formou com
o garimpo. De lá seria possível entender o desenho que a cidade foi construindo,
a maneira de erigir igreja e a própria cultura.
Nesse dia explicou-se também qual seria o roteiro da visita guiada e os
critérios da escolha realizada.
Chegado o dia 24 de abril, enfim, era o dia de sair da escola rumo ao Centro
Histórico de Cuiabá. O passeio durou toda a tarde (saída da E. E. Raimundo
Pinheiro às 13h30 e retorno às 17h30). O roteiro ficou assim definido: Praça dos
Bandeirantes, Igreja do Rosário, Museu da Imagem e do Som de Cuiabá (MISC),
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), Museu Histórico
de Mato Grosso e Museu de Arte Sacra e Igreja de Nossa Senhora do Bom Despacho.
O monumento da Praça dos Bandeirantes fica na Avenida Coronel Escolástico. Um
marco representativo da localização do antigo sítio do bandeirante Miguel Sutil
de Oliveira, que teria originado a Vila Real de Bom Jesus. A escultura de
Sebastião Frederico Teixeira foi inaugurada em 1969, por ocasião dos 250 anos da
cidade, e fora concebida como a representação dos elementos formadores (LEITE,
1994, p. 17) da cuiabania: o bandeirante, o garimpeiro e o índio. O monumento
traz consigo uma concepção de história que cria e enaltece heróis (brancos e
homens), e também estabelece hierarquias ao colocar num patamar superior o
bandeirante. Foram levantadas algumas questões para que os alunos pensassem a
respeito de que história se queria contar através do monumento e o contexto da
época. A surpresa nossa veio das respostas dos alunos. A maioria nem sequer
havia se dado conta de que ali existia um monumento, tampouco havia pensado
sobre os seus significados. Uma aluna relatou pensar que era em homenagem a um
fazendeiro. A menção a um proprietário de terra, na perspectiva temporal da
aluna, é pois do fazendeiro, não mais do bandeirante. O que nos remete a
refletir com Francisco Régis Ramos (2010) sobre as dimensões temporais que os
monumentos atravessam.
No segundo ponto do roteiro, a Igreja do Rosário, queríamos que os alunos
reconhecessem os processos estudados, com o auxílio do texto de Conte & Freire
(2005) em sala de aula, sobre a restauração pós-tombamento em 1975 que devolveu
à igreja seu estilo original do século XVIII, pois ela passara por uma reforma
neogótica da década de 1920. Como a igreja estava fechada, nos ativemos à
observação da sua estrutura arquitetônica, dos materiais usados na construção e
da posição estratégica, no desenho da cidade, que ela ocupa. Os alunos, por sua
parte, tinham seus relatos pessoais e familiares para contar: muitos diziam que
os avós casaram ali, outros que a frequentavam quando crianças por ocasião das
missas e festividades. Vale ressaltar que a Festa de São Benedito é uma das
maiores e mais importantes do calendário religioso da cidade.
No MISC (Museu da Imagem e do Som de Cuiabá), foram observadas também as
características arquitetônicas presentes nas antigas casas coloniais cuiabanas
que ainda sobrevivem, a exemplo também da casa que abriga o IPHAN. O MISC é um
sobrado colonial, com varandas interiores de madeira, paredes espessas que
protegiam do calor e um quintal interno onde, normalmente, existiam árvores
frutíferas da região. Lá eles tiveram contato com várias fotografias expostas
pelos corredores, parte do acervo de fotos de Lázaro Papazian[6].
Numa das salas havia uma exposição de fotos sobre o Marechal Rondon. Foi um
importante momento de interação com o professor Max, que os fez pensar sobre as
características físicas de Rondon, que lembravam suas origens étnicas indígenas.
Os alunos, todavia, questionaram: É verdade que ele escravizava índios? A
exposição não mostrava esse caráter de Rondon, então eles puderam perceber que
um mesmo personagem pode ser compreendido de diferentes maneiras. Parte da nossa
estada ali foi ocupada com a exibição de um filme da Cuiabá antiga (uns 30
minutos de duração), depois uma funcionária da instituição fez comentários sobre
o vídeo e a casa. Quando foi aberto o debate, percebemos que muitos se
impressionaram ao ver que em Cuiabá existia uma linha de bonde, alguns alunos
comentaram que hoje poderia ser ainda assim. As opiniões se dividiram também
sobre o que viram relacionado à demolição da Igreja Matriz, em 1968. Alguns
diziam preferir a igreja antiga, outros já optavam pela atual matriz, pois
segundo eles é mais bonita e moderna. O fascínio da modernidade estava naquele
momento do fato e ainda hoje está presente.
No IPHAN fomos recebidos pela arquiteta Maria Elisa. Depois de aproveitarem a
degustação de carambolas direto do pé no quintal da casa, os alunos sentaram-se
todos para ouvir as explanações dela sobre o que representa o IPHAN, quais os
trabalhos que realiza, além de explicação sobre o desenho da cidade colonial
reproduzido na parede da sala principal. Foi um momento de reconhecimento, de
perceber quanto a cidade mudou desde o século XVIII.
Depois seguimos a pé até o Museu Histórico. Um percurso de cerca de meio
quilômetro. Oportunidade de observar as ruas estreitas, os casarios geminados
com suas características. E iam reconhecendo: Este aqui também tem ladrilho
hidráulico, Olha a caixa para receber pão e leite embutida na parede da casa!
Essas e muitas outras observações estavam sendo feitas pela primeira vez, embora
as ruas e as casas não fossem desconhecidas deles.
No Museu Histórico permanecemos por pouco tempo. As pessoas que acompanham a
visita lá pareciam reproduzir o óbvio, aquilo que já estava escrito nos objetos,
sem muita novidade. Nesse museu as temáticas seguem uma história cronológica
sucedida por períodos políticos e governos. Uma história contada praticamente no
masculino que reverbera a expressão de uma produção de livros didáticos de
História de Mato Grosso, sobretudo, até os anos 1980[7].
A última parte do roteiro foram a Igreja do Bom Despacho e o anexo onde se situa
o Museu de Arte Sacra. A grande maioria dos alunos nunca havia visitado a
igreja. Quando questionados sobre o que achavam que era a construção, muitos
contavam que os pais haviam dito que aquele local tinha sido um castelo e,
debaixo dele, havia muito ouro, passagens secretas. Um imaginário
descortinava-se na fala dos alunos. O mistério e o encantamento exercem
importantes forças que movem a curiosidade e a vontade de saber.
Diante dessa experiência percebemos como é fundamental trabalhar a Educação
Patrimonial nas escolas. É uma maneira de educar e sensibilizar para o
Patrimônio Cultural. As ressignificações dos espaços são imprescindíveis nesse
processo ensino-aprendizagem. Oportunizam-se, assim, momentos de construção e
desconstrução de saberes. Um momento engraçado foi quando, ao nos organizarmos
para entrar no ônibus que nos levaria ao Centro Histórico, uma aluna disse estar
levando até biquíni. Então perguntamos para quê, se não íamos à praia nem
tampouco a uma piscina. Ela, então, lembrou que havíamos aventado a
possibilidade de visitar o Museu da Caixa dÁgua Velha e, na sua imaginação, um
reservatório de água poderia servir de local para banho. Certa! Nós é que fomos
surpreendidos com tamanha criatividade e capacidade imaginativa.
Para assumir seu caráter educativo, o museu ou uma casa antiga, como lugar de
memória, não é só espaço de exposição de objetos, mas de formação de uma
consciência histórica, na definição de Jörn Rüsen (2001), cujo efeito
encontra-se na narrativa resultado intelectual. Torna-se imperativo
desenvolver programas com o intuito de sensibilizar alunos e visitantes para uma
maior interação com esses espaços, pois de certa maneira eles precisam sentir
que quando algo é consagrado patrimônio, é porque é parte deles mesmos.
Essa experiência surtiu um efeito positivo na escola. Tanto que tivemos de
reorganizar as oficinas para que pudessem ser realizadas com as outras turmas do
primeiro ano do Ensino Médio. Foi uma reivindicação das turmas e da própria
direção da escola. Uma mesma proposta, realizada com outros bolsistas à frente,
com outras turmas, resultou em novos produtos. Todavia, nada diminuiu a certeza
da importância de trabalhos como esse, que retiram os alunos da sala de aula e
do espaço escolar. A Educação Patrimonial é, sobretudo, um aprendizado in
loco. Os entraves são muitos e muitas são as dificuldades de administrar uma
logística que envolve ônibus[8],
contatos nos lugares, uniformes, alimentação e horários. Mas tudo valeu a pena,
e os resultados certamente influenciarão novas experiências, cujos
desdobramentos veremos na escola e na vida das pessoas e da cidade.

Parte do grupo no último ponto do roteiro da visita guiada Igreja do Bom
Despacho (24/4/2012)
Referências
CAVALCANTE, Else. História de Mato Grosso: para concurso e exames
vestibulares. Cuiabá: Carlini & Caniato, 2006.
CHOAY, Françoise. A alegoria do patrimônio. Lisboa: Edições 70, 2006.
CONTE, Claudio Quoos; FREIRE, Marcus Vinícius de Lamonica (orgs.). Centro
Histórico de Cuiabá: patrimônio do Brasil. Cuiabá: Entrelinhas, 2005.
HORTA, Maria de Lourdes Parreiras. Guia Básico de Educação Patrimonial.
Brasília: IPHAN/Museu Imperial, 1999.
HUYSSEN, Andreas. Seduzidos pela memória: arquitetura, monumentos, mídia.
2. ed. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2000.
LACERDA, Leila Borges de. Patrimônio histórico-cultural de Mato Grosso:
bens edificados tombados pelo Estado e União. Cuiabá: Entrelinhas, 2008.
LEITE, Luis Philippe Pereira. Monumentos de Mato Grosso. Cuiabá: Fundação
Júlio Campos, 1994.
MENDONÇA, Estevão de. Quadro chorographico de Mato Grosso. Cuiabá:
Escolas Profissionaes Salesianas, 1906.
MENDONÇA, Rubens de. História de Mato Grosso. Cuiabá, 1979.
NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. In:
Projeto História, Revista do Programa de Pós-graduação em História da
PUC-SP, n. 10, São Paulo, dez. 1993.
PÓVOAS, Lenine. História de Mato Grosso. Cuiabá:
Academia Mato-grossense de Letras,
1985.
RAMOS, Francisco Régis Lopes. A danação do objeto. O museu no ensino de
história. Chapecó: Argos/CEOM, 2004.
______. Uma questão de tempo: os usos da memória nas aulas de História.
Cadernos Cedes, v. 30, n. 82, Campinas, set./dez, 2010.
RÜSEN, Jörn. Razão histórica. Teoria da história: os fundamentos da
ciência histórica. Brasília: UnB, 2001.
[1]
Professora do Departamento e Programa de Pós-graduação em História/UFMT.
[2] O
conceito histórico foi colocado em evidência no projeto Les lieux de
mémoire, coordenado por Pierre Norra entre 1984 e 1993, que resultou
em três tomos (La République, La Nation e Les France).
[3]
Seduzir vem da palavra latina seducere. Sed significa separar,
afastar, privar, e ducere, levar, guiar, atrair. Portanto, o
processo de sedução é de fazer cair em erro.
[4]
O subprojeto Pibid-História-UFMT iniciou suas atividades no segundo
semestre de 2011, sob a coordenação da Profª Claudia Bovo e
coparticipação da Profª Ana Maria Marques e do Prof. Renilson Rosa
Ribeiro. Este último exerce atualmente a função de coordenador devido ao
desligamento da anterior coordenação por licenciamento. Esse subprojeto
conta com a participação, além dos professores citados, de um professor
da escola estadual de Ensino Médio conveniada Raimundo Pinheiro da Silva
(Av. Fernando Correa, 3610, Coxipó
Cuiabá MT) e de mais cinco bolsistas graduandos de História.
[5] A
escolha dessa turma se deveu ao caráter experimental da proposta.
Considerando que havia mais outras quatro turmas de 1º ano de Ensino
Médio naquele turno vespertino, adotamos um critério espacial apenas:
ficava essa turma afastada das outras e próxima ao portão de saída, de
maneira que toda movimentação que pudesse acontecer ali não chamaria a
atenção das demais.
[6]
Lázaro Papazian
foi o precursor do fotojornalismo em Cuiabá. Ao longo do século XX,
durante 60 anos fotografou momentos importantes e eventos ocorridos na
capital mato-grossense. Site consultado: <http://www.24horasnews.com.br/index.php?mat=48082>.
Acesso em: 22 jun. 2012.
[7]
Destacam-se os autores: Estevão de Mendonça (1906), Rubens de Mendonça
(1979) e Lenine Campos Póvoas (1985).
[8]
Aproveito para agradecer à PROEG, que através dos pedidos encaminhados
pela coordenação do Pibid-História, intercedeu como facilitadora no
agendamento e concessão dos ônibus disponibilizados em 24 de abril e,
depois, nos dias 26, 28 e 29 de junho de 2012. Sem essa colaboração as
visitas não seriam possíveis.