ISSN 1807-1783                atualizado em 16 de março de 2010   


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Sobre a Noção de Campo Histórico

por José D’Assunção Barros

Sobre o autor[1]

SOBRE A NOÇÃO DE CAMPO HISTÓRICO

Nos tempos recentes, têm surgido com freqüência cada vez maior livros e coletâneas de livros que discorrem sobre as inúmeras especialidades da História, tais como a História Política, a História Cultural, a História Econômica, a Micro-História e inúmeras outras. Denominações diversas têm sido dadas a estas especialidades historiográficas, mas de certa maneira tem prevalecido a noção de “campo histórico”, uma expressão que não se coloca de modo agressivo na organização de territórios de saber, tal como ocorre, por exemplo, com a denominação “domínios da história”. Dominar remete, nos dias de hoje, a uma disputa, a um enfrentamento que, neste caso, é transferido ao espaço do saber. Não que este enfrentamento entre as diversas ciências sociais e humanas (ou mesmo no interior de uma só destas ciências humanas) não ocorra habitualmente; mas a palavra “campo”, dotada de uma virtude alternativa, permite enxergar a questão sob o prisma da solidariedade interdisciplinar, e é por isto que a preferiremos[2].

Neste artigo, procuraremos discorrer sobre esta noção – “campo histórico” – e também sobre as divisões historiográficas que ela permite operacionalizar. Um campo histórico – que também pode ser entendido como uma ‘modalidade histórica’ ou uma sub-especialidade da História enquanto âmbito disciplinar – corresponderá neste sistema conceitual àquelas subdivisões que começaram a ser idealizadas ou percebidas no interior da História-Disciplina, à medida que a historiografia foi se tornando cada vez mais complexa. Já desenvolvemos um estudo mais exaustivo sobre O Campo da História (BARROS, 2004), de modo que aqui apenas pontuaremos algumas questões, e remeteremos a esta obra para um estudo mais aprofundado.

A partir do momento em que a historiografia foi se tornando mais complexa, do século XX em diante, e à medida que o próprio conhecimento científico foi produzindo “especialidades” nas várias esferas de conhecimento, também foi ocorrendo o mesmo fenômeno de multiplicação de espaços intradisciplinares no interior da História. Ao exercer este “olhar sobre si” que é, aliás, uma das pré-condições para o surgimento de uma Teoria da História, os historiadores precisaram pensar cada vez mais o seu próprio campo de estudos em termos de modalidades internas, Era preciso, por assim dizer, organizar e tornar mais inteligível este enorme espaço de saberes historiográficos que foi sendo gerado pela expansão da noção de ‘fonte histórica’, pela multiplicação dos interesses temáticos dos historiadores, pela proliferação de diálogos interdisciplinares, pelo acúmulo de novas metodologias e aportes teóricos, e pela crescente complexidade do estudo da história, enfim.

A partir do século XX começamos a ouvir falar cada vez mais em História Cultural, em História das Mentalidades, em História do Imaginário, em Micro-História, em História Serial, em História Quantitativa, apenas para mencionar uma quantidade infinitamente pequena das expressões a partir das quais os historiadores começaram a pensar o tipo de trabalho que realizavam dentro da História. O que define cada um destes e de outros campos pode corresponder desde a um campo específico de fenômenos e processos que são examinados em primeiro plano pelo historiador, até um tipo de fonte a ser trabalhada pelo historiador, uma abordagem que conduzirá necessariamente o trabalho historiográfico, ou um eixo temático fundamental. A multiplicação de critérios a partir dos quais podem ser propostas as subdivisões da História – e nem mencionaremos aqui os já tradicionais critérios de temporalidade que criam divisões como a História Antiga, a História Medieval ou a História Moderna – parece mergulhar o ofício do historiador em um complexo oceano de especialidades ou especializações possíveis. Refletir sobre esta miríade de modalidades que fragmentam o campo de ação do historiador, ou que, sob outra perspectiva, o enriquecem, tem sido tarefa de historiadores que, nas últimas décadas, tem se imposto a tarefa de refletir sobre o seu próprio ofício, sobre os limites e liberdades da disciplina em que seus trabalhos se inscrevem. A percepção da História a partir de uma dinâmica de modalidades internas é certamente parte do estudo da Teoria da História, e não é por acaso que nos últimos tempos têm surgido muitas coletâneas de livro inventariando as conquistas historiográficas no interior de cada uma destas modalidades[3].

A chave para compreender estes vários campos da História, conforme argumentação que desenvolveremos a seguir, estará em distinguir muito claramente as divisões que se referem a dimensões (enfoques), as divisões que se referem a abordagens (ou modos de fazer a História), e as divisões intermináveis que se referem aos domínios (áreas de concentração em torno de certas temáticas e objetos possíveis). O ‘Quadro 1’ procura registrar esta complexidade pertinente aos inúmeros campos históricos, e ao mesmo tempo fornecer uma base mais organizada para a sua compreensão.

Quadro 1: Campos Históricos [ Quadro já apresentado no livro O Campo da História (2004) ]

O primeiro critério gerador de divisões da história em modalidades mais específicas refere-se ao que chamaremos de dimensões, correspondendo àquilo que o historiador traz para primeiro plano em seu exame de determinada sociedade: a Política, a Cultura, a Economia, a Demografia, assim por diante (‘Quadro 1’ à esquerda). Deste modo, teríamos na História Econômica, na História Política, ou na História das Mentalidades, campos do saber histórico relativos às dimensões ou aos enfoques priorizados pelo historiador. Um historiador cultural, por exemplo, constitui em primeiro plano a noção de cultura, na mesma medida em que um historiador político estuda o poder nas suas múltiplas formas e um historiador demográfico orienta seu trabalho em torno da noção de “população”. Desta maneira, estas modalidades, ao enfatizarem certa perspectiva da vida social, devem ser mais adequadamente localizadas no campo das dimensões historiográficas.

