ISSN 1807-1783                atualizado em 07 de julho de 2009   


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A construção da imagem de uma cultura africana e afro-descendente

por José Alexandre da Silva

Castanha, Marilda. Agbalá: um lugar-continente. São Paulo, Cosac Naif, 2008.

Sobre o autor[1]

No atual contexto, em que a Lei 10.639/03 institui o Ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Africana, é muito útil ao público em geral, o livro da artista plástica Marilda Castanho, responsável por texto e ilustrações, Agbalá: um lugar-continente. Obra editada pela Cosac Nayf, em 2008, e distribuída em escolas públicas pelo Governo Federal através do PNBE/2009, apresenta de forma concisa elementos da cultura afro-brasileira que representam um mundo ainda pouco conhecido de forma digna e positiva. Entre os temas explorados pela autora estão: a imigração forçosa de africanos para nosso país, a situação degradante do tráfico, da vida e do trabalho dos africanos aqui, mas também das contribuições que estes trouxeram em matéria de religião, cultura e costumes.

A autora procura utilizar em seu texto jogos de palavras, num estilo antes usado na historiografia brasileira[2], que dão uma impressão de passagem e mudança nos processos vividos pelos africanos: ‘De costa a costa’, ‘De palavras a marcas’, ‘Da Senzala ao campo’. Assim, existe a passagem da costa atlântica africana para a nova terra onde viveriam escravizados de uma maneira muito diferente á escravidão africana; não raro eram realizados rituais com o objetivo de fazer o africano esquecer de sua vida pregressa antes de embarcar. No seu mundo quando nasciam recebiam nomes relacionados a seus ancestrais ou à natureza, diferente do novo mundo onde receberiam nomes ocidentais quando fossem batizados por seus senhores, afinal cristianizar os selvagens, era um dever do bom cristão. Os mesmos cristãos que para marcar suas propriedades ou manter a disciplina de seus escravos conferiam novas marcas aos corpos destes, fosse com ferro em brasa ou rebenque. Neste novo mundo ainda teriam que empunhar ferramentas que construiriam a riqueza de seus senhores e não, como antes, dariam o sustento de sua família.

Entretanto, os africanos não figuram como derrotados, mesmo aceitando as regras do novo mundo procuravam formas de rebeldia e resistência formando quilombos, assassinando o feitor, comprando sua liberdade ajudando parentes e companheiros de cativeiro a fazerem o mesmo. Não podemos nos esquecer de formas de resistências mais veladas, como a utilização de sapatos, proibido aos escravos, e o culto a seus deuses. Estes aqui adquiriram feições sincretizadas, ou hibridizadas, com santos católicos, mas não abandonaram seus filhos que os trouxeram consigo e os cultuaram tornando seus espaços religiosos lugar de resistência. São dimensões de um longo processo que ainda está por terminar, considerando que os afro-descendentes no Brasil ainda têm que lutar por igualdade em vários âmbitos.

As imagens do livro procuram representar os símbolos e o jeito de viver, que os africanos trouxeram ao Brasil, as roupas, o gestual de tantos povos que ajudaram a construir nosso país. Algumas são nítidas releituras de imagens realizadas por artistas estrangeiros, mas sem o ranço colonialista e despidas do preconceito que involuntariamente, ou não, aqueles artistas expressavam em suas obras. Vemos também alguns elementos simbólicos, como pássaros ou répteis, o colorido da roupa dos orixás, representados nas suas dimensões masculina e feminina, conjuntos que lembram moradias de antigos reinos africanos entre tantas outras coisas quanto o Agbalá do leitor permitir interpretar.

Se a crítica de um livro, e a visão da autora sobre o mesmo, constituem dimensões importantes deste, não podemos deixar de frisar o comentário generoso de Leila Leite Hernandez, estudiosa da cultura afro-brasileira, sobre as belas ilustrações e a cuidadosa pesquisa bibliográfica da obra. Já para Castanho a dimensão afetiva das pessoas simples que a incentivaram tanto como as leituras rigorosas por parte de historiadores e estudiosos sobressaem em seu comentário explicativo da existência da obra em um tom de agradecimento. Podemos dizer que estamos diante de um trabalho artístico que também conta com um rigor científico. Se a construção de narrativas, sobre a história dos afro-descendentes, for uma ferramenta útil na luta por um mundo que também seja para os negros, podemos dizer que Agbalá tem uma função à qual bem serve e teve importância reconhecida com o Prêmio Melhor Livro Informativo FNLIJ – 2002.


[1 Professor de História da Secretaria de Estado da Educação do Paraná e membro do Grupo de Estudos em Didática da História (GEDHI).

[2] Lembremos o título de COSTA, Emília Viotti da. Da Senzala à Colônia. São Paulo, Editora Unesp, 1998.