ISSN 1807-1783                atualizado em 23 de setembro de 2013   


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Regimes de Historicidade. Presentismo e Experiências do Tempo

por Filipe N. Silva

HARTOG, François. Regimes de Historicidade. Presentismo e Experiências do Tempo. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2013.

Sobre o autor*

Publicado pela primeira vez na França no ano de 2003, e recentemente traduzido no Brasil, o livro Regimes de Historicidade: Presentismo e Experiências do Tempo[1], do historiador francês François Hartog, se apresenta ao público brasileiro carregando consigo a responsabilidade de já ser considerado uma leitura indispensável para os atuais estudos da historiografia. Isso se deve tanto pela sua contribuição em oferecer instrumentos conceituais para uma reflexão sobre as dimensões temporais e os chamados tempos históricos, quanto no que se refere às suas discussões acerca do tempo presente (Nicolazzi, 2010. p.231; Rodrigues & Nicolazzi, 2012. p.352).

Nascido em 1946, François Hartog é professor da École des Hautes Études en Sciences Sociales em Paris desde a década de 1980, onde ministra seminários de historiografia antiga e moderna (Rodrigues & Nicolazzi, 2012. p.352). A produção acadêmica do autor[2], em boa medida, encontra-se articulada sob o intuito de evidenciar a dimensão temporal que seria inerente não apenas à escrita histórica, mas, também a todas as relações humanas com o tempo. Para Hartog, é central a ideia de que estas relações sejam mediadas pelo que ele chama de regime de historicidade: categoria analítica construída pelo historiador que serviria para caracterizar uma maneira de engrenar passado, presente e futuro ou de compor um misto das três categorias (...) a maneira como um indivíduo ou uma coletividade se instaura e se desenvolve no tempo (Hartog, 2013.p.11-13).

O livro Regimes de Historicidade. Presentismo e Experiências do Tempo apresenta uma estrutura bastante clara, dividida em dois eixos temáticos principais: o primeiro, intitulado Ordem do Tempo 1, apresenta três capítulos nos quais são discutidas, a partir do conceito de regime de historicidade, as relações entre o passado, o presente e o futuro em três estudos de caso específicos.

Em Ilhas da História (primeiro capítulo), François Hartog apresenta as contribuições da Antropologia ao ter evidenciado que as experiências do tempo e da história recorrentes no Ocidente não seriam similares àqueles apresentados em outros territórios, como os observados nas Ilhas Fiji ou no Havaí, por exemplo. Na esteira de Marshall Sahlins, Hartog argumenta que essas ilhas não seriam apenas ilhas na história, mas também produtoras de história, conforme uma ordem do tempo e um regime de historicidade específico (p.59) e que, essa diferença na maneira de lidar com o tempo teria passado por uma verdadeira situação experimental com o mal-entendido que culminou no sacrifício do Capitão Cook no Havaí (Hartog, 2013. p.56-61). A principal crítica que o autor tece ao trabalho do antropólogo, por sua vez, é pelo suposto fato de este não ter promovido comparações e/ou articulações com outras formas de temporalidades históricas já mapeadas pela historiografia (Hartog, 2013. p.63).

No segundo capítulo, intitulado Ulisses e Santo Agostinho: das lágrimas à meditação, Hartog discorre acerca da experiência temporal de Ulisses na Odisséia de Homero: com efeito, a epopéia homérica seria carregada de um eterno retorno, onde o passado (de forma diferente das narrativas bíblicas) não existe diante do puro presente que recomeça a cada dia da vida de Ulisses (p.67-68). Na perspectiva do autor, o choro de Ulisses diante da intervenção do aedo seria a prova de que, enquanto homem do presente, Odisseu não consegue se reconhecer enquanto o herói da Guerra de Tróia de outrora devido ao não-conhecimento de um tempo passado, tendo, portanto, de encontrar-se na dolorosa posição de dever escutar as narrativas de suas proezas na terceira pessoa (...) experienciando a maior distância de si de maneira brutal (Hartog, 2013. p.77).

Ainda nesse capítulo, a experiência temporal no texto de Homero é comparada à dimensão do tempo presente nas obras de Santo Agostinho com o intuito de argumentar que o cristianismo teria modificado as relações das sociedades ocidentais com o tempo (p.84). Com efeito, a metáfora Ulisses não leu Santo Agostinho serviria para exemplificar que, diferentemente da experiência homérica, a relação cristã com o tempo teria articulado passado, presente e futuro na eternidade e inaugurado um novo tempo de expectativa, um presente habitado pela esperança do fim (Hartog, 2013. p.90).

Em Chateaubriand: entre o antigo e o novo regime de historicidade (terceiro capítulo), François Hartog apresenta a peculiaridade da experiência temporal da obra de Chateaubriand. Produzidos em meados do século XVIII, em uma época conturbada, marcada por uma nova ordem dos tempos modernos, seus escritos se situavam entre o espaço de experiência europeu da Revolução e o horizonte de expectativas a serem desvendadas no continente americano em suas viagens (Hartog, 2013. p.99).