Um segundo grupo de critérios para estabelecer divisões no saber histórico é aquele que chamamos de abordagens, referindo-se aos métodos e modos de fazer a História, aos tipos de fontes e também às formas de tratamento de fontes com os quais lida o historiador. São divisões da História relativas a abordagens a História Oral, a História Serial, a Micro-História e tantas outras (‘Quadro 1’, parte superior direita). A História Oral, por exemplo, lida com fontes orais e depende de técnicas como a das entrevistas; a História Serial trabalha com fontes seriadas – documentação que apresente um determinado tipo de homogeneidade e que possa ser analisada sistematicamente pelo historiador. A Micro-História refere-se a abordagens que reduzem a escala de observação do historiador, procurando captar em uma sociedade aquilo que habitualmente escapa aos historiadores que trabalham com um ponto de vista mais panorâmico, mais generalista ou mais distanciado. Também a História Regional poderia ser classificada como modalidade historiográfica ligada a uma abordagem, no sentido de que elege um campo de observação específico para a construção da sua reflexão ao construir ou encontrar historiograficamente uma “região”. Examinando um espaço de atuação onde os homens desenvolvem suas relações sociais, políticas e culturais, a História Regional viabiliza através de sua abordagem um tipo de saber historiográfico que permite estudar uma ou mais dimensões nesta região que pode ser analisada tanto no que concerne a desenvolvimentos internos, como no que se refere à inserção em universos mais amplos.

Para além das modalidades relacionadas a dimensões e abordagens, podemos pensar finalmente nas divisões da História que chamaremos de domínios, e que se referem a campos temáticos privilegiados pelos historiadores (‘Quadro 1’, parte inferior direita). Vários domínios da História têm surgido e mesmo desaparecido no horizonte de saber desta complexa disciplina que é a História. Estaremos falando de domínios quando nos referimos a uma História da Mulher, a uma História do Direito, a uma História de Sexualidade, a uma História Rural. Os domínios da História são na verdade de número indefinido. Alguns domínios podem se referir aos ‘agentes históricos’ que eventualmente são examinados (a mulher, o marginal, o jovem, o trabalhador, as massas anônimas), outros aos ‘ambientes sociais’ (rural, urbano, vida privada), outros aos ‘âmbitos de estudo’ (arte, direito, religiosidade, sexualidade), e a outras tantas possibilidades. Os exemplos sugeridos são apenas indicativos de uma quantidade de campos que não teria fim, e qualquer um poderá começar a pensar por conta própria as inúmeras possibilidades.

Alguns domínios surgem e desaparecem um pouco ao sabor das modas historiográficas – motivados por eventos sociais e políticos, ou mesmo por ditames editoriais e tendências de mercado. Outros surgem quando para eles se mostra preparada a sociedade na qual se insere a comunidade de historiadores (por exemplo, uma ‘História da Sexualidade’ dificilmente poderia surgir na Inglaterra puritana, e uma ‘História da Mulher’ não poderia surgir senão quando, no século XX, a mulher começa a conquistar o mercado de trabalho e surgem os movimentos feministas e de valorização social da mulher). Outros domínios, por fim, são quase tão antigos quanto a própria História – como é o caso da História Religiosa e da História Militar – e tendem a ser perenes na sua durabilidade.

Tal como dissemos, os critérios de classificação que estabelecem domínios da História referem-se primordialmente às temáticas (ou campos temáticos) escolhidas pelos historiadores. São já áreas de estudo mais específicas, dentro das quais se inscreverá o objeto de investigação e a problemática constituídos pelo historiador. A maioria dos domínios históricos presta-se a historiadores que trabalham com diferentes dimensões históricas, e certamente abre-se às várias abordagens. Mas existem domínios que têm mais afinidade com uma determinada dimensão, dada a natureza dos temas por eles abarcados. Assim, a História da Arte ou a História da Literatura podem ser eventualmente consideradas sub-especialidades da História Cultural (embora se deva chamar atenção para uma História Social da Arte, ou uma História Social da Literatura, que não deixam de ser possibilidades dentro da História Social).

De modo análogo, um domínio como o da História das Imagens (entendida como história das imagens visuais obtidas a partir de fontes iconográficas, fotográficas, etc) mostra-se não raro como um desdobramento da História do Imaginário. Mas, bem entendido, uma série de imagens visuais tomadas como fontes históricas sempre poderá dar a perceber qualquer das dimensões que discutimos atrás, como a História Econômica, a História Política, a Geo-História ou a História da Cultura Material. Pense-se em uma iluminura de Livro de Oras, da qual o historiador lança mão para perceber aspectos da economia rural no ocidente medieval, suas representações políticas, as relações do homem medieval com seu meio natural ou traços da cultura material; ou pense-se em uma pintura impressionista utilizada para captar aspectos da História Social na Belle Époque; ou ainda nas cerâmicas gregas utilizadas para levantar aspectos da História Política da Atenas da Antigüidade Clássica. Mas de um modo ou outro, em todos estes casos sempre estará ocorrendo um diálogo da História do Imaginário com uma destas outras dimensões.

Também a História das Representações, por motivos análogos, sempre terá intimidade com o campo definido como História do Imaginário, embora também se abra a uma História das Mentalidades e certamente à História Cultural. Já a História do Cotidiano, ou a História da Vida Privada, abrem-se a inúmeros campos de enfoques para além da História das Mentalidades, como a História da Cultura Material, a História Social a História Econômica ou a História Política (neste último caso, focando a questão dos micropoderes). Raciocínio análogo pode ser encaminhado para outros domínios igualmente abertos, como a História das Religiões ou a História da Sexualidade.

