ISSN 1807-1783                atualizado em 28 de janeiro de 2013   


Editorial

Expediente

De Historiadores

Dos Alunos

Arqueologia

Perspectivas

Professores

Entrevistas

Reportagens

Artigos

Resenhas

Envio de Artigos

Eventos

Curtas


Nossos Links



Destaques
Fale Conosco
Cadastro
Newsletter


História Social e Econômica da Casa Marabá: Reconstruindo o Cotidiano de um Barracão na Amazônia Oriental entre 1898 e 1906

por Heraldo Elias Montarroyos

Sobre o autor [1]

Introdução

Na a Amazônia, o barracão apresentava algumas características geográficas e sociais marcantes. Fundamentalmente, ficava localizado no meio da mata e nessa posição estratégica comprava as bolas ou pranchas de borracha defumadas, onde o responsável do estabelecimento tomava nota do total do produto recebido e depois entregava ao extrativista um crédito que o autorizava a consumir mercadorias indispensáveis, dentre elas: carne-seca; farinha; querosene; sabão; bolachas; facão; lamparinas; e redes para dormir e pescar.

Nesse tipo de relação socioeconômica, o barracão centralizava o rendimento local do extrativismo da borracha por meio do aviamento; ou seja, vendia a prazo os gêneros de primeira necessidade que deveriam ser pagos com o resultado da produção extrativista.

No barracão o trabalhador assumia um grande negócio de risco: ele conseguia alimentos e apetrechos indispensáveis (tigelinhas, facões, armas, munições, remédio), ao mesmo tempo, celebrava na informalidade jurídica a obrigação de comercializar a produção gomífera exclusivamente com o aviador que, de fato, o ajudava operacionalmente a entrar na floresta, mas dificilmente o deixava sair de graça da dependência financeira.

Os barracões tiveram presença marcante na história social de Marabá, sudeste do estado do Pará. Em 1905, por exemplo, veio da cidade de Grajaú o latifundiário Martim Mota da Silveira, juntamente com dois irmãos e mais 30 caucheiros, equipados com canoas e utensílios diversos, que subiram o rio Itacaiunas onde fundaram um barracão próximo da cachoeira de nome e Goiabeira. Também o jovem Anastácio de Queiroz (futuro prefeito da cidade de Marabá em 1917), natural da cidade de Carolina, no Maranhão, participou da fundação de um barracão, em 1905, de propriedade do coronel Messias José de Sousa, no lugar conhecido como Guindangues, localizado bem na foz do rio Itacaiunas. Nessa mesma época, Raimundo Maravilha (sogro de Antônio Maia, futuro prefeito de Marabá em 1913) fundou outro barracão no lugar conhecido como Seco Grande.

2 A descoberta do caucho

A leitura sistemática do livro escrito pela sertanista Carlota Carvalho “O sertão” (original de 1924) traz uma série de informações históricas que fazem parte de um capítulo dedicado, especialmente, à geografia e à história de Marabá.

De acordo com o que informa a autora desse livro, a descoberta do caucho na grande área em volta do Burgo de Itacaiunas aconteceu em 1895. Nesse ano, chegaram ao Burgo dois irmãos vindos do Maranhão - Hermínio e Antônio Pimentel - trazendo a boiada para vendê-la nessa região onde o comércio era bastante promissor. .

Os dois irmãos estacionaram a sua boiada na redondeza do Burgo de Itacaiunas e logo ficaram sabendo que os colonos tinham preocupação em encontrar campos naturais para fazer a criação de gados “vacum” e “cavalar”.

Naquele momento, presumiam os colonos do Burgo, influenciados por algumas breves andanças na região, que a floresta não era maciça e provavelmente existiriam campos naturais entre as áreas dos rios Tocantins e Xingu.

Interessados por esse tipo de conversa, os dois irmãos, que tinham espírito empreendedor, prontificaram-se a pesquisar o assunto na região e no mês de outubro de 1895, de acordo com o que informa o livro da sertanista Carlota Carvalho, partiram juntos com uma equipe de oito homens para o interior da floresta, na direção oeste, onde ficaram mais de duas semanas viajando fora do Burgo.

Nesse breve período, os colonos “viram castanhais vastíssimos, palmeiras soberbas e por toda parte uma árvore grande, mole, de casca amarelenta, na qual o mais pequeno ferimento derramava muito leite, que coalhava espontaneamente, poucas horas depois”.

Acabando o sal e a farinha, infelizmente os colonos foram obrigados a retornar ao Burgo depois de vários dias embrenhados na floresta sem nenhuma informação concreta a respeito dos campos naturais que deveriam servir à pecuária extensiva. Entretanto, incentivados pelo coronel Carlos Gomes Leitão, que forneceu por conta do Burgo tudo que precisavam, os irmãos Pimentel realizaram outra expedição contando com a participação de Anselmo Germano, primo do coronel Carlos Gomes. .

Nessa nova equipe de desbravadores que contabilizou mais de 10 integrantes foi carregada estrategicamente maior quantidade de farinha e de sal que serviriam para garantir o paladar da comida a ser feita improvisadamente no meio do mato durante a expedição.

Na caminhada pela floresta, o maranhense Antônio Pimentel subia no alto da copa das árvores para informar a direção que os outros deveriam seguir. Desempenhando a função de guia, Antônio Pimentel fez o grupo caminhar na direção oeste onde acabaram localizando uma serra mais alta a partir do que puderam avistar a presença dos campos naturais. À noite, enquanto dormia, Antônio Pimentel “sonhou vendo uma oca (casa) de selvagem à beira de um riacho cristalino, que regava campos tão bonitos como os do Riachão a Carolina, no sertão do Maranhão”.