Na esteira de Reinhart Koselleck (p.41-60), Hartog salienta que, entre os anos de 1760 e 1780, a concepção de história magistra vitae teria ruído perante o movimento de aceleração do tempo que marca o conceito moderno de história (Hartog, 2013. p.103; Koselleck, 2006. p.23). Com efeito, por estar situado nessa passagem entre o antigo e o novo regime de historicidade, Chateaubriand pressupunha, a priori, ser possível encontrar na América a imitação dos ideais de liberdade presentes nas sociedades europeias antigas. Entretanto, termina por constatar, depois, ser impossível esclarecer o futuro a partir de antigas experiências históricas (Hartog, 2013. p.129).

O segundo eixo temático do livro, intitulado Ordem do Tempo 2 apresenta dois capítulos e contempla uma discussão acerca do tempo histórico em um momento posterior à transposição do regime da magistra vitae para o conceito moderno de história: François Hartog (p.132), mais uma vez seguindo a contribuição de Koselleck (p.58-59), reconhece que o futuro e a ideia de progresso passaram a ser determinantes no regime moderno de historicidade.

A abordagem de Hartog, todavia, se estrutura no sentido de apontar uma outra ruptura, a partir da qual seria conveniente questionar essa predominância do futuro, sobretudo nas relações temporais que se estabeleceram após a década de 1980. A concordarmos com o autor, faz-se necessário refletir sobre o atual regime de historicidade no sentido de evidenciar o presente como fator determinante dentro da experiência histórica, configurando o que Hartog chama de presentismo. (Hartog, 2013. p.132).

Para o autor, a conjuntura temporal contemporânea estaria passando por uma crise, cujo sintoma principal seria a proliferação dos mecanismos de memória e patrimônio que marcam essa nova relação com o tempo (p.31), isso porque, o futurismo deteriorou-se sob o horizonte e o presentismo o substituiu. O presente tornou-se o horizonte. Sem futuro e sem passado, ele produz diariamente o passado e o futuro de que sempre precisa, um dia após o outro, e valoriza o imediato (Hartog, 2013. p.148).

Os indícios dessa crise presentista também se apresentariam de maneira paradoxal na medida em que, por um lado, pode-se constatar que a despeito de um crescente interesse (inclusive popular) pelo passado, seja nos museus, livros ou programas de televisão, como salienta Gumbrecht (2011. p.28-29). Por outro lado, de acordo com o autor, tem-se reconhecido que a História e o seu conhecimento sobre o passado não são capazes de oferecer modelos e lições de conduta e conhecimento nem ao tempo presente, tampouco promover previsões para o futuro (Gumbrecht, 2011. p.28-29).

O quarto capítulo, intitulado Memória, História, Presente promove uma discussão sobre o papel desempenhado pela memória enquanto um suporte no qual as nações passaram a buscar as suas supostas raízes e identidades no passado, apontando para um gradual processo de conservação e renovação cultural em oposição ao ímpeto de modernização que caracterizou a modernidade (Hartog, 2013. p.151). Na opinião do autor, os arquivos franceses teriam sofrido um aumento significativo a partir do ano de 1945, tendo como ponto culminante uma lei de 1979, específica para tal fim, considerando que os arquivos constituem a memória da nação e uma parte essencial de seu patrimônio histórico (p.152).

Por sua vez, essa preservação da memória, essa conservação do passado, na perspectiva de Hartog, tem suas diretrizes fundamentais na dinâmica social corrente no tempo presente (p.152). Os trabalhos seletivos de recuperação do passado em prol da nação e com o intuito de assegurar (no presente) uma identidade nacional, de acordo com o autor, manifestar-se-iam não apenas sob o exercício da memória, mas, também por meio do patrimônio e das comemorações (p.156).

Com efeito, diante da efervescência mnemônica, a História tratou de circunscrever um espaço específico para a sua relação com o passado e, assim como foi tentado na obra Os lugares da memória organizada por Pierre Nora, o trabalho histórico se dedicou no sentido de problematizar a produção das memórias coletivas (p.158-159), verificar a retomada das histórias nacionais (p.180-181) e colocar em evidência os chamados impulsos memoriais da sociedade francesa (p.165). Para Hartog, vale salientar, tais impulsos sempre foram incentivados a partir de questões e interesses fomentados pelo motor do tempo presente (Hartog, 2013. p.250).

O quinto (e último) capítulo, cujo título é Patrimônio e presente, propõe uma leitura da prática e das políticas de patrimônio à luz do regime de historicidade, caracterizando-os enquanto sintomas da chamada crise do tempo defendida pelo autor: com efeito, para Hartog, o século XX teria apresentado um breve momento de preponderância do tempo futuro em sua experiência temporal, todavia, a categoria do presente foi se intensificando até se tornar soberana, um presente maciço, onipresente, invasivo, que não tem nenhum horizonte a não ser o próprio, fabricando cotidianamente o passado e o futuro de que necessita, dia após dia (Hartog, 2013. p.238).