Conforme vemos, os domínios tendem a ser englobados por uma dimensão (são poucos os casos) ou então partilhados preferencialmente por duas ou mais dimensões. Mas é possível ainda que algum campo que hoje esteja sendo tratado como ‘domínio’, mas que possua uma abrangência em potencial, possa vir a transformar-se futuramente em uma ‘dimensão’. A História da Sexualidade tem sido pouco estudada em relação à importância da sexualidade para a vida humana na concretude diária, e é talvez isto o que lhe dá um status de domínio. Mas seguramente esta poderia ser vista como uma dimensão historiográfica tão basilar e fundamental como a Economia, a Política ou as Mentalidades. O que ocorre é que estas não apenas são dimensões significativas que definem a vida humana, elas constituem na verdade ‘macro-campos’, ou tornaram-se ‘macro-campos’ devido à atenção que lhes prestaram os historiadores e outros pensadores.

Vale lembrar ainda que, quando falamos em uma dimensão historiográfica, teremos sempre em conta aquilo que, de modo irredutível, é intrínseco da vida humana, inseparável e não-casual em nenhuma instância. Ao nascer, um ser humano já se encontra automaticamente inscrito em uma determinada relação com a sociedade. Poderá modificar suas relações sociais com o passar do tempo, menos ou mais rapidamente. Mas para o seu próprio existir em uma coletividade sempre deverá desenvolver relações sociais. Isto significa que, queira ou não queira, qualquer ser humano, com a exceção do eremita que habita uma ilha deserta, estará, queira ou não queira, mergulhado até à medula nesta dimensão que é a História Social. E mesmo quanto ao Eremita, pode-se dar que – a não ser que tenha nascido na ilha deserta – esteja mergulhado em uma História Social através de suas lembranças acerca de quando vivia em sociedade, e pode mesmo se dar que a sua decisão pessoal de se ter tornado eremita tenha sido resultado de relações sociais específicas contra as quais reagiu um dia. Do mesmo modo, ao se relacionar com outros homens, qualquer ser humano irá afetar e ser afetado por poderes de todos os tipos. A Política, em sentido amplo, será sempre inseparável do seu existir, e portanto uma História Política, quer ele deseje ou não, termina também por constituí-lo. Este mesmo ser humano também estará sempre produzindo Cultura em suas relações com os homens e com a natureza. Ele não pode apagar isso de sua existência: ao iniciar um simples movimento ou a produzir um simples gesto estará automaticamente produzindo cultura. A História Cultural, esta dimensão incontornável, inscreve-se indelevelmente nos seus menores gestos.

Contudo, em que pese que boa parte dos seres humanos possua alguma forma de Religião – a verdade é que, no limite, pode-se imaginar perfeitamente um homem, ou até uma humanidade, sem religião. A religião é uma contingência da vida humana, embora uma contingência perene, duradoura, e que pode mesmo se eternizar – mas não é propriamente intrínseca à natureza humana, e é esta uma das razões pelas quais podemos classificar a História da Religião como um domínio, e não como uma dimensão. De mesmo modo, em que pese que metade dos seres humanos seja do sexo feminino, e que uma boa parte da humanidade seja constituída de jovens, não será adequado classificar a História das Mulheres ou a História dos Jovens senão como domínios, e um raciocínio similar poderia ser formulado para a História Rural ou para a História Urbana, apenas para mencionar alguns dos domínios mais abrangentes, já que para os domínios mais específicos o seu nível de restrição e contingência torna-se ainda mais evidente (por exemplo, a História da Loucura, a História do Direito, a História da Arte, a História dos Marginais, a História do Vestuário, e inúmeros outros imagináveis). De igual maneira, uma História da Doença não pode ser senão um domínio historiográfico, e não uma dimensão, uma vez que estamos aqui falando em uma circunstância da vida humana (“estar doente” ou “ter saúde” são circunstâncias que se alternam na vida individual de qualquer ser humano).

As fronteiras entre as modalidades historiográficas produzidas a partir dos três critérios – dimensões, abordagens e domínios – são por vezes ambíguas e interpenetrantes, mas de todo modo constituem um problema teórico bastante interessante. Por outro lado, apesar da vertiginosa multiplicação contemporânea de modalidades internas ao saber historiográfico, é preciso neste momento tocar em uma questão de máxima importância para a historiografia de nossos dias, considerando que esta presentemente luta contra crises provocadas por fragmentações diversas em relação ao tipo de conhecimento que é produzido pelos historiadores. Na verdade, os “campos históricos”, ou as modalidades da história, não devem ser vistos como compartimentos nos quais se situariam os historiadores, ou mesmo seus trabalhos mais específicos. Para utilizar uma imagem emprestada à Física, diremos que os “campos históricos” são como campos de força que se interconectam em função de uma pesquisa ou reflexão historiográfica que está sendo produzida por determinado historiador em um momento específico. Os ‘campos históricos’, ou aquilo que se produz na interconexão entre eles, são espaços de interatividade, dimensões nas quais se operam os diálogos historiográficos. Nada mais danoso para o conhecimento histórico do que a hiper-especialização de um historiador, que passe a trabalhar ou a se definir em termos de um único campo histórico.

Em confronto contra esta prática, o fato é que os diversos trabalhos e pesquisas historiográficas não se realizam no interior de um só campo da história, como a História Econômica ou a História Cultural. Os temas historiográficos examinados pelos historiadores, e também os modos de ver e de tratar metodologicamente com estes temas, chamam para si uma certa conexão de ‘campos históricos’. Digamos, por exemplo, que um determinado historiador esteja estudando as “canções de protesto no período da Ditadura Militar no Brasil (1965-1985)”. Um tema como este – ao tratar de Música, de Poesia e de Cultura Popular – parece inscrever-se de imediato no âmbito da História Cultural. Contudo, se pretendemos investigar o papel das canções de protesto na crítica do Regime Militar, não podemos deixar de pensar também na História Política. Duas dimensões, a História Cultural e a História Política, são chamadas aqui a uma interconexão, sem contar o domínio da História da Música, que também deve ser evocado. Contudo, se a pesquisa pretende ser desenvolvida principalmente a partir de entrevistas com agentes históricos que vivenciaram aquele período (os músicos, os censores, o público, os diversos profissionais da indústria cultural, os críticos musicais), estaremos necessariamente chamando para o nosso estudo um outro campo histórico, que é a ‘abordagem’ da História Oral – uma modalidade da história que pode ser definida pelo trabalho específico com a ‘memória’ dos agentes históricos que vivenciaram determinados processos histórico-sociais, e pela utilização de metodologias específicas, como a das entrevistas.

Qualquer exercício de imaginar que ‘campos históricos’ estariam sendo evocados por determinado trabalho historiográfico que está sendo realizado, ou que está em vias de começar a ser realizado, pode conduzir-nos a raciocínios análogos. Os ‘campos históricos’ não são prisões para os historiadores, mas meios para que possam ser estabelecidos certos diálogos – diálogos no interior da história, quando são colocados em conexão dois ou mais ‘campos históricos’, ou diálogos “interdisciplinares”, que são aqueles produzidos pelas relações da Histórica com outras modalidades de saber como a Antropologia, a Economia, a Psicologia, a Lingüística, a Geografia, e inúmeros outros âmbitos de conhecimento.

Conhecer mais a fundo determinado ‘campo histórico’ deve ser visto, na verdade, como uma oportunidade de evocar toda uma historiografia já realizada em diálogo com aquele campo. Os campos históricos não devem ser tratados como compartimentos, como ‘lotes’ nos quais se divide a história. Devem ser compreendidos como dimensões, abordagens e domínios que se interpenetram. O que possibilita a conexão de certos campos históricos, em um momento específico que é o da realização da pesquisa e da reflexão historiográfica, é o objeto de estudo constituído pelo historiador. É este objeto de estudo que chamará a si certas possibilidades de conexões entre os campos históricos.

A noção de “campo”, de modo a ser explorada em toda a sua riqueza no que concerne às possibilidades de seu emprego com vistas a uma reflexão sobre as modalidades internas da História, pode dialogar diretamente com seus dois sentidos possíveis. “Campo” pode remeter a ‘espaço físico’, a um lugar no qual se organiza algo ou dentro do qual se dão determinados embates e alinhamentos; mas, de outra parte, a mesma palavra “campo” também pode reenviar ao sentido quântico, ao “campo de forças”.

O uso metafórico de “campo” como “espaço físico” pode ser antes de mais nada evocado, tal como o fez Pierre Bourdieu (1930-2002), para se referir a uma disciplina específica como o campo dos estudos e da produção literária[4] – ou também, em nosso caso, a História, aqui entendida como lugar de produção de uma forma específica de conhecimento que é lavada a cabo pelos historiadores. Existe, neste sentido mais amplo, um “Campo da História” que se apresenta como espaço disciplinar no qual se movimentam intelectualmente os historiadores através de suas obras, e no interior do qual se estabelece a “Matriz Disciplinar da História” ditando suas regras mínimas e aquelas práticas consensuais que unificam todos os historiadores. É assim que, como qualquer outro “campo disciplinar”, o Campo da História pode ser visto metaforicamente como uma complexa Arena no interior da qual se alinham e se enfrentam virtualmente os diversos historiadores, com suas múltiplas e cambiantes posições relacionadas às várias temáticas pertinentes ao seu universo de estudos, e também com seus modos específicos de considerar o seu próprio ofício de historiadores.

De igual maneira, nesse espaço “físico”, que é o Campo da História são produzidos os vários paradigmas e correntes teóricas (o Positivismo, o Historicismo, este ou aquele Materialismo Histórico, esta ou aquela leitura sobre as possibilidades de aplicar o modelo de Max Weber ao estudo da história), ao mesmo tempo em que também são gerados os inúmeros “campos históricos” que correspondem às modalidades internas da História – a História Política, a História Cultural, a História Oral, a História da Música, e tantas quantas se possa imaginar. Mas aqui – quando estivermos nos referindo não mais a um “Campo da História”, e sim aos diversos “campos históricos” – o conceito de “campo” já estará sendo mais bem empregado no sentido de “campo de força”, porque então poderemos compreender que na verdade vários “campos históricos” confluem para favorecer a visibilidade ou, mais propriamente, a constituição de um determinado objeto historiográfico – a “História das canções de protesto no período da Ditadura Militar de meados dos anos 1960 aos meados dos anos 1980”, por exemplo.

Podemos encontrar na conferência de Pierre Bourdieu sobre Os usos sociais da Ciência (1997), uma genial passagem na qual o sociólogo francês reenvia a Einstein uma metáfora sobre o “espaço físico” que um dia foi concretizada pelo célebre cientista:

“Os agentes [que se estabelecem ou circulam no interior de um campo] – por exemplo, as empresas no caso do campo econômico – criam o espaço, e o espaço só existe (de alguma maneira) pelos agentes e pelas relações objetivas entre os agentes que aí se encontram. Uma grande empresa deforma todo o espaço econômico conferindo-lhe uma certa estrutura. No campo científico, Einstein, tal como uma grande empresa, deformou todo o espaço em torno de si. Essa metáfora “einsteniana” a propósito do próprio Einstein significa que não há físico, pequeno ou grande, em Brioude ou em Harvard que (independentemente de qualquer contato direto, de qualquer interação) não tenha sido tocado, perturbado, marginalizado pela intervenção de Einstein, tanto quanto um grande estabelecimento que, ao baixar seus preços, lança fora do espaço econômico toda uma população de pequenos empresários.” (BOURDIEU, 2003, p.23).

Iremos ainda mais longe, emprestando talvez uma certa tonalidade foucaultiana a estas considerações de Bourdieu, para sugerir que não apenas um grande Físico modifica a Física com sua genial contribuição, mas que, na verdade, qualquer praticante de um determinado campo de conhecimento já o modifica de alguma maneira, mesmo que de forma indelével, no momento em que adentra o campo disciplinar. Assim, o mais humilde dos estudantes-pesquisadores de Iniciação Científica já está modificando a História no momento mesmo em que se introduz no seu estudo, e isto ocorre porque a História é um campo disciplinar produzido coletivamente, pela integral de todas as contribuições que nela se inscrevem. Interferem no ‘Campo da História’ mesmo os leitores de História – pois o fato é que é muito diversificada a população de interessados no conhecimento ou nos discursos produzidos pelos historiadores. O mundo dos leitores, conforme ressaltou certa vez Paul Ricoeur (1982), reconfigura a própria História. No limite, podemos dizer que sempre que alguém abre um livro de história, já está interferindo, ainda que de maneira indelével e imperceptível, no próprio campo disciplinar da História[5].

Afora a noção mais ampliada de “Campo da História”, que coincide com o próprio universo desta disciplina freqüentada pelos historiadores e cujos resultados podem ser apreendidos por todos os tipos de leitores, interessa-nos em maior detalhe a noção mais restrita de “campo histórico”. O “Campo da História” produz no seu interior inúmeros “campos históricos”, uns em conexão com outros. A configuração dos “campos históricos”, no interior da disciplina História, está em perpétua mutação. O que hoje se mostra uma conexão possível entre determinados ‘campos históricos’, com vistas a abordar determinado objeto de estudo ou a percorrer certa temática, pode não ter sido, em outro momento da história da historiografia, uma conexão possível. Esta ou aquela modalidade historiográfica que hoje é tão visitada pelos historiadores, e que desperta tanto interesse da parte dos leitores, pode ter sido marcada em outro momento por um interesse secundário, inexistente, ou ter sido mesmo proibida. Um certo ‘campo histórico’ pode não ter feito parte da imaginação possível dos historiadores de determinada época. Quem imaginaria uma “História das Mulheres” no século XVI, ou mesmo até o século XIX?

O Campo da História – assim como qualquer outro campo científico ou artístico – é reconfigurado por dentro e por fora. Pierre Bourdieu, em sua teoria geral dos campos, define o “campo” como um espaço relativamente autônomo – “um microcosmo dotado de suas próprias leis” (BOURDIEU, 2003, p.20). Mas, ao mesmo tempo, ressalta que é preciso guardar distância de certa tradição analítica que “descreve o processo de perpetuação da ciência como uma espécie de partenogênese: a ciência engendrando-se a si própria, fora de qualquer intervenção do mundo social” (BOURDIEU, 2003, p.20). Michel de Certeau (1973) já demonstrou brilhantemente que a História está inscrita em um “lugar de produção”. A comunidade dos historiadores, suas instituições, suas demandas, sua escrita, interferem diuturnamente na reconfiguração do Campo da História. Mas também as demandas externas têm o seu lugar. A “História Demográfica”, como novo ‘campo histórico’ que se afirma mais intensamente nos anos 1950, não o faz senão em um contexto assinalado pelo preocupante crescimento populacional que se torna a marca do século XX. A emergência da “História Comparada”, proposta como abordagem por Marc Bloch nos anos 1920, acompanha a decepção de certos setores da intelectualidade européia frente aos nacionalismos exacerbados que haviam levado o mundo à Primeira Grande Guerra: romper as amarras das histórias nacionais, voltadas para o estudo de um único país, parece ter se mostrado ao historiador francês como um caminho que poderia ser experimentado por aquele novo ‘campo histórico’ que pretendia comparar dois recortes historiográficos distintos, duas sociedades, duas realidades em iluminação recíproca[6]. Motivações similares diante dos horrores das Guerras Mundiais também teriam levado Spengler (1918) e Arnold Toynbee (1934-1961) a retomar o ‘campo histórico’ da “História das Civilizações”, que estava um pouco esquecido desde fins do século XIX. E o próprio crescimento da “História Local” também constitui uma nova alternativa às antigas “histórias nacionais”, recortando no espaço uma “região” que pode ou não se situar inteiramente dentro de uma realidade nacional específica[7]. Os ‘campos históricos’, enfim, redefinem-se a partir desta complexa dialética que se instaura entre o interior e o exterior do Campo da História.

Para além dos ‘campos históricos’ atrás definidos em termos de ‘dimensões’, ‘abordagens’ e ‘domínios’, e ao lado da intrincada rede de conexões que estes estabelecem, é importante lembrar, ainda, que a História tem sido também dividida, tradicionalmente, de acordo com ‘espacialidades’ e ‘temporalidades’. O critério das Temporalidades gera modalidades como a História Antiga, História Medieval, História Moderna, História Contemporânea. O critério das Espacialidades gera modalidades como a História Européia, a História da América, a História da África, a História do Brasil, ou as inúmeras histórias de realidades nacionais específicas. Uma ampliação da escala de observação espacial, em direção ao supra-nacional, pode gerar a História das Civilizações (se incorporarmos o conceito de “civilização”), ou, se pensarmos apenas em termos de um agregado planetário, um âmbito mais vasto denominado “História Universal”. Outras divisões relacionadas à espacialidade também podem ser pensadas, como a “História do Ocidente” ou “História do Oriente” (conceitos que sempre precisam ser problematizados, pois bem que poderia ser pensada uma “História do Hemisfério Sul” por oposição a uma “História do Hemisfério Norte”, se olhássemos para o planeta de acordo com uma outra leitura geopolítica). Por fim, é possível combinar “temporalidades” e “espacialidades” para gerar denominações específicas de modalidades históricas, como a “História da América Antiga”, a “História do Brasil Império”, ou a “História do Brasil República” (Quadro 2).

Quadro 2: Modalidades da História por Espacialidade e Temporalidade. Alguns exemplos

Naturalmente que a combinação dos critérios da Espacialidade e da Temporalidade gera dilemas e problemas teóricos interessantes, nem sempre fáceis de resolver. Como situar a História do Império Romano, se este, em sua fase de maior expansão, abrangeu vastas regiões da Europa, Ásia e África? De igual maneira, o domínio grego, no período de apogeu militar das ligas Ateniense e Espartana, estendeu-se pela Europa e pela Ásia Menor, o que também inspira dilemas análogos[8]. Há ainda questões outras teóricas interessantes: embora a História Européia possa gerar as tradicionais divisões da História Antiga, da História Medieval, da História Moderna e da História Contemporânea, a História da América não se adéqua bem a esta tábua de leitura, uma vez que não há uma diferença plausível entre uma América Antiga e outra América Medieval que faça qualquer sentido para as sociedades que existiam no período pré-colombiano. De modo geral, denomina-se como “História da América Antiga” a todo o período da História da América que precede a colonização européia a partir da chegada dos espanhóis, dos portugueses, e depois dos ingleses. A série de “Histórias do Brasil”, em contrapartida, também tem as suas especificidades. Prefere-se dividi-la de acordo com sua situação no quadro político externo e interno: um ‘Brasil-Colônia’, um ‘Brasil Império’ já independente, e um ‘Brasil República’. Polêmicas conceituais também podem ocorrer quando estendemos para trás o olhar acerca de uma determinada realidade nacional. O Brasil do período colonial era já “Brasil”, ou seria melhor chamá-lo de “América Portuguesa”?[9].

Deve-se entender, antes de tudo, que os diversos critérios de divisão temporal, que hoje nos são tão familiares e corriqueiros a ponto de os discutirmos muito pouco, são eles mesmos históricos. Mais ainda, nem sempre foram tão gloriosos os começos de todos os “conceitos” que ocupam lugar de honra na Teoria da História. A “Idade Média”, por exemplo – uma modalidade temporal da História que tem sido universo de dedicação de alguns dos mais renomados historiadores europeus, tais como Marc Bloch, Georges Duby e Jacques Le Goff – traz na sua designação uma história à qual não faltaram as imposições depreciativas. Houve uma época em que a expressão “tempos médios” era empregada pela História Teológica para designar um momento da história mundana que já se demorava na sua função de preceder os “finais dos tempos”, estes nos quais um novo mundo se abriria definitivamente para os seres humanos considerados dignos da salvação, ao passo em que outros tantos mergulhariam na danação eterna. Mas depois, com o humanismo que começa a emergir na Itália da época de Petrarca (1304-1374), os “tempos médios” vão designar este longo período “bárbaro” e “sombrio” que se parecia se interpor de maneira incômoda entre o glorioso modelo da antiguidade clássica e os novos tempos humanistas que o queriam recuperar no trecento italiano[10]. Mas rigorosamente falando, tal como assinala Reinhart Koselleck (2006, p.271), parece ter sido Christoph Cellarius (1639-1707), em um manual escrito em 1685, um dos primeiros a já consolidar o uso da expressão “idade média” como designativo de uma das divisões da História Universal (1696), em uma obra que teve tanta repercussão que em 1753 já tinha atingido a sua 11ª edição[11]. A partir daí, “o conceito de Idade Média generalizou-se no século XVIII dos iluministas – quase sempre em sentido pejorativo – para transformar-se, no século XIX, em um topus fixo da periodização histórica” (KOSELLECK, 2006, p.271).

Estes exemplos em torno da trajetória de uma designação que percorre sentidos vários, entre outras investigações de trajetórias semânticas que poderiam se referir à “Idade Antiga”, “Idade Moderna”, “Idade Contemporânea”, “Modernidade”, “Pós-Modernidade” – mostram claramente a historicidade dos próprios conceitos e categorias utilizadas para abordar a questão mesma da ‘historicidade’[12]. Neste quadro de problemas teóricos, ocupam lugar de destaque as intrincadas polêmicas sobre os limites que separam determinadas temporalidades. Quando se encerra a Idade Antiga e inicia-se a Idade Medieval? De acordo com as distintas teorias sobre a desagregação, desarticulação, queda, declínio ou transformação cultural do Império Romano, as datas ou períodos de separação ou transição entre uma época e outra podem oscilar historiograficamente de modo considerável, e já foram propostas interpretações que sinalizam a passagem de um pra o outro período em momentos diversificados no interior de um período de consideráveis extensões que vai do século II ao século VIII. Novos conceitos também podem surgir destas oscilações interpretativas: a “Antiguidade Tardia” pode se estender Idade Média adentro, disputando territórios historiográficos com a “Alta Idade Média”[13].

Também são ambíguas as fronteiras entre a Idade Média e a Idade Moderna[14], e ainda mais aquelas que podem ser estabelecidas ou propostas entre a Idade Moderna e a Idade Contemporânea[15]. De igual maneira, quando pensamos no mundo contemporâneo, que período estaríamos vivendo agora, nesta era tão peculiar que se inicia nas últimas décadas do século XX e que adentra o novo milênio: uma Idade Pós-Industrial?, um período Pós-Moderno?, uma fase avançada do Capitalismo Tardio? Surgirá um dia a “História Pós-Moderna”? Na medida em que avançarmos para o Futuro, será necessário redefinirmos toda a tábua tradicional de leitura habitualmente aceita para as temporalidades históricas, já que a “história contemporânea” de hoje será do passado, da mesma forma que a “história moderna” já não é mais moderna? A largas pinceladas, será útil rediscutir as modalidades temporais da História em termos de uma “História da Era Agrícola”, uma “História da Era Industrial”, e a mais recente “História da Era Digital”?

As subdivisões da História sempre geram problemas teóricos a serem resolvidos. Será desnecessário lembrar que a organização da História por modalidades internas que combinam os critérios da ‘espacialidade’ e da ‘temporalidade’ constituem apenas recursos para organizar o trabalho historiográfico em um primeiro momento, mas não são grilhões ou compartimentos para aprisionar os objetos históricos, que inúmeras vezes não correspondem aos espaços nacionais rigidamente estabelecidos, ou balizas temporais inflexíveis[16].

O conceito de ‘campo histórico’, de todo modo, seja no que se refere ao circuito de conexões anteriormente discutido (dimensões, abordagens e domínios), ou seja que se refere à combinação dos critérios de espacialidade e temporalidade, é um conceito importante que pode ser evocado para um estudo mais sistemático e consistente da Teoria da História. É possível utilizar este conceito para melhor compreendermos os encaminhamentos da historiografia contemporânea, o mesmo se dando com os conceitos de “paradigma”, “matriz disciplinar”. “escola histórica”, “filosofia da história”, ou com as diversas acepções possíveis da noção de “teoria da história” – apenas para citar alguns dos outros conceitos que tem contribuído para organizar o pensamento sobre a historiografia e sobre a Teoria da História.

REFERÊNCIAS

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[1] Professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), nos Cursos de Mestrado e Graduação em História, onde leciona disciplinas ligadas ao campo da Teoria e Metodologia da História, História da Arte. Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Entre suas publicações mais recentes, destacam-se os livros O Campo da História (Petrópolis: Vozes, 2004), O Projeto de Pesquisa em História (Petrópolis: Vozes, 2005), Cidade e História (Petrópolis: Vozes, 2007) e A Construção Social da Cor (Petrópolis: Vozes, 2009).

[2] Em contrapartida, a expressão “domínios” poderá ser utilizada para as modalidades historiográficas (isto é, para aqueles “campos históricos” que correspondem a temas específicos ou a campos temáticos). Logo adiante falaremos sobre isto.

[3] Os historiadores franceses ligados à “História Nova”, por exemplo, organizaram algumas coletâneas de ensaios sobre as diversas modalidades da História, sendo dois dos mais conhecidos a coletânea La Nouvelle Histoire (1978), organizada por Jacques Le Goff, e a coletânea Faire de l’Histoire (1974), organizada por Pierre Nora e Le Goff. Estas coletâneas constituem, hoje, fontes importantes para a própria história da historiografia, já que refletem um contexto específico que é o da passagem da era dos grandes paradigmas historiográficos para um novo momento na história da historiografia, trazido pelas últimas décadas do século XX. Procurando abarcar um circuito historiográfico para além da França, o historiador inglês Peter Burke fez algo similar com a coletânea A Escrita da História (1992). Há ainda coletâneas de ensaios sobre uma única modalidade, como a História Cultural ou a História Política. Foi o caso, e aqui damos apenas dois dos muitos exemplos, do livro organizado por Lynn Hunt sob o título A Nova História Cultural (1992), ou da coletânea Por uma Nova História Política, organizada por René Remond (1988). No Brasil temos na coletânea Domínios da História (1997), organizada por Ciro Flamarion Cardoso e Ronaldo Vainfas, um bom exemplo do interesse pelo estudo das modalidades da história. De nossa parte, abordamos o tema em O Campo da História (2008, 6ª edição).

[4] A proposta de uma “teoria geral dos campos” é encaminhada por Pierre Bourdieu no ensaio O Campo Científico (1976) e mais particularmente no livro As regras da arte – gênese e estrutura do campo literário (1992). O sociólogo francês retorna ao tema de maneira particularmente esclarecedora na conferência publicada com o título Os usos sociais da ciência – por uma sociologia clínica do campo científico (1997). Nesta última obra encontraremos a seguinte passagem, particularmente expressiva: “Todo campo, o campo científico, por exemplo, é um campo de forças e um campo de lutas para conservar esse campo de forças. Pode-se, num primeiro momento, descrever um espaço científico ou um espaço religioso como um mundo físico, comportando as relações de força, as relações de dominação” (BOURDIEU, 2003, p.22-23). Em outra passagem, Bourdieu esclarece: “A noção de campo está aí para designar esse espaço relativamente autônomo, esse microcosmo dotado de suas leis próprias” (2003, p.21).

[5] No limite, conforme argumentam Gilles Deleuze e Félix Guattari, pode-se pensar um livro para muito além da sua autoria, até um ponto em que podemos dissolvê-la de modo a enxergar o livro de uma nova maneira: “Um livro não tem objeto nem sujeito, é feito de matérias diferentemente formadas, de datas e velocidades muito diferentes. Desde que se atribui um livro a um sujeito, negligencia-se este trabalho das matérias e a exterioridade de suas correlações” (DELEUZE e GUATTARI, 1995, p.11) [original: 1980].

[6] Em 1928, Marc Bloch publicaria, na Revue de Synthèse Historique, um artigo intitulado “Pour une histoire comparée des sociétés européenes” (BLOCH, 1928, p.15-50). Mas antes disto já havia realizado o seu primeiro grande estudo de História Comparada com a obra Os Reis Taumaturgos (1924), que examina um fenômeno específico relacionado ao imaginário da realeza através da comparação entre as sociedades medievais da França e da Inglaterra. Existe ainda outro texto pertinente de Bloch acerca da “Comparação” em História (1930). / Sobre Mark Bloch, ver FINK, 1995.

[7] Para além da consideração relativa às pressões externas que afetam um campo, é importante também ter em vista o outro pólo da questão, para o qual Pierre Bourdieu chama atenção em suas reflexões sobre uma “teoria geral dos campos”, sintetizadas em Os usos sociais da Ciência (1997): “Este capital [o ‘capital científico’, que é possuído pelos integrantes mais notórios de determinado campo de saber], pertencente a um tipo inteiramente particular, repousa, por sua vez, sobre o reconhecimento de uma competência que, para além dos efeitos que ela produz e em parte mediante esses efeitos, proporciona autoridade e contribui para definir não somente as regras do jogo, mas também suas regularidades, as leis segundo as quais vão se distribuir os lucros nesse jogo, as leis que fazem que seja ou não importante escrever sobre tal tema, que é brilhante ou ultrapassado” (BOURDIEU, 2003, p.27).

[8] Convocar a Civilização Greco-Romana para a História do ocidente, aliás, constitui já um ponto de vista teórico, e também ideológico. Há uma certa maneira de ver as coisas que permite escolher o mundo Greco-romano como uma das bases civilizacionais do Ocidente Cristão.

[9] América Portuguesa, por exemplo, foi o nome que um historiador no século XVIII – Rocha Pitta – preferiu para designar, em 1730, a vasta extensão sob domínio português que depois daria origem ao Brasil independente (1976).

[10] Sobre os primórdios da noção de uma “idade média sombria”, nos escritos de Petrarca, um estudo de referência é o de T. E. MOMMSEN, 1942, p.226-242.

[11] A expressão “idades médias”, ou “tempos médios”, já aparece no século XV com os humanistas italianos Leonardo Bruni (c.1374-1444) e Flávio Biondo (c.1362-1493); e, antes dele, conforme já foi ressaltado, Petrarca se referira aos “tempos sombrios” que se situavam entre a Antiguidade Greco-Romana e os novos tempos que começavam a retomar mais enfaticamente as referências da antiguidade clássica. Mas o uso da expressão “Idade Média” como claro designativo de um período de tempo a ser inserido em uma estrutura tripartida para a compreensão da história pode ser mesmo atribuído ao erudito alemão Christoph Cellarius, que já divide a sua História Universal nos períodos “Antigo”, “Medieval” e “Novo”.

[12] Também a tendência a pensar nos séculos como unidades de sentido histórico tem a sua história, como tão bem assinala Reinhart Koselleck: “[...] a partir do século XVII eles [os séculos] adquirem cada vez mais pretensões históricas próprias. Passam a ser entendidos como unidades coerentes de sentido. O século do Iluminismo já é pensado assim pelos contemporâneos, estando consciente, por exemplo em Voltaire, de ser diferente do século de Luís XIV” (KOSELLECK, 2006, p.283).

[13] Na Alemanha, Alois Riegl, com seu livro sobre a arte nos últimos tempos da Roma Antiga (Arte Tardo-romana) foi dos primeiros a popularizar o conceito de Spätantike (“Antiguidade Tardia”). Mais recentemente, o historiador irlandês Peter Brown (n.1935) consolidou o uso do conceito na língua inglesa, com os livros The World of Late Antiquity (1971) e The Making of Late Antiquity (1978). Para Brown, a “Antiguidade Tardia” não corresponderia a um período de declínio, mas a um tempo de recomeços, de novas redefinições sociais e culturais que, ainda assim, poderiam ser localizadas dentro dos quadros da Idade Antiga.

[14] Os processos e eventos sinalizadores da Idade Moderna, muito evocados para a delimitação deste período, são vários, entre os quais a (1) Reforma – que institui definitivamente um mundo cristão dividido em várias Igrejas, quebrando de uma vez por todas a pretensão de controle papal sobre toda a religiosidade cristã – bem como (2) o fortalecimento das monarquias absolutas, (3) o deslocamento, em relação ao eixo marítimo principal, do Mediterrâneo para o Atlântico, (4) a expansão européia através das grandes navegações, com a subsequente conquista das Américas, e (5) a mundialização através do comércio de longo alcance. Outro evento importante, que chegou mesmo a ser estabelecido como marco, foi (6) a tomada de Constantinopla pelos turcos, colocando um fim no Império Bizantino, que persistira e resistira durante todo o período medieval, e firmando as fronteiras da expansão islâmica contra a cristandade. Em termos do paradigma apoiado no Materialismo Histórico, (7) o declínio do ‘modo de produção feudal’, apesar de suas persistências até períodos avançados do Antigo Regime, permite que por esta mesma época de transição se entreveja a formação de um modo de produção capitalista, ainda na sua fase mercantilista.

[15] Na historiografia européia, convencionou-se pensar nos marcos da Revolução Francesa e do movimento de Independência Americana como sinalizadores iniciais de um novo período que seria chamado de “História Contemporânea”. Embora sejam sinalizadores carregados de euro-centrismo, e mesmo de franco-centrismo, a escolha do período iluminista como marco inicial da contemporaneidade encontra respaldo na percepção de que os iluministas, e particularmente os homens envolvidos com as lutas revolucionárias na França, passaram a incorporar um sentimento intenso de que estavam fazendo história no seu próprio tempo presente, sendo já personagens de uma nova era. De modo geral, mesmo os historiadores fora da França e em período posterior não questionaram a validade deste marco ou de uma distinção entre a “história contemporânea” e a “história moderna”. Koselleck, no capítulo “Modernidade” de seu Futuro Passado (1979), registra as seguintes observações sobre Ranke: “Ranke, enquanto ensinou, sempre de novo se referia à ‘história dos tempos mais recentes’ ou ‘história contemporânea’, que, dependendo da temática, ele fazia começar com o velho Frederico [rei da Prússia] ou com a Revolução Francesa ou a Americana. Só quando falava da história que lhe era contemporânea é que se desviava do uso lingüístico tradicional, chamando-a de ‘história de nosso tempo’” (KOSELLECK, 1979, p.281). Prenuncia-se então, também aqui, um novo conceito que seria o da “História do Tempo Presente”. Com relação ao “sentimento do novo” entre os europeus do final do século XVIII, é também Koselleck (p.180) quem traz à luz esta passagem de H. G. M. Köster, escrita em 1787 para o verbete “História” da Enciclopédia Alemã: “quase toda a Europa ganhou uma configuração totalmente diferente {...} e quase aparecer nesta parte do mundo uma nova raça de homens” (KÖSTER, Deutsche Encyclopedie, 1787, p.657). / De resto, cumpre observar que a passagem da Idade Moderna para a Idade Contemporânea tem como processo distintivo importante o advento da Era Industrial.

[16] Sobre isto, Paul Veyne faz uma interessante observação: “Uma vez que todo acontecimento é tão histórico quanto um outro, pode-se dividir o campo factual com toda liberdade. Como se explica que ainda se insiste em dividi-lo tradicionalmente segundo o espaço e o tempo, ‘história da França’ ou ‘o século XVII’, segundo singularidades e não especificidades? Por que ainda são raros livros intitulados: ‘O Messianismo revolucionário através da História?’, ‘As Hierarquias Sociais de 1450 a nossos dias, na França, China, Tibet e URSS’ ou ‘paz e guerra entre as nações’, para parafrasear títulos de três obras recentes? Não seria uma sobrevivência da adesão original à singularidade dos acontecimentos e do passado nacional?” (VEYNE, 1982, p.42).