Nos dias seguintes, os colonos continuaram a expedição e acabaram encontrando uma estrada dentro da mata que os conduziu exatamente a um riacho onde, na beira, tinha uma oca do mesmo jeito que havia sonhado Antônio Pimentel. Ao redor desse local, os desbravadores identificaram, inclusive, a presença de nuvens de fumaça, sugerindo a existência de áreas abertas no meio da floresta.

Retornando ao Burgo depois de vários dias de caminhada, os colonos trouxeram “maços do verdadeiro capim agreste” e uma série de notas escritas sobre o relevo, a fauna, a flora e a população dos lugares onde se aventuraram. O material descritivo dessa viagem foi organizado pelos próprios irmãos Pimentel que tinham boa formação escolar.

Além das informações inéditas sobre a região, os colonos coletaram uma pequena amostra do látex da árvore então desconhecida, que foi remetida pelo diretor do Burgo a um laboratório de Belém para análise técnica.a.

Devido à importância desse manuscrito que relatou a descoberta dos campos naturais, cogitou-se no Congresso paraense a possibilidade de sua publicação oficial, porém, como foi escrito por pessoas do povo e de baixa escolaridade, preferiu o governador positivista Lauro Sodré enviar uma expedição científica ao rio Tocantins contratando o renomado pesquisador francês Henri Coudreau com sua esposa, Otille, o que resultou, em seguida, na publicação do primeiro livro técnico sobre o rio Itacaiunas. .

Continuando a reproduzir o que descreve o livro da sertanista Carlota Carvalho, ficamos sabendo que os irmãos “Pimentéis” ainda estavam vivos no ano de 1923, porém, se encontravam em estado de pobreza, morando abandonados na vila Vicente do Araguaia, naquele tempo, norte do estado de Goiás.

A repercussão da descoberta dos campos naturais no sudeste do estado do Pará foi enorme, segundo afirmou a sertanista Carlota Carvalho, porque eles eram “iguais aos campos de Goiás e do Maranhão”. Os comentários internacionais, nos jornais americanos, diziam na época que o Pará tinha assegurado, por causa dessa descoberta, a sua “grandeza futura”.

Mas onde exatamente ficavam esses campos naturais?

De acordo com a localização geográfica definida por Ignácio Moura que conversou muitas horas com os irmãos “Pimentéis”, os “campos gerais” ficavam distante do Burgo de Itacaiunas cerca de 30 ou 40 quilômetros na direção oeste, e foram descobertos em dezembro de 1895.

Em outra passagem do seu relatório de viagem, Ignácio Moura (1910, p. 258) informou que “os campos gerais ali descobertos e que ultimamente ocuparam a atenção do Congresso do Estado do Pará, [estavam] situados a 30 ou 40 quilômetros na direção 68º S.O. das terras do Burgo”.

3 O barracão da Casa Marabá

Antes de e chegar o laudo técnico sobre a amostra do látex enviada para Belém, o cidadão de nome Francisco Coelho visitou o Burgo de Itacaiunas a convite do coronel Carlos Gomes Leitão. Esse homem, provavelmente natural do Maranhão, trabalhou anos atrás na região dos rios Purus, Juruá e Javari, no extremo ocidente da Amazônia, onde conheceu a árvore da espécie castilloa e viu de perto como funcionava o trabalho de coleta dos caucheiros.

Sabe-se, ainda, por meio da obra da sertanista Carlota Carvalho que Francisco Coelho deixou a fronteira com o Peru depois de ter sido atacado de sezão ou febre amarela, retornando por isso ao estado do Maranhão, onde passou a trabalhar como sargento da milícia estadual.

Curiosamente, alguns anos depois, informa o fiscal do governo paraense Ignácio Moura que existia um homem no Burgo de Itacaiunas em 1897, um destacado “poeta popular, um tal Coelho”, que trabalhava com boiada e impressionava pela sua capacidade literária, sendo nesse caso, muito provavelmente, o ex militar Francisco Coelho, admirador do poeta Gonçalves Dias e futuro comerciante da Casa Marabá juntamente com o parceiro comercial ou sócio Francisco Casemiro.

De acordo com o que informa o livro da sertanista Carlota Carvalho, abandonando a carreira militar Francisco Coelho deixou definitivamente a farda e viajou para a cidade de Grajaú, onde adotou a profissão de açougueiro. Naquela cidade, casou-se com Edeltrudes Carvalho. .

Em seguida, provocado pela riqueza que surgia nas margens do rio Itacaiunas, principalmente com a descoberta do caucho em grandes extensões de terras no sul do Pará, e contando, brevemente, com o apoio dos parentes do coronel Carlos Gomes Leitão visando instalar um futuro açougue no pontal do Tocantins, Francisco Coelho não hesitou e migrou finalmente para o Burgo de Itacaiunas, levando junto a família, fato esse que deve ter acontecido entre 1896 e 1897. Nesse período, teria sido justamente o próprio Francisco Coelho com seu conhecimento empírico adquirido na fronteira do Brasil com o Peru quem identificou a espécie de árvore leitosa conhecida como caucho.

Informa ainda mais o livro da sertanista Carlota Carvalho que a vila de Grajaú, local de onde partiu Francisco Coelho, foi colonizada desde 1811. Grajaú sempre se destacou no estado do Maranhão por fazer a ponte entre o Sertão dos Pastos Bons e a capital maranhense.

Na década de 1920, Grajaú era uma cidade movimentada, expressiva, dinâmica, colorida. Praticava, segundo Carlota Carvalho, uma intensa atividade comercial com o sudeste do Pará e com o extremo norte do estado de Goiás.

A casa comercial do poeta Francisco Coelho funcionou no o pontal do rio Tocantins, copiando o padrão de atendimento de outra casa comercial que já existia na cidade de Grajaú, também de sua propriedade.