Hartog descreve o desenvolvimento cronológico das políticas patrimoniais partindo, desde os movimentos de conservação dos monumentos nacionais em um momento pós-Revolução Francesa, passando pelas leis de 1887 e 1913, até encontrar legislações mais recentes que passaram a museificar e preservar todo tipo de patrimônio cultural nacional, regional ou dos diversos grupos sociais ou dos diversos grupos sociais em benefício comum de toda a coletividade (p.233).

Para o autor, entre as cartas de Atenas (de 1931) e de Veneza (de 1964), pode-se ver uma preocupação em ampliar de maneira exponencial os objetos que poderiam se tornar patrimônio histórico e cultural, caracterizando, por um lado, uma consciência de unidade de valores humanos e riquezas culturais que exigiam a sua salvaguarda sob a ameaça de desaparecimento e, por outro lado, uma relação com o tempo presente que historiza a si mesmo (Hartog, 2013. p.233- 235).

Acreditamos que a proposta de subordinar as políticas de memória e patrimônio às concepções de dimensões temporais e regimes de historicidade de cada sociedade explica apenas parte desses fenômenos, na medida em que mapeia e concebe, de maneira erudita e original, as pré-disposições intelectuais e de relações com o tempo que tornariam possíveis esses trabalhos de reconstituição do passado de acordo com os interesses fomentados pela dinâmica social do tempo presente.

Consideramos, todavia, que a proposta de Hartog, embora reconheça a relação existente entre os monumentos históricos, patrimônios culturais e a coesão da memória nacional, acaba por relegar o fato de que a memória também possui uma contra-face que é tão arbitrária quanto o exercício de rememoração: o esquecimento. Esse exercício de lembrança e esquecimento, não pode ser encarado enquanto um processo natural, desprovido de interesses e ideais políticos. Sobre essa questão, é relevante a contribuição de Michael Pollak, cujo estudo chama a atenção ao fato de que o processo de construção das memórias coletivas (sobretudo a memória nacional moderna) se dá em termos de imposição política, como uma forma específica de dominação e, portanto, não pode ser referido em termos de negociação ou comunidade afetiva, já que, devido à sua seletividade, não comporta a voz daquelas lembranças proibidas, indizíveis e vergonhosas (Pollak, 1989. p.9).

Tem-se reconhecido a artificialidade e o pragmatismo político da memória mesmo em estudos que contemplam a Antiguidade Greco-Romana: o estudo de Susan Alcock, por exemplo, argumenta no sentido de evidenciar que alguns impérios pré-modernos, sobretudo em seus estágios iniciais de criação e expansão sobre outros territórios e populações, recorreram à manipulação da memória visando a disseminar uma ideologia de tendência centrípeta sobre os seus dominados. O trabalho sobre a memória alheia, para a autora, pode servir à manutenção de poder, à amnésia social, à apropriação da memória alheia, à edificação de coletivizações e até mesmo à construção de identidade e pertencimento (Alcock, 2001. p.325).

Referências Bibliográficas

ALCOCK, Susan.The Reconfiguration of Memory in the Eastern Roman Empire. In: ALCOCK, Susan. (Et Alii). Empires: Perspectives from Archaeology and History.Cambridge: University Press, 2001.

GUMBRECHT, Hans Ulrich. Depois de Depois de aprender com a história, o que fazer com o passado agora?. In: NICOLAZZI, F.; MOLLO, H. M.; ARAÚJO, V. L. (Orgs.) Aprender com a história? O passado e o futuro de uma questão. Rio de Janeiro: Editora da FGV, 2011.

HARTOG, François. Regimes de Historicidade. Presentismo e Experiências do Tempo. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2013.

KOSELLECK, Reinhart. Futuro Passado. Contribuição à Semântica dos Tempos Históricos. Rio de Janeiro: Editora Contraponto/PUC Rio, 2006.

NICOLAZZI, Fernando. A História Entre Tempos: François Hartog e a Conjuntura Historiográfica Contemporânea. História: Questões & Debates. Curitiba, n.53, 2010, Editora da UFPR._____________;RODRIGUES, Henrique Estrada. Entrevista com François Hartog: história, historiografia e tempo presente. História da Historiografia. Ouro Preto, Número 10. Dezembro de 2012. p.351-371.

POLLAK, Michael. Memória, Esquecimento, Silêncio. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol.2, n.3, 1989. p.03-15.


* Aluno do Mestrado em História Cultural pelo IFCH/UNICAMP. Colaborador do Laboratório de Arqueologia Pública Paulo Duarte (LAP/NEPAM/ UNICAMP). >E-mail: filipinhu_eh@hotmail.com

[1]HARTOG, François. Regimes dhistoricité. Présentisme et expériences du temps. Paris: Éditions du Seuil, 2003.

[2] Para uma síntese das principais obras de Hartog publicadas no Brasil, vide: NICOLAZZI, Fernando. A História Entre Tempos: François Hartog e a Conjuntura Historiográfica Contemporânea. História: Questões & Debates. Curitiba, n.53, 2010, Editora da UFPR. p.231. Para as obras de François Hartog publicadas na França, vide: HARTOG, François. Regimes de Historicidade. Presentismo e Experiências do Tempo. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2013. p.262.