A estrutura física da Casa Marabá, no pontal do rio Tocantins, contava inicialmente com três ambientes interligados: açougue, botequim e, no centro, residência. Em 1899, a Casa Marabá vendia carne; arroz; feijão; e farinha d’água para o povo, que não passava naquele momento de duas mil almas. A metade dessa população era flutuante e trabalhava no extrativismo da floresta.

No barracão da Casa Marabá, Francisco Coelho comprava para depois revender aos atravessadores as pranchas ou placas de borracha de caucho; a madeira; a castanha; a andiroba; a copaíba; as peles de onça; os ovos de tartaruga; o pescado e as plantas medicinais que desciam da floresta pelos rios Tocantins, Itacaiunas e Araguaia através dos populares botes, balsas de madeira e canoas da região. Também a Casa Marabá vendia regularmente cachaça para os caboclos; farinha para os caucheiros; facões para os roceiros; e espingardas para os caçadores de gatos selvagens, capangas, e até matadores de índios que trabalhavam para os fazendeiros que moravam na redondeza do Burgo.

Barracão amazônico, foto da viagem aos rios Araguaia e Xingu do francês Henri Coudreau, 1898.

Francisco Coelho o o contou inicialmente com a parceria do coronel Carlos Gomes Leitão, concessionário do Burgo de Itacaiunas, que juntos combinaram montar um açougue na área da colônia. Seriam sócios desse empreendimento Pedro Limeiro, Antônio de Almeida e Miguel Belix, considerado este o primeiro - se não um dos primeiros - libaneses a vender boiada próximo do atual município de Tucuruí, antigamente Alcobaça. Algum tempo depois, de acordo com o que declara o sítio eletrônico do IBGE, Francisco Coelho e Carlos Leitão se desentenderam e romperam a parceria comercial [entretanto, não se conhece a fonte primária dessa notícia].

4 A economia da castanha

Nativa da Amazônia, a castanheira existia abundantemente ao longo dos rios Itacaiunas e Tocantins, sendo agora, infelizmente, uma raridade encontrada no meio do capim e dos pastos; nos assentamentos rurais do INCRA (Instituto de Colonização e Reforma Agrária); ou em alguns bairros da cidade onde “ameaça” a integridade das residências populares e dos recentes loteamentos urbanos destinados à especulação imobiliária.

Além dessa grande área geográfica natural situada na redondeza da cidade de Marabá, a castanheira ainda pode ser encontrada, felizmente, no estado do Maranhão, Mato Grosso, Acre e Amazonas; e vai mais longe, sendo nativa na Bolívia, no Peru, na Colômbia, na Guiana e Venezuela.

A castanheira produz ouriços ou bolas de castanhas que ficam pendurados durante 15 meses no alto da árvore, pesando cerca de um quilo e meio, sempre carregados de amêndoas numa altura que vai de 20 a 50 metros acima do solo.

Essas características naturais explicam, segundo os especialistas, o impacto que os ouriços causam quando despencam sobre a terra-firme (molhada pelo inverno amazônico) ou sobre as margens alagadas pelos rios da região.

Os ouriços acompanhados de suas leitosas amêndoas servem para diversas finalidades econômicas: indústria de cosmético e de alimentos; artesanato; produção alternativa de biocombustível, entre outras possibilidades.

No passado era comum misturar-se na panela de barro o leite da castanha fervido com a carne do macaco, do jacaré, da paca, do peixe, do tracajá, dos jabutis ou então das tartarugas.

Curiosamente, a castanha-do-pará chegou a ser conhecida pelo povo no início do século XX como a carne vegetal da Amazônia, complementando a dieta daqueles que se embrenhavam na mata durante semanas trabalhando no extrativismo da borracha ou ajudando a sobrevivência dos que ficaram acidentalmente perdidos na floresta.

No livro do inspetor paraense Ignácio Moura que descreve a sua viagem pública ao rio Tocantins e Araguaia em 1897, sabemos que o naturalista e Barão de Humboldt definiu a castanha-do-pará como sendo o “mais notável exemplo do poder das forças orgânicas na estrutura dos seus frutos, apresentando uma espécie de cocos arredondados e revestidos de espesso lenho, os quais contêm sementes tetraédricas, encerradas também num tegumento lenhososo.

Complementando essa descrição técnica da castanheira, Ignácio Moura registrou que as sementes que se encontravam dentro do ouriço variavam em número entre 12 e 16 unidades. A castanheira, segundo ele, “é uma das mais úteis da região amazônica, pois do seu fruto se utiliza a amêndoa empregada nos confeitos e doces; mais o leite, que se obtém ralando a amêndoa e adicionando água à massa, para ser então peneirada.

O leite pode ser utilizado no cozido de carnes e peixes, e na mistura de certas frutas ácidas, como cupuaçu, taperebá ou cajá, e nos mingaus de arroz ou farinha (ibidem). Da castanha também se extraía, segundo observou Ignácio Moura em 1897, um óleo finíssimo usado na indústria de sabonetes, na iluminação e nas receitas culinárias.

Além disso, naquela ocasião, a “casca da árvore se abr[ia] em esteiras de excelente estopa, enquanto a madeira [era] apreciada nas construções navais”. Infelizmente, o comércio da estopa da castanheira, de acordo com o que avaliou Ignácio Moura, “prejudicava o viço da árvore e diminuí[a] as colheitas futuras; pelo que [era] aconselhável evitar o abuso no próprio benefício do comércio e dessa indústria extrativa, porque os lucros que se obt[inha] com a estopa não compensa[va]m os prejuízos com a diminuição da colheita da fruta”.

Na época do “apanha”, o fiscal observou que “e[ra] necessário obedecer às leis da natureza, e deixar que os frutos amadurece[ssem] e ca[íssem] para assim os apanhar”, sendo o maior trabalho das pessoas encarregadas desse serviço cortar os ouriços, o que faziam, entretanto, debaixo de pequenas barracas construídas provisoriamente no próprio centro da floresta”.

Em virtude das leis da gravidade, os ouriços caíam com tal força que em certos lugares chegavam a enterrar-se imediatamente no solo; daí o perigo que ameaçava a cada momento a cabeça dos coletores inexperientes. Por isso, geralmente o coletor menos experimentado no assunto esperava que o vento agitasse naturalmente os galhos da castanheira, deixando assim cair os ouriços maduros no chão, evitando o risco de graves acidentes na cabeça.

No final do século XIX, Ignácio Moura registrou que “não conhecemos no mundo outro país, senão o Brasil, que produza e exporte essa castanha, a qual impropriamente é denominada nos mercados estrangeiros como ‘castanha do Maranhão’ por ter sido aquele Estado sede da capitania a que pertenceu o Pará nos primeiros tempos coloniais”.

É importante chamar a atenção nesse ponto que diferentemente do século XIX existem hoje grandes produtores naturais da castanha a bertolletia excelsa, além do Brasil, principalmente a Bolívia.

Regressando ao ano de 1897 a castanheira do Pará tinha excelente reputação comercial na Europa, sendo a Inglaterra o principal mercado consumidor de castanhas naquele momento. As maiores regiões produtoras no estado do Pará, em 1897, eram o Baixo Amazonas e o Alto Tocantins, onde ficava o distrito do Lago Vermelho, hoje Itupiranga. Em 1895, por exemplo, Ignácio Moura observou que os castanhais do Lago Vermelho, ao lado do Burgo de Itacaiunas, produziram mais de 300 hectolitros, o que apesar de não ser uma quantidade extraordinária para nós hoje, quando comparada com a produção do período futuro 1920-1970, ainda assim mostra que houve uma interessante produção extrativista voltada para o mercado já no começo da história local de Marabá.

Ainda de acordo com o relatório técnico do inspetor Ignácio Moura, as colheitas dos castanhais variavam no rio Tocantins de uma “maneira espantosa e em relação a agentes naturais até agora desconhecidos”. Por exemplo, a colheita do ano de 1895 chegou a 9.000 hectolitros, quando a do ano seguinte só foi calculada em cerca de 5.000 hectolitros.

A maior parte ou quase todos os coletores de castanhas do Tocantins vinham do sertão do Maranhão e de Goiás em 1897, para onde voltavam depois de concluída a colheita, com exceção de alguns castanheiros que ficavam definitivamente estabelecidos nos sítios próximos aos castanhais. Diante dessa realidade social, Ignácio Moura concluiu que foram os castanheiros e caucheiros os pioneiros da colonização das margens do Alto Tocantins, incluindo-se a região de Marabá.

Devido à coleta da castanha ser praticada no inverno, Ignácio Moura observou que:

Aquela massa de forasteiros e exploradores é perseguida pelas febres intermitentes, que dizimam anualmente muitos deles o que é em charcos, logo pela madrugada, bebendo água das fontes determinado pelo pouco cuidado com que essa gente vai às matas - sem calçado, pisando infecciosas, mal se abrigando em palhoças provisórias contra as chuvas abundantes, alimentando-se insuficientemente.

Descrevendo esse quadro social crítico, Ignácio Moura capturou a emergência da sociedade castanheira no sudeste do estado do Pará identificando outros aspectos sociais curiosos relacionados ao comércio desse produto que se tornaria décadas depois, símbolo do povo de Marabá no seu brasão municipal.

De acordo com o relatório (quase poético) desse funcionário de Governo:

É belo ver as margens risonhas do grande rio, pelo tempo da colheita, semeadas de sítios cheios de crianças e mulheres, as pequenas povoações transformadas em cidades pelo povoamento adventício tudo fazendo crer que se trata de uma grande feira ou de uma festa anual, para a qual nada falta, nem a música, nem a troupe du demi-monde que ali se estabelece, em procura do ouro ganho pelos cortadores e, mais ainda, pelos negociantes ambulantes.

5 Transformações do município de Marabá

Durante a crise econômica da borracha brasileira no mercado mundial surgiram oficialmente no ano de 1913 a prefeitura de Marabá (ou intendência) e a Câmara de vogais (ou de vereadores). Nessa época, o prefeito Antônio Maia construiu 30 postes de iluminação pública, feitos de madeira acapu, onde ficavam acesos os lampiões no alto, à base de querosene, ativados ao anoitecer e apagados por volta da meia-noite. Os primeiros postes de iluminação pública, no centro do município, que se tem notícia na historiografia regional foram colocados na Rua Nova; na Rua Central - hoje Antônio Maia; na Rua dos Mineiros - onde agora é a Praça Duque de Caxias; e na Rua do Marabázinho, onde fica a orla da cidade.

O prefeito ampliou também as repartições da máquina administrativa, e segundo informa a historiografia local construiu algumas praças no município. Além disso, criou uma escola municipal procurando beneficiar os jovens analfabetos, aproveitando a contribuição de duas ou três professoras que já davam aulas particulares regularmente nos lares de Marabá. Entre elas, provavelmente, a professora Judith Gomes Leitão, sobrinha do coronel Carlos Gomes Leitão; e irmã de outra futura educadora de nome Julieta Gomes Leitão, ambas irmãs do ilustre frei Gil Gomes Leitão, que seria, mais tarde, um atuante missionário entre os povos indígenas da redondeza, conforme declaram as informações repassadas em agosto de 2011, por uma neta do senhor Atanásio Gomes, irmão do coronel Carlos Gomes Leitão. .

No ano de 1926 a cidade de Marabá tinha 431 casas, porém, apenas uma centena delas apresentava sólidas construções modernas de alvenaria e de cimento, sendo espaçosas e confortáveis. A população urbana da cidade não passava nessa época de 3 mil moradores. As casas reconhecidas oficialmente pela prefeitura em 1926 ficavam localizadas nas seguintes áreas:

Centro de Marabá

Fonte: “Viagem ao Tocantins”, de Deodoro de Mendonça, 1926,

Governo do Estado.

Marabá foi elevada à categoria de cidade no dia 27 de outubro de 1923 por força da lei estadual número 2.207, conforme declara oficialmente o sítio eletrônicocococo do IBGE. Nesse ano, o visitante encontrava uma surpresa agradável no espaço regional do sudeste do estado do Pará, de acordo com o que descreveu a sertanista maranhense Carlota Carvalho no seguinte aspecto:

Desde o Piauí, todo o sertão exportou árvores, víveres, carne de boi e de porco; toucinho; farinha seca e de puba; açúcar; rapadura; cachaça; tabaco; doces; queijos; galinhas; ovos; bois vivos; porcos e vacas paridas; até laranjas; abóboras e inhames para a fantástica e maravilhosa Marabá surgida, de repente, como obra de magia, na foz do escuro rio Tacai-uma.

6 Realidade social e poesia na Casa Marabá até 1906

No barracão da Casa Marabá não se vendia apenas farinha, carne-seca e ferramentas rudimentares de trabalho. Não se fazia apenas transação de caucho, de castanha e de outros gêneros da floresta e dos rios. Vendiam-se também sonhos, prazeres e carícias, explorando a energia sexual de jovens e quem sabe até de crianças negras e mestiças que vinham principalmente da cidade de Grajaú, estado do Maranhão.

Diante dessa triste possibilidade histórica que hoje consideramos repulsiva e criminosa a partir do Estatuto da Criança e do Adolescente, nossa curiosidade pergunta imediatamente que tipos de homens poderiam ter frequentado a Casa Marabá naquelas condições ilícitas, onde as mulheres pobres e negras eram tratadas como coisas e mercadorias?

Considerando o contexto socioeconômico de 1899, a lista dos frequentadores assíduos e consumidores dos prazeres disponibilizados pelos sócios Francisco Casemiro e Francisco Coelho pode ter registrado, inevitavelmente, a presença dos seguintes tipos sociais na Casa Marabá:

Mestiça Marabá, acervo Google.

·Caucheiros

·Pescadores

·Castanheiros

·Caçadores de gatos selvagens

.Açougueiros

.Barqueiros

.Tropeiros

.Fazendeiros e filhos de coronéis

.Vaqueiros

.Peões

.Matadores de índios

.Forasteiros em geral, entre outros.

Da mesma forma, curiosamente, perguntamos como seria o tipo ideal de mulher no imaginário daqueles homens que procuravam o barracão? Com a palavra, a jovem mestiça inventada pelo poeta Gonçalves Dias, Marabá, símbolo maior de mulher que justificou a origem histórica e o funcionamento do barracão entre 1898 e 1906:

Eu vivo sozinha; ninguém me procura!
Acaso feitura
Não sou de Tupã?

Se algum dentre os homens de mim não se esconde,
— Tu és, me responde,
— “Tu és Marabá!”

— Meus olhos são garços, são cor das safiras,
— Têm luz das estrelas, têm meigo brilhar;
— Imitam as nuvens de um céu anilado,
— As cores imitam das vagas do mar!


Se algum dos guerreiros não foge a meus passos:
Teus olhos são garços,
Responde anojado; "mas és Marabá”:
Quero antes uns olhos bem pretos, luzentes,
Uns olhos fulgentes,
Bem pretos, retintos, não cor d'anajá!



— É alvo meu rosto da alvura dos lírios,
— Da cor das areias batidas do mar;
— As aves mais brancas, as conchas mais puras
— Não têm mais alvura, não têm mais brilhar

Se ainda me escuta meus agros delírios:
"És alva de lírios”,
Sorrindo responde: "mas és Marabá”:

Quero antes um rosto de jambo corado,
Um rosto crestado
Do sol do deserto, não flor de cajá.

— Meu colo de leve se encurva engraçado,
— Como hástea pendente do cactus em flor;
— Mimosa, indolente, resvalo no prado,
— Como um soluçado suspiro de amor! —

Eu amo a estatura flexível, ligeira,
Qual duma palmeira,
Então me responde: “tu és Marabá”.

Quero antes o colo da ema orgulhosa,
Que pisa vaidosa,
Que as flóreas campinas governa onde está.

— Meus loiros cabelos em ondas se anelam,
— O oiro mais puro não tem seu fulgor;
— As brisas nos bosques de os ver se enamorar,
— De os ver tão formosos como um beija-flor!

Mas eles respondem: Teus longos cabelos,
São loiros, são belos,
Mas são anelados; tu és Marabá:

Quero antes cabelos, bem lisos, corridos,
Cabelos compridos,
Não cor d'oiro fino, nem cor d'anajá.

E as doces palavras que eu tinha cá dentro
A quem as direi?
O ramo d'acácia na fronte de um homem
Jamais cingirei.

Jamais um guerreiro da minha arazoia
Me desprenderá:   
Eu vivo sozinha, chorando mesquinha,
Que sou Marabá!

O que se nota especialmente nesses versos românticos é que a personagem Marabá do poeta Gonçalves Dias, o mesmo que escreveu “minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá...”, carregava o complexo de inferioridade de ser brasileira, pois era filha da mestiçagem! Consequentemente, para o branco europeu Marabá era meio índia. Para o povo de sua aldeia, ao contrário, era meio branca. Resultado dessa confusão toda: Marabá não conseguia ser feliz e não ganhava pretendentes, ficando assim predestinada a morrer virgem e abandonada.

O aspecto físico de Marabá testemunhava a sua origem social decorrente de um ato sexual passageiro ou quem sabe forçado, perverso, aventureiro, violento, entre o branco colonizador e a sua mãe indígena. Os loiros cabelos e os olhos azuis de Marabá não contemplavam o tipo ideal dos jovens guerreiros, que gostavam exatamente de olhos e cabelos negros de índias verdadeiras. Os homens brancos, por sua vez, não reconheciam Marabá como donzela civilizada. Desse modo, Marabá era uma criatura híbrida. Sem valor social, estava perdida na fronteira de duas raças e de duas culturas.

Segundo a análise do professor Andrey Pereira de Oliveira (2005), doutor em Letras, a personagem Marabá tem alguns pontos críticos. Primeiramente, seu rosto tinha a alvura dos lírios e a cor das areias. Para os guerreiros de sua aldeia, entretanto, o tipo ideal de rosto era jambo corado, crestado do sol, e não flor do cajá.

Também o colo de Marabá despertava repulsa entre os homens de sua aldeia, porque seu colo se encurvava engraçado como a hástea pendente do cacto em flor. Para os jovens de sua aldeia, o tipo ideal de mulher deveria ter o colo de uma ema orgulhosa, que pisa vaidosa e governa as flóreas campinas.

Outro problema de natureza estética é que os cabelos de Marabá eram loiros, em ondas anelados, formosos como um beija-flor. Para os jovens de sua terra, entretanto, a mulher ideal tinha que ter cabelos corridos, bem lisos, compridos; não tendo cor de oiro fino, nem cor d’anajá.

No poema de Gonçalves Dias, o tempo todo Marabá identifica os seus olhos; cabelos; rosto; colo; seus traços europeus; mas no final, isso tudo desagrada os jovens guerreiros de sua aldeia. Ela diz: “- meus olhos são garços, cor de safira, têm luz de estrelas e meigo brilhar; imitam as nuvens do céu anilado e as cores das vagas do mar”.

Entretanto, mesmo com essa descrição repleta de poesia, nada modifica o drama feminino da personagem na aldeia. Respondem os jovens guerreiros insistentemente nesse sentido: “Mas és Marabá!”, ou seja, na língua tupi-guarani: “és mestiça!”. . .

A personagem Marabá sente profundamente o desprezo, o deboche, o preconceito, o assédio moral dos homens de sua comunidade. Mais triste ainda para o leitor no poema de Gonçalves Dias é ver que a jovem Marabá descobriu que está condenada a viver o resto de sua vida usando o saiote de plumas, chamado arazoia. No poema, ela teme, profundamente, nunca mais abandonar o uso dessa peça.

Mas o que havia de tão horrível em continuar usando esse tipo de vestimenta? Tragicamente, o saiote marcava na cultura do seu povo um drama feminino: Marabá era virgem, intocável. Não podia oficialmente ter filhos e netos!

7 O poder social das armas de fogo

A historiografia tradicional de Marabá (cf. MATTOS; MONTEIRO; SAMPAIO; PREFEITURA DE MARABÁ, entre outros) reforça através de uma série de exemplos do cotidiano que o apelido depreciativo “Marabala” tem mesmo suas origens históricas nos primórdios da colonização do município.

Diz a lenda da descoberta do caucho, por exemplo, que a árvore leitosa foi encontrada acidentalmente com a ajuda das balas dos rifles e das espingardas dos jagunços do coronel Carlos Gomes Leitão no momento em que se divertiam, fazendo tiro ao alvo no tronco das árvores.

Também quando foi inaugurada a Casa Marabá, sabemos que o som da festa contou com a ajuda das centenas de tiros no lugar dos fogos de artifício que foram disparados através dos rifles 44.

Informa a historiografia local sobre as origens de Marabá que as badernas e desordens eram frequentes não só entre a “ralé” como também entre os coronéis, os comerciantes e os políticos que formavam a elite local. Um exemplo memorável que representou essa prática aconteceu em 1904, mobilizando dois grupos armados que travaram intenso tiroteio no distrito, liderados de um lado pelo comerciante Celso Bandeira, e de outro, por Francisco Casemiro (que era sócio de Francisco Coelho, na Casa Marabá). No final desse episódio sangrento, morreu baleado um cidadão de nome Lugério.

Nessa mesma época, pouco antes, ou pouco depois de 1904, há registros de intensos conflitos armados entre comerciantes sírios (ou libaneses) e maranhenses na chamada “revolta dos galegos”.

O herói empreendedor de Marabá, Francisco Coelho, também não ficou do lado de fora desse contexto armado. Além de vender armas de fogo e incentivar a exploração sexual de mulheres prostitutas que vinham da cidade de Grajaú, esse comerciante acabou sendo vítima de bala acidental no dedo maior do pé direito que infeccionou e acarretou a sua morte.

Contam os relatos populares nesse sentido que Francisco Coelho admirava a qualidade de alguns rifles que um comerciante forasteiro lhe apresentou para vender, entretanto, ao mexer na arma, ele próprio disparou um tiro imprevisível na direção de um de seus pés, o que lhe causou um sofrimento fatal de nove dias consecutivos. .

Outra versão veiculada pelo jornal Marabá, na década de 1940, considerou que Francisco Coelho foi acidentalmente ferido por uma bala perdida no momento em que ele recepcionava a chegada dos barcos na foz do rio Itacaiunas, em meio a um barulhento festival de tiros como era de costume naquela época, simbolizando hospitalidade e boas-vindas.

Com a morte do comerciante teria o cunhado assumido temporariamente a direção da Casa Marabá e logo depois, entregado, pessoalmente, os bens de herança para a viúva que naquele momento morava na cidade de Grajaú, estado do Maranhão. Para os historiadores antigos e o povo em geral esse teria sido, conclusivamente, o triste fim do comerciante Francisco Coelho e da sua Casa Marabá!

Por outro lado, existem alguns relatos encontrados na historiografia marabaense (sem nenhuma comprovação documental) que afirmam que a Casa Marabá continuou a funcionar entre 1907 e 1912 sob a direção do novo proprietário Uady Moussallem, de origem árabe, que mais tarde se tornaria um dos primeiros vereadores do município de Marabá. .

A historiografia marabaense informa também que na década de 1920, frei Alberto Venery teria celebrado missa campal sobre a sepultura do comerciante Francisco Coelho comemorando o título de “cidade” que Marabá recebeu devido ao crescimento urbano e populacional. Apesar de não existirem detalhes sobre onde ficava o local exato dessa campa no cemitério municipal da Cidade Pioneira, esse pequeno registro confirma a suposição de que Francisco Coelho, mesmo depois de morto, continuava sendo relembrado até religiosamente pelas autoridades públicas como sendo o verdadeiro fundador da cidade de Marabá.

Na década de 1950, encontramos ainda outro exemplo interessantíssimo no Censo do IBGE registrando a presença de dois bustos históricos na Praça Duque de Caxias, no centro da cidade, um deles homenageando o comerciante Francisco Coelho, que depois foi transferido para o bairro que guarda o seu nome também situado na “Cidade Pioneira”. É oportuno acrescentar que em 1906 a memória do distrito de Marabá não registrou apenas a morte do seu ilustre barraqueiro Francisco Coelho. Aconteceu, além disso, uma grande enchente que atingiu a área do pontal obrigando a população de 600 habitantes a deslocar-se em direção à periferia do distrito. Sobre essa calamidade pública informa a historiografia de Marabá que a enchente arrasou casebres e barracões; entretanto, apesar de ter causado um enorme estrago social, logo que águas dos rios baixaram a população reconstruiu imediatamente a normalidade do lugar.

Personalidades de Marabá: aparente paz e civilidade. Acervo Fundação Casa da Cultura de Marabá, 1920.

Outro episódio que reforça a presença das armas de fogo na história política de Marabá aconteceu na Câmara dos vereadores, no ano de 1918. Nessa época, João Anastácio de Queiroz, que era prefeito da cidade, desentendeu-se com o vereador Pedro Peres Fontenelle, presidente do Conselho, resultando na renúncia voluntária do prefeito eleito, o que favoreceu temporariamente o adversário que assumiu por força da lei a vaga da prefeitura deixada em aberto pelo antecessor.

Posteriormente, João Anastácio de Queiroz não se deu por vencido, reagiu e convocou seus amigos e peões que se armaram com o objetivo de fazer uma dura oposição e assim forçar a renúncia do vereador Pedro Fontenelle, que acabou realmente derrotado e renunciou ao cargo de prefeito, ficando em seu lugar, conforme o planejado, o vereador Cândido Raposo, apoiado por Anastácio de Queiroz.

No ano de 1920, a mesma figura, Anastácio de Queiroz, voltou a ser intendente municipal de Marabá, acompanhado de alguns vereadores eleitos pelo voto popular (voto este que não incluía a participação de menores de 18 anos, mulheres e analfabetos). A lista dos vereadores naquela ocasião contava com os seguintes nomes: Francisco Soares de Melo; Martinho da Mota Silveira; Honmero dos Santos Souza; Antônio Cezar de Miranda; Melchiades Peres Fontenelle; Uady Moussallem; Antônio da Rocha Maia; e Juvenal da Rocha Ribeiro.

Em 1908, João Anastácio de Queiroz migrou para o distrito de Marabá juntamente com Sérvulo Ferreira de Brito, jovens na época, provenientes talvez da cidade de Carolina, do Maranhão, sob a responsabilidade do coronel Messias José de Sousa. Os rapazes deveriam trabalhar na extração do látex do caucho. Entretanto, não demorou muito tempo, João Anastácio de Queiroz já se encontrava trabalhando como gerente na casa comercial do coronel Messias.

Em 1909, curiosamente, João Anastácio de Queiroz era sócio dessa casa comercial, o que lhe rendeu prestígio e notoriedade social, contribuindo para que fizesse parte da primeira junta administrativa provisória de Marabá em 1913, antes da primeira eleição do município, que foi em 1914.

Quatro anos depois, Anastácio de Queiroz administrou a intendência de Marabá e foi reeleito para o mesmo cargo. Em 1925, destacou-se como um dos maiores comerciantes de castanha do Brasil, ficando conhecido com o título de “coronel”. Em 1945, faleceu por motivo de doença quando exercia novamente o cargo de prefeito de Marabá.

Conclusão

A historiografia local sempre deixou claro que a origem do nome do município de Marabá não se reportou a nenhuma herança indígena da região Itacaiunas-Tocantins-Araguaia. Não há nesse sentido nenhuma ligação do nome do município com qualquer figura popular, histórica ou mitológica, masculina ou feminina, cacique ou pajé, de procedência Karajá, Timbira, Gavião, Xerente, Kayapó, Assurini, Apinajé, ou Xikrim.

Também, ao contrário do que se consagrou no imaginário popular, a origem do nome oficial do município de Marabá não foi inspirada na obra do renomado escritor maranhense Gonçalves Dias, ilustríssimo poeta representante do romantismo brasileiro e político influente na Monarquia, eternamente consagrado por ter inventado, entre outras joias literárias, a personagem Marabá, filha de branco com índia.

Da mesma forma, a origem do nome do município de Marabá não sofreu qualquer influência religiosa. Pelo contrário. Recebeu de fato e de direito uma enorme herança profana! Isso aconteceu porque o atual padroeiro São Félix de Valois, considerado o “evangelizador destemido” da Igreja Católica, não foi homenageado na instituição do município em 1913.

A origem do culto a esse santo vem da França, onde São Felix é reconhecido, historicamente, como um dos fundadores da Ordem da Santíssima Trindade, no século XII; entretanto, em Marabá o reconhecimento popular desse santo aconteceu apenas na década de 1920.

A devoção dedicada a esse santo poderia ter sido introduzida pelos missionários dominicanos nos primeiros anos da colonização do Alto Tocantins; entretanto, na historiografia regional encontram-se alguns relatos recentes da neta do senhor Francisco Acácio que afirmam que, na verdade, foi esse homem, seu avô, um leigo, quem introduziu o culto a São Felix no município de Marabá, em 1922.

Segundo essa informante, o culto a São Félix de Valois foi popularizado no município através do pagamento de uma promessa dedicada à Nossa Senhora de Nazaré por iniciativa do próprio Francisco Acácio, que construiu uma pequena igreja coberta de palha num terreno disponível no pontal de Marabá, sendo depois transferida para um terreno situado um pouco mais no alto, fugindo da enchente do rio Tocantins que teria arrasado a igreja original em 1926.

De e acordo com a Fundação Casa da Cultura de Marabá, o devoto Francisco Acácio de Figueiredo era goiano e escolheu o local para pagar a sua promessa, primeiramente num terreno baixo, na frente do atual prédio da igreja de São Félix de Valois, localizada no Núcleo Cidade Pioneira. Depois, Francisco Acácio mobilizou a população católica no sentido de melhorar a condição do pequeno templo que foi substituído por uma construção mais sólida por causa da enchente devastadora de 1926.

Considerando esses dados históricos, podemos concluir dizendo que o nome São Félix de Valois não foi cogitado para batizar o município de Marabá em 1913 por uma razão cronológica elementar, ou seja, a origem do culto a esse santo começou na década de 1920, portanto, alguns anos depois de ter sido criada a municipalidade, ou pior ainda, quase 20 anos depois de ter sido oficializado o distrito de Marabá, fato esse que aconteceu legalmente em 1904.

Se, por acaso, tivesse uma origem católica, provavelmente o município ao invés do nome Marabá poderia ter sido batizado com o nome São Félix, mas nada disso aconteceu, obviamente, não apenas por uma razão cronológica, mas, sobretudo, por questões políticas estruturais visto que a Igreja Católica Apostólica Romana a partir de 1889 não dependia mais oficialmente do Estado.

No período da monarquia brasileira (1822 a 1889), é interessante relembrar, cada distrito paroquial em torno da igreja sabia com rigor de detalhes quantas pessoas nasciam e morriam na comunidade e quem era oficialmente batizado, crismado, casado, viúvo, solteiro, ou era “tico-tico no fubá”.

No tempo da Monarquia, quando a religião católica estava sob o controle político do Estado brasileiro, o grau de catolicidade revelava o grau de politicidade do cidadão. Se naquela época alguém dissesse: “Tal sujeito não me parece muito católico”, era grande o constrangimento nas eleições e nas tentativas de se obter algum cargo público de confiança no Governo!

Em Marabá, particularmente, não havia igreja nem padre para realizar os sacramentos, missas e trabalhos pastorais. Apenas na década de 1920 é que surgiu a primeira igreja por iniciativa de um devoto leigo e não de uma autoridade eclesiástica. Essa ausência explica até certo ponto o excessivo desregramento moral experimentado pela cidade nas primeiras quatro décadas de sua história, até 1937, quando surgiu a Diocese de Marabá. Eram comuns nesse contexto as farras, as bebedeiras, a prostituição e as mortes sem dispor da assistência espiritual dos padres.

Diante desse quadro social, conclui-se que a origem do nome do município de Marabá nunca foi sagrada, nascendo em torno da igreja, mas absolutamente profana, surgindo com o comércio e o lazer da Casa Marabá e de outros barracões e casas dançantes que se espalharam ao longo do pontal do rio Tocantins, atualmente Núcleo Cidade Pioneira.

Igreja matriz, de São Félix de Valois, década de1920. Acervo Fundação Casa da Cultura de Marabá.

Referências

CARVALHO, Carlota. O sertão: subsídios para a história e a geografia do Brasil. Imperatriz: Ética, 2000.

MARABÁ. Prefeitura Municipal (administração Paulo Bosco Rodrigues Jadão). Marabá: a história de uma parte da Amazônia, da gente que nela vivia e da gente que desbravou e dominou, fazendo-a emergir para a civilização de 1892 até nossos dias. [s.l.], [s.n.], 1984.

MATTOS, Maria Virgínia Bastos. História de Marabá. Marabá: Grafil, 1996.

MONTEIRO, João Brasil. O castanheiro. Marabá: s.n., 2001.

MOURA, Ignácio Baptista. De Belém a S. João do Araguaia: vale do rio Tocantins. Rio de Janeiro: H. Garnier Livreiro Editor, 1910.

OLIVEIRA, Andrey Pereira de. A corrupção do universo indígena nas “poesias americanas” de Gonçalves Dias”. Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Campus Marechal Cândido Rondon: Revista Trama, vol. 1, n. 2, 2º semestre de 2005.

SAMPAIO, Walter Leitão. Marabá: pontal verde – história mal contada. São Paulo: Art Link Comunicação e Assessoria, 2000.

SEDUC (Secretaria de Estado de Educação do Pará). Estudos e problemas amazônicos: história social e econômica e temas especiais. Belém: CEJUP, 1992.

Fontes primárias:

Sítio eletrônico do IBGE/ Arquivo Público de Marabá/ Fundação Casa da Cultura de Marabá.


[1] Heraldo Elias Montarroyos, Professor Adjunto 4, do Campus de Marabá, UFPA, Especialista em História da Amazônia, Contato: elias@ufpa